Mostra “Mojica 24 horas – Zé do Caixão”, Virada Cultural 2011

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O grande mestre do horror nacional, José Mojica Marins, será homenageado na Virada Cultural 2011 (que acontece em São Paulo nos dias 16 e 17/04), com a exibição ininterrupta de algumas de suas principais obras ao longo de 24 horas no Cine Windsor, situado na Av. Ipiranga, 9740.

É uma boa oportunidade de ver na telona a trilogia formada por À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER e finalizada por sua produção mais recente, ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Além da trilogia, serão exibidos 03 curtas na primeira sessão (ainda não obtive informação de quais serão as obras, quando confirmar adicionarei ao post), assim como os clássicos absolutos O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS), O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO e DELÍRIOS DE UM ANORMAL.

Serão exibidas 14 obras no total, e além dos trabalhos realizados pelo diretor, haverá a exibição de O PROFETA DA FOME, dirigido por Maurice Capovilla e protagonizado por Mojica, no qual ele vive o papel de Ali Khan, personagem inspirado no faquir Silk, seu amigo na vida real e A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, que apesar de ter sido dirigido por Mojica, foi inicialmente creditado a Marcelo Motta, um de seus alunos na escola de cinema e interpretação, como forma de tentar alavancar a carreira cinematográfica de seu discípulo, segundo o próprio.

Claramente, a mostra não se limita a exibir filmes somente com o personagem do coveiro Zé do Caixão, mas como já ocorreu tantas outras vezes, o nome da criação mais famosa de José Mojica Marins foi usado para garantir a presença do público, que por vezes confunde criatura com criador, evidenciando a força deste mítico personagem que já faz parte da cultura popular brasileira.

Meu primeiro encontro com o Mestre!

Segue a programação da mostra:

Mojica 24 Horas – Mostra Zé do Caixão:

18h – Sessão de curtas (03 Filmes)

20h – A SINA DO AVENTUREIRO

22h – O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS)

00h – À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA

02h – ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER

04h – O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO

06h – FINIS HOMINIS

08h – DELÍRIOS DE UM ANORMAL

10h – ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

14h – INFERNO CARNAL

16h – A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES

(16/04/2011: Os curtas que integram a primeira sessão são O UNIVERSO DE MOJICA MARINS, documentário de Ivan Cardoso filmado em 1978, A LASANHA ASSASSINA de Ale McHaddo, 2002 e PESADELO MACABRO, dirigido por Mojica em 1968, um dos episódios do longa TRILOGIA DE TERROR, que também conta com Ozualdo Candeias e Luís Sérgio Person na direção.)

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MAD DETECTIVE (Johnnie To, Wai Ka-Fai – 2007)

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Mais uma resenha do Batata aqui no blog, desta vez sobre MAD DETECTIVE, uma parceria entre os diretores Wai Ka-Fai e Johnnie To, um dos mais respeitados realizadores do gênero policial no oriente. Divirtam-se!

Esse filme chinês mostra a história do detetive Chan Kwai Bun (Ching Wan Lau, excelente), um ex-detetive que, em sua época, já foi considerado gênio por suas resoluções rápidas e precisas dos casos mais complicados. Porém, seus métodos eram pouco ortodoxos, pois consistiam em representações dos crimes feitas por ele mesmo. Isso, aliado ao seu comportamento, digamos, “excêntrico”, acabou acarretando em seu afastamento da polícia, que alegava que o mesmo possuía problemas mentais.

Alguns anos depois, Bun é procurado pelo agente Ho Ka On (Andy On), que já havia trabalhado com ele anteriormente e o admirava. Ho investigava o caso de um detetive desaparecido, e depois de meses sem provas, resolve pedir a ajuda de quem ele considera como a um mestre.

Logo é revelado o segredo do ex-detetive Bun: ele consegue enxergar as personalidades interiores das pessoas, como seres de carne e osso; e ainda conversar com elas. Claro que não é algo fácil de engolir, e apesar de seus esforços, Ho começa a se questionar se está trabalhando com um gênio, ou com um ser humano cada vez mais consumido pela loucura.

Logo no início do filme, somos tomados pelo clima de estranheza e comicidade, sendo levados a pensar que se trata de mais um filme bizarro que não deve ser levado a sério. Mas conforme a história se desenvolve, acabamos nos acostumando com o dom e as peculiaridades de Bun, e somos tomados pela trama policial bem conduzida, e pelos toques dramáticos que humanizam e ajudam a tornar os personagens (principalmente o protagonista) mais tridimensionais.

Apesar de tratar-se de um filme de investigação, a identidade do criminoso fica clara desde o início (como não poderia deixar de ser, devido aos talentos de Bun), mas mesmo assim, ficamos presos à história. Mais do que o desejo de descobrir aonde seremos levados, é o desejo de descobrir como seremos levados. E ainda conta com um ótimo clímax.

Mas o toque sobrenatural do filme o concede um charme todo especial. Não dá pra assistir e não se questionar sobre a função das personalidades sobre os seres humanos. Interessante é imaginar na prática, uma pessoa que, apesar de ser totalmente diferente de você, pode ser o seu eu verdadeiro. Imagine então se forem várias pessoas diferentes tentando tomar o controle de nossas decisões?

No geral as interpretações são muito boas, com destaque para Ching Wan Lau, com um detetive Bun interessante, misterioso e carismático (que vontade de ver a representação da sua personalidade – ou personalidades – interior); para Ka Tung Lam e seu personagem Ko Chi Wai, que consegue nos mostrar suas múltiplas personalidades com pequenas mudanças de expressões; e Kelly Lin, com a dualidade de May Cheung. A interpretação de Andy On chega a ser um pouco apagada e apática perto dos outros, mas talvez seja porque seu personagem pede justamente isso.

A direção é ágil e competente, com vários momentos inspirados como, por exemplo, sete personalidades caminhando em sincronia assobiando a trilha sonora, e uma sequência de cenas utilizando personagens, personalidades e espelhos (não pude deixar de lembrar de PERFECT BLUE e CISNE NEGRO). Os diretores do filme são Wai Ka-Fai e Johnnie To, sendo esse último talvez mais conhecido no Brasil, por ter dirigido o filme HAK SE WUI (ELEIÇÃO – O SUBMUNDO DO PODER, de 2005). Em 2008 o filme ganhou o prêmio Black Dragon na 10ª edição do Far East Film Festival (FEFF).

Não se engane, apesar de conter doses de sangue e uma trama sobrenatural, o que impera na película é o gênero policial. Cabe a cada espectador decidir se isso é um aspecto benéfico ou não do filme, mas particularmente, achei que foi de grande habilidade utilizar um dom paranormal como complemento de uma trama, e não fazer com que o filme dependa única e exclusivamente disso, como tantos outros diretores fazem.

Escrito por Renato Batarce.

UZUMAKI (Higuchinsky – 2000)

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Imaginem uma cidade que começa a ser assombrada por espirais. Isso mesmo, espirais. Pois foi essa idéia louca que surgiu da cabeça de Junji Ito, criador do mangá Uzumaki, grande sucesso de vendas no Japão. Esta história insólita foi adaptada para a telona por Higuchinsky, pseudônimo do cineasta Akihiro Higuchi, nascido na Ucrânia.

A trama é simples: Kirie Goshima mora em Kurozu-cho, aparentemente uma pacata cidadezinha japonesa, e leva uma vida como a de qualquer adolescente. Ela possuí um amigo de infância chamado Shuichi Saito, pelo qual nutre uma silenciosa paixão. Em meio à calmaria em que os personagens vivem, algo inusitado começa a ocorrer. Shuichi repara que seu pai desenvolve um profundo fascínio por espirais, e que este fascínio logo vira obsessão.

O pai de Shuichi começa a colecionar qualquer objeto que tenha forma de espiral, ou que ao menos tenha uma espiral desenhada, e até larga seu emprego para passar todo o seu tempo em casa observando os objetos, em transe. A loucura do pai de Shuichi é tanta que, ao ser questionado por sua mulher e filho sobre sua estranha conduta, torna-se violento, e passa cada vez mais tempo isolado com sua coleção, murmurando sobre como espirais são perfeitas.

Outros bizarros acontecimentos se desenrolam na cidade: alunos que passam a se mover cada vez mais lentamente, liberando uma éspécie de gosma através da pele; suícidios e mortes acidentais em locais que estão ligados à objetos circulares; nuvens que se comportam de forma não natural, formando padrões em espiral no céu e por aí vai…

O roteiro explora bem a loucura dos personagens e a atmosfera de suspense sobrenatural que permeia a história, mas fiquei com a sensação de que alguns pontos da trama não foram elucidados, o que infelizmente é bem comum quando falamos de uma adaptação de outras mídias para o cinema.

O mangá é ainda mais estranho...

Higuchinsky mostra competência técnica no que se refere aos aspectos visuais do filme; é notório o cuidado do diretor com a utilização das cores (o filme todo tem um aspecto frio, esverdeado) e é curioso o fato de que, em uma ou outra cena, existam espirais surgindo na tela, quase imperceptíveis, como pequenas mensagens subliminares. O andamento do longa me lembrou um pouco outras obras de horror japonês do mesmo período, como os conhecidos JU-ON (de Takashi Shimizu, 2002) e RINGU (de Hideo Nakata, 1998), embora este filme não seja calcado em sustos repentinos e atmosfera opressiva como estes outros dois.

Falando na atmosfera do filme, é interessante reparar que o diretor escolheu uma roupagem leve para a obra, contando com alguns momentos cômicos, focando nos jovens protagonistas.  Em alguns momentos chega a lembrar a dinâmica de um telefilme, talvez porque no mesmo ano em que trabalhava em UZUMAKI, Higuchinsky tenha dirigido LONG DREAM, um filme feito para a TV japonesa, que está entre a linha do média e do longa metragem, com apenas 58 minutos de duração (adaptação de outro mangá de Junji Ito).

Apesar do mangá Uzumaki ser considerado obra-prima por muitos, as opiniões costumam se dividir quando o assunto é o filme; há quem ache esta adaptação desprezível, assim como não é difícil ver boas críticas do longa por aí. Isso ocorre principalmente porque o final do filme é inconclusivo e difere do desfecho da obra original, uma vez que o mangá ainda não havia sido finalizado pelo autor quando a história foi levada às telas.

Em resumo, UZUMAKI é um filme que agrada aos fãs de horror, embora seja um filme de suspense surreal, e as suas poucas deficiências são compensadas pelo visual caprichado e roteiro imprevisível. Vale a pena dar uma olhada com mais cuidado nesta obra.

PS: Para os que se interessaram, o mangá escrito por Junji Ito foi lançado no Brasil pela Conrad Editora em três volumes.