Mostra “20 Anos de Takashi Miike”, de 17/08 a 28/08

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Começa hoje na cidade de São Paulo a mostra “20 Anos de Takashi Miike”, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a exibição de 20 obras do cineasta.

Oportunidade perfeita para quem deseja ver ou rever os filmes deste excelente diretor em cópias de 35mm (com exceção do média metragem IMPRINT, que será exibido em Beta Digital), a preços módicos.

Acessem o site da mostra e vejam a programação, não percam esta oportunidade de conferir os delírios visuais de Miike com a melhor imagem possível! Veja o site da mostra AQUI.

OBS: Dia 27 de Agosto ocorrerá a pré-estréia nacional do mais novo filme do cineasta, ICHIMEI, com exibição em 3D no Cinemark do Shopping Metrô Santa Cruz (somente esta sessão terá cobrança de ingresso convencional com a tabela de preços do local). Após a sessão, ocorrerá uma vídeo conferência via Skype com Miike.

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I DRINK YOUR BLOOD (David E. Durston – 1970)

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Mais uma pedrada que o Batata coloca aqui no blog! A década de 70 foi realmente uma maravilha!

I DRINK YOUR BLOOD é um horror exploitation daqueles que nos deixa felizes pelos anos 70 terem existido. Sangue, satanismo, sexo, drogas, sadismo, tudo bem explícito e da maneira mais chocante que os responsáveis conseguiram exibir na época.

Sem piadinhas ou humor negro, I DRINK YOUR BLOOD foi planejado pra chocar e incomodar, principalmente na época em que foi feito, com temas que incomodavam muitos americanos.

Lançado em 1970, o filme mostra uma caravana de hippies satanistas, cujo líder se autoproclamava filho do Demo. Eles chegam nas proximidades da pequena cidade de Valley Hills, com apenas 40 habitantes e, durante um de seus cultos, são observados por uma garota local. Quando se dão conta da presença da menina, ela é perseguida, espancada e violentada (apesar de não falarem diretamente em estupro, fica claro que foi isso que ocorreu).

Quando o grupo chega à cidade, ocupam uma das muitas casas abandonadas. Em uma cidade quase abandonada, claro que um grupo de pessoas de fora chama atenção, principalmente por seu comportamento incomum. O avô da garota atacada vai tirar satisfações com o bando, e os encontra torturando um de seus membros. O velho é subjugado e dopado com LSD, e seu neto de 10 anos observa tudo.

O filme já prende a atenção desde o começo, mas a partir desse ponto que ele realmente começa. Decidido a se vingar, o garoto injeta sangue de um cão raivoso que ele matou em tortas de carne da padaria local. Ele vende as tortas para o grupo de hippies, e começa uma epidemia incontrolável.

Não são zumbis, são pessoas com o vírus da raiva. Nervos descontrolados, ataques de violência, boca espumante e hidrofobia. Essa doença age de formas e intensidades distintas em cada um do grupo. A raiva é praticamente incurável, com um pequeno número de casos resolvidos. O infectado se torna cada vez mais hostil, mas está consciente de todo o processo. Ao aparecer a hidrofobia, medo intenso de líquidos (e uma das principais armas contra os infectados no filme), a morte é praticamente certa. A raiva mata em cerca de 04 dias.

Claro que o filme tenta explorar a doença da forma mais exagerada possível. Mas é uma ótima desculpa para jogar de forma intensa na tela variadas formas de violência e sadismo. A música que é repetida em vários momentos do filme contribui também para o clima perturbador e enlouquecedor.

O filme foi dirigido por David Edward Durston, e foi seu filme de maior expressão. Ele também atua no filme em participação não creditada, como Dr. Oakes. Não conheço praticamente nenhum trabalho do resto do elenco, mas o grande destaque vai para o líder hippie satanista Horace Bones, interpretado pelo ator indiano Bhaskar Roy Chowdhury, que faleceu em agosto de 2003.

I DRINK YOUR BLOOD se tornou um sucesso em sessões Grindhouse, principalmente ao lado do filme I EAT YOUR SKIN (do diretor Del Tenney), filme de 1964 lançado apenas em 1970. O distribuidor Jerry Gross juntou os dois filmes e deu o nome de I EAT YOUR SKIN ao segundo, que originalmente se chamava apenas ZOMBIES, e também já chegou a ter títulos como ZOMBIE BLOODBATH e VOODOO BLOOD BATH.

I DRINK YOUR BLOOD é um filme para aqueles que gostam da boa e velha ultraviolência dos anos 70, aquela violência que não é apenas tripas e gore (apesar de ter muito disso também), mas é algo feito pra incomodar e mostrar o tanto que o cinema pode ser cruel e divertido.

OBS: apesar de o trailer abaixo citar I EAT YOUR SKIN, ele contém apenas cenas de I DRINK YOUR BLOOD.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

Mostra “Mojica 24 horas – Zé do Caixão”, Virada Cultural 2011

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O grande mestre do horror nacional, José Mojica Marins, será homenageado na Virada Cultural 2011 (que acontece em São Paulo nos dias 16 e 17/04), com a exibição ininterrupta de algumas de suas principais obras ao longo de 24 horas no Cine Windsor, situado na Av. Ipiranga, 9740.

É uma boa oportunidade de ver na telona a trilogia formada por À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER e finalizada por sua produção mais recente, ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Além da trilogia, serão exibidos 03 curtas na primeira sessão (ainda não obtive informação de quais serão as obras, quando confirmar adicionarei ao post), assim como os clássicos absolutos O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS), O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO e DELÍRIOS DE UM ANORMAL.

Serão exibidas 14 obras no total, e além dos trabalhos realizados pelo diretor, haverá a exibição de O PROFETA DA FOME, dirigido por Maurice Capovilla e protagonizado por Mojica, no qual ele vive o papel de Ali Khan, personagem inspirado no faquir Silk, seu amigo na vida real e A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, que apesar de ter sido dirigido por Mojica, foi inicialmente creditado a Marcelo Motta, um de seus alunos na escola de cinema e interpretação, como forma de tentar alavancar a carreira cinematográfica de seu discípulo, segundo o próprio.

Claramente, a mostra não se limita a exibir filmes somente com o personagem do coveiro Zé do Caixão, mas como já ocorreu tantas outras vezes, o nome da criação mais famosa de José Mojica Marins foi usado para garantir a presença do público, que por vezes confunde criatura com criador, evidenciando a força deste mítico personagem que já faz parte da cultura popular brasileira.

Meu primeiro encontro com o Mestre!

Segue a programação da mostra:

Mojica 24 Horas – Mostra Zé do Caixão:

18h – Sessão de curtas (03 Filmes)

20h – A SINA DO AVENTUREIRO

22h – O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS)

00h – À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA

02h – ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER

04h – O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO

06h – FINIS HOMINIS

08h – DELÍRIOS DE UM ANORMAL

10h – ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

14h – INFERNO CARNAL

16h – A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES

(16/04/2011: Os curtas que integram a primeira sessão são O UNIVERSO DE MOJICA MARINS, documentário de Ivan Cardoso filmado em 1978, A LASANHA ASSASSINA de Ale McHaddo, 2002 e PESADELO MACABRO, dirigido por Mojica em 1968, um dos episódios do longa TRILOGIA DE TERROR, que também conta com Ozualdo Candeias e Luís Sérgio Person na direção.)

A SERBIAN FILM (Srdjan Spasojevic – 2010)

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Quando li a primeira notícia sobre A SERBIAN FILM na internet, fiquei com um pé atrás. Anos de experiência assistindo todo tipo de bizarrice cinematográfica já me ensinaram que a maioria dos filmes que causam polêmica na mídia não me agradam muito. Na minha opinião, polêmica em excesso é sinal de picaretagem. Mas isso não é unanimidade, pois sempre existem exceções para qualquer regra. Foi assim com o excelente IRRÉVERSIBLE, dirigido por Gaspar Noé em 2002. Um dos filmes mais tensos e brutais que já tive notícia, contendo uma longuíssima cena em que a protagonista (interpretada de forma visceral pela musa Monica Bellucci) é estuprada e espancada dentro de um túnel em Paris por aproximadamente 10 minutos, em um plano-sequência angustiante, feito com a intenção de chocar o mais sádico dos espectadores. IRRÉVERSIBLE ganhou notoriedade na mídia após ter sido um dos filmes integrantes da seleção oficial do Festival de Cannes de 2002, esvaziando as sessões em que foi exibido (algumas pessoas inclusive paravam de ver o filme bem antes, durante a cena com o extintor de incêndio na casa noturna).

Tendo isto em mente, comecei a buscar mais informações sobre o filme, e vi que o roteiro tinha algo a ver com filmes snuff, pornografia e até pedofilia. E é tratando sobre estes singelos assuntos que o diretor sérvio Srdjan Spasojevic fez barulho na mídia, arrebatando uma legião de fãs ao redor do mundo, assim como opositores enfurecidos.

O filme mostra a vida do ex-astro pornô Milos (Srdjan Todorovic, mediano), que já estando com certa idade, tenta levar uma vida pacata com sua esposa e seu filho pequeno. Após se encontrar com uma antiga amiga, recebe uma proposta para trabalhar novamente em um filme pornográfico, que promete ser um projeto diferente de tudo que ele havia feito anteriormente. O protagonista se encontra com o diretor do filme, Vukmir (Sergej Trifunovic, em atuação inspirada), aparentemente um excêntrico milionário fissurado pela figura de Milos. A quantia oferecida ao ex-ator é muito alta, fazendo com que ele resolva estrelar o filme. Vukmir faz apenas duas ressalvas a Milos: informa que ele não ficará sabendo do roteiro do filme até o exato momento das filmagens e pede para que o mesmo aja sempre naturalmente, como se as situações encenadas pelo resto do elenco estivessem ocorrendo na vida real.

Como vocês podem ver, o roteiro é simples, mas interessante. E poderia ter sido bem melhor aproveitado pelo diretor. Digo isso porque a partir do momento que o protagonista visita o primeiro set de filmagem, começa a se dissipar o clima de suspense da película, e a inaptidão de Spasojevic começa a ficar aparente.

Uma coisa precisa ficar clara neste momento: não sou de forma alguma defensor dos bons costumes e da moral quando o assunto é cinema. Posso citar inúmeras obras que considero verdadeiros clássicos, mas que possuem cenas repulsivas, imorais, pornográficas e afins. Que fã de cinema extremo não gosta de CANNIBAL HOLOCAUST, obra-prima de Ruggero Deodato, que possui cenas reais de animais sendo mortos? Ou PINK FLAMINGOS, de John Waters, em que a drag queen Divine saboreia um petisco que acaba de ser “servido” por um cachorro na calçada? Poderia citar diversos filmes aqui, cada qual com seu quinhão de nojeiras, violência, nudez e sexo gratuitos, porém o que salva estas obras, e em muitos casos até as torna indispensáveis, é a habilidade do diretor ao conduzir a história, seja ela qual for.

E é isso que acabei sentindo falta em A SERBIAN FILM. Com uma premissa dessas, Srdjan Spasojevic poderia ter realizado um filme excelente, mesclando suspense, tensão e violência na trama, e mesmo que o intuito fosse chocar o espectador, não faltariam oportunidades de fazê-lo. Porém me parece que o diretor simplesmente se limitou a imaginar o que seria a coisa mais ofensiva que poderia colocar na tela, e depois tentar superá-la com algo ainda mais infame.

Muito da polêmica que acompanha o filme mundo afora se deve ao uso de crianças em algumas cenas mais pesadas, de caráter sexual. A cargo disso, o diretor vem recebendo acusações de promover a pedofilia com sua obra.

Não concordo com estas acusações, pois em momento nenhum o filme se presta a enaltecer este tipo de crime hediondo; muito pelo contrário, o protagonista desde o princípio da trama se mostra avesso às imagens de uma pré-adolescente exibidas em um telão durante uma das cenas pornográficas que ele grava, mesmo que nas imagens a jovem não faça nada mais do que se maquiar e chupar um picolé. O desconforto gerado pelas imagens é grande, pois apesar de mostrarem ações inocentes por parte da garota, ganham uma conotação erótica ao serem exibidas no momento em que Milos está em ação.

Uma das idéias mais interessantes de A SERBIAN FILM é a forma como trabalha o diretor que contrata Milos. O protagonista sempre é chamado para sua mansão momentos antes do início das gravações, é escoltado de olhos vendados por seguranças até as locações e ganha um ponto eletrônico para receber instruções de Vukmir sobre como proceder durante as cenas nas quais atuará. Todo o elenco já se encontra no local, encarnando seus personagens, e vários operadores de câmera estão devidamente posicionados nas dependências. Tudo para que Milos possa ter a reação mais natural possível ao que irá ocorrer.

A partir daí Milos é colocado em situações cada vez mais desagradáveis durante as gravações, que envolvem mulheres sendo espancadas, sexo violento e a presença da suposta filha de uma das atrizes durante as cenas, a mesma garota dos vídeos exibidos no telão. E no momento em que o ator, atormentado por sua consciência, decide sair da produção, seu mundo se torna um verdadeiro inferno. É chegada a hora da cena mais polêmica do longa, que envolve o abuso de um recém nascido (é preciso dizer que, apesar de ser uma cena de extremo mau gosto, o diretor teve a decência de utilizar um boneco animatrônico para executá-la, e que o abuso não é mostrado explicitamente, tendo sido filmada de um ângulo indireto).

A violência cresce exponencialmente nos próximos minutos do longa, e a meu ver é banalizada a ponto de tirar o interesse do espectador na trama. Mutilações, torturas e estupros acontecem em meio à confusão mental de Milos, que acaba drogado e desorientado, tentando solucionar um mistério do qual ele agora faz parte.

Por mais apelativo que seja, o final do filme reserva uma surpresa ao espectador. Não sei como foi feita a última sequência, mas esta sim me pareceu a única cena a utilizar a imagem de uma criança de forma inapropriada. Um verdadeiro soco no estômago dos que não estão acostumados a assistir filmes com violência extrema como este.

Recomendo àqueles que quiserem assistir ao filme, que procurem pela cópia feita a partir do arquivo de divulgação (screener copy) disponível para download na rede, que embora tenha marcas d’água constantes na imagem, e outra ainda maior que aparece de vez em quando durante o filme, tem uma boa imagem e não possuí cortes ou qualquer tipo de censura. AQUI vocês podem ter uma idéia da censura imposta no filme para o lançamento do DVD no Reino Unido.

Srdjan Spasojevic já vem enfrentando grandes problemas com o governo da Sérvia, que o acusou de uso imoral de crianças num filme, e também em outros países onde A SERBIAN FILM tem sido exibido, pois embora o filme tenha ganhado o Prêmio Especial do Júri no Fantasporto 2011, acabou sendo retirado de alguns festivais como o British Horror Film Festival e a mostra Film 4 Frightfest. Agora pesa sobre o tradicional Festival de Sitges e seu diretor, Angel Sala, a acusação de promoção à pornografia infantil, após a exibição do filme.

Na última Sessão do Comodoro, que ocorreu nesta quarta-feira dia 09/03 no CineSESC, como sempre capitaneada pelo cineasta Carlos Reichenbach, houve o anúncio de que talvez o filme seja exibido na próxima edição do evento, que acontecerá em Maio.

A SERBIAN FILM é apenas mais um exemplar de shock film, que se utiliza de cenas extremamente repulsivas ou violentas para chamar a atenção do público e mídia. Pelo visto a fórmula ainda funciona. Só espero que o diretor estreante Srdjan Spasojevic realize obras mais relevantes do que os igualmente superestimados O ALBERGUE e CABANA DO INFERNO, ambos do picareta de mão cheia Eli Roth, pois tudo o que menos precisamos é de um clone dele fazendo filmes nos Balcãs.

BLACK DEVIL DOLL (Jonathan Lewis – 2007)

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Como vocês já notaram, o blog passou por um certo período sem atualizações, pois tanto eu quanto o Batata não estávamos com muito tempo para escrever as resenhas. Mas voltamos, e como reparei que tenho escrito muito sobre cinema asiático, hoje é dia de filme norte-americano aqui no Película Raivosa! Aguardem os novos textos do Batata, tenho certeza que serão bem interessantes! Boa leitura e até a próxima atualização!

Um presidiário negro é executado, após ter sido condenado pelo estupro e assassinato de 15 mulheres brancas. No mesmo momento da execução, uma jovem entediada brinca inocentemente com um tabuleiro ouija em sua casa. O espírito maligno do presidiário é atraído pelo tabuleiro e após fazer contato com a moça, incorpora em um de seus bonecos. Será esse mais um blockbuster de terror acéfalo, oriundo da terra do Tio Sam? Mais uma dessas regravações de algum filme de sucesso do fim dos anos 80, que estão tão em moda hoje em dia, onde se altera vários detalhes do roteiro original para mascarar a completa falta de originalidade da turma financiada pelos grandes estúdios de Hollywood? Será então uma nova roupagem para o cultuado BRINQUEDO ASSASSINO, de Tom Holland? Não leitor… Para nossa sorte, o buraco é mais embaixo.

O filme BLACK DEVIL DOLL pode ser considerado uma evolução de outro longa do qual é quase homônimo, o tosco BLACK DEVIL DOLL FROM HELL. Em 1984, o aspirante a cineasta Chester Novell Turner levou às telas (ao vídeo, para ser mais exato) a história de um boneco possuído por uma entidade maligna, que tinha o poder de realizar o desejo mais íntimo da pessoa que o possuísse. Bem, como estamos falando de um filme trash amador da década de 80, não é de se espantar que o desejo da dona do boneco, uma fanática religiosa na casa dos 35 anos, era exatamente ser possuída por um homem.

Não sei qual foi a intenção de Chester Novell Turner ao fazer BLACK DEVIL DOLL FROM HELL, mas a impressão que ficou, ao menos para mim, é de que ele fracassou de forma retumbante. Poucas vezes em minha vida fiz tanta força para assistir um filme na íntegra, e acreditem, estou acostumado a porcarias cinematográficas de todo tipo. Nada funciona neste longa: o boneco demoníaco usa roupa de presidiário e tem trancinhas, ninguém em sã consciência compraria um boneco escroto como esse em uma loja de artigos para magia; a protagonista não pode sequer ser chamada de atriz, tamanha é sua inaptidão em atuar; o ritmo do filme é lento ao extremo, e nem as cenas em que o boneco está fazendo das suas melhoram o andamento desta porcaria; a trilha sonora é horrível, chega a ser torturante de tão alta e dissonante, basicamente um músico ruim mexendo em um teclado ou sintetizador, criando melodias absurdamente simples e fora de compasso, com uns apitos tão altos que chegam a atrapalhar o entendimento dos diálogos; a cenografia e fotografia são bem pobres, até mesmo porque os equipamentos utilizados na produção não foram dos melhores (geralmente utilizado em programas de TV, o videotape tem uma imagem bem fosca e sem contraste, se comparado à películas usadas em produções profissionais).

Mas apesar de tantos pontos negativos, BLACK DEVIL DOLL FROM HELL tem status de filme cult para alguns, e como eu já havia mencionado, serviu de inspiração para que Jonathan Lewis realizasse seu BLACK DEVIL DOLL em 2007. O filme de Jonathan Lewis não é de forma alguma uma obra-prima, mas é infinitamente melhor e mais divertido que seu predecessor.

O filme copia a estética dos sexploitations feitos na década de 70, mas não utiliza efeitos digitais na imagem para emular falhas comuns em películas antigas, como foi feito em PLANETA TERROR de Robert Rodriguez, DEATH PROOF de Quentin Tarantino e mais recentemente nos primeiros minutos de MACHETE, outro filme de Rodriguez. É digna de destaque também a trilha sonora funkeada, muito bem encaixada e executada, completando a atmosfera setentista da produção.

O roteiro é simples e não esconde do espectador a verdadeira intenção do diretor: fazer um filme cômico, anárquico, repleto de sangue e mulheres nuas. Falando no elenco feminino do longa, temos cinco garotas de formas bem avantajadas e com pinta de atrizes pornográficas, trajando pouca ou nenhuma roupa, fingindo que estão atuando. Prato cheio para os onanistas de plantão.

Deixando de lado os pormenores (ou “pormaiores” – assistam ao filme e entendam o porquê deste trocadilho infame), voltemos à trama do filme: após ter incorporado no boneco que estava no sofá da garota que brincava com o tabuleiro ouija, numa cena bizarra em que o boneco muda de cor e ganha um penteado afro e uma boina, ele logo ganha sua confiança e se torna seu namorado (?), para desespero de seu ex, que fica indignado com o novo relacionamento da garota.

A personalidade do boneco é o estereótipo do homem negro presente nos filmes de gênero Blacksploitation: marginal, garanhão, boca-suja e agressor de mulheres. A dublagem do boneco é sensacional, lembra muito a voz e a entonação de Samuel L. Jackson em filmes como PULP FICTION, JACKIE BROWN e SHAFT. Cada frase proferida por ele é permeada por preconceito, sexismo e palavrões. E é exatamente por ser tão caricato que este personagem se torna hilário.

Depois de um breve espaço de tempo aproveitando o novo relacionamento, o boneco exige que sua namorada traga algumas amigas para sua casa, alegando estar entediado de fazer sexo com apenas uma mulher… Ele então arma uma emboscada para elas, pois sente novamente vontade de violentar e matar.

E o filme segue em frente, em meio a strip-teases, diálogos risíveis, muita nudez gratuita, sexo softcore entre as mulheres e o boneco, atuações pobres e violência de todo tipo: facadas, pauladas, eletrocução, estupros e necrofilia. Garantia de diversão para os amantes do cinema trash e extremo.

Quando foi exibido em 2009 no 4º CineFantasy – Festival Curta Fantástico em São Paulo, integrando a mostra não-competitiva de longas do festival, a diversão começou antes mesmo do início da sessão: a diretora da Biblioteca Viriato Corrêa, espaço que estava exibindo o longa, compareceu à fila fora da sala e pediu que todos ali apresentassem o RG para provar que eram maiores de idade. A risadaria foi geral, mas de fato ninguém entrou sem apresentar o documento a ela… Não era para tanto, mas valeu para aumentar a expectativa antes da exibição desta pérola do cinema politicamente incorreto.

Vale a pena dar uma olhada no site que a produtora Lowest Common Denominator fez para o filme, e se vocês não possuem conta no Youtube, só mesmo dessa forma para poderem assistir aos trailers da produção, clicando AQUI.

Enfim, BLACK DEVIL DOLL é indicado para pessoas que não se ofendem com este tipo de humor, para amantes de sexploitation, fãs de cinema trash e claro, para homens safados em geral.

(Edit em 21/02/2011: Como eu disse acima, no Youtube é preciso acessar sua conta e confirmar que tem ao menos 18 anos para ver o trailer do filme, mas pelo jeito ele rola aqui no blog sem frescura…)

Mostra “Todos os corpos – Parte 1”, de 12/11 a 18/11

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Começa amanhã a mostra “Todos os corpos” na Galeria Olido, aqui no centrão de São Paulo, paralelamente ao 18º Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual, que também começa a ser exibido no mesmo dia.

A mostra “Todos os corpos” tem por objetivo “fazer um panorama sobre os registros do cinema a respeito do corpo” segundo a equipe da Galeria Olido. Serão exibidos filmes que contém cenas de sexo simulado (softcore) e sexo explícito. Até aí tudo beleza, isso não é nenhuma novidade neste espaço cultural, pois o Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual já vem trazendo este tipo de tema e abordagem cinematográfica à telona neste mesmo local faz algum tempo. 

Embora a mostra seja composta predominantemente por filmes de grande apelo erótico de renomados diretores, o que me chamou mais a atenção na seleção de filmes foi a escolha do polêmico SWEET MOVIE  para integrar a grade de exibições.

SWEET MOVIE é um filme de arte de 1974 do diretor Iugoslavo Dusan Makavejev, que causou grande rebuliço em sua estréia, por conter cenas bem gráficas de Coprofilia e Emetofilia, ou seja, cenas com pessoas que se excitam ao ter contato com as fezes e urina de outras, e também tem o singelo hábito de vomitar durante seus atos sexuais, respectivamente. Quem puder assistir verá que a certa altura a protagonista do filme se abriga em um enorme galpão com uma espécie de trupe teatral, e todos se juntam à mesa para um banquete animado; a partir daí só os espectadores de estômago forte continuam assistindo à cena sem se incomodar com a catarse escatológica que se segue.

Dando uma vasculhada pela net achei a informação de que algumas das cenas enxertadas na montagem (cenas em preto e branco que mostram cadáveres em decomposição ao ar livre) são imagens reais de vítimas de um triste evento conhecido na Polônia como Massacre da Floresta de Katyn, ocorrido na década de 40, e estas cenas enfureceram a opinião pública na época do lançamento da película. Por estas e outras o filme foi proibido em muitos países por muitos anos, e continua vetado em algumas localidades. Com o advento das mídias digitais e da facilidade da livre transferência de dados via web de hoje em dia (a boa e velha pirataria), o filme já não é mais tido como um filme raro, mas continua sendo controverso.

A história do filme é interessante, vale a pena dar uma espiada, o roteiro é recheado de alegorias sobre a sociedade moderna, tem belíssimas cenas, bela fotografia e boas atuações. A meu ver, a parte mais politicamente incorreta da obra está na sequência em que Anna Planeta, uma espécie de pirata revolucionária, recebe em seu barco algumas crianças, moleques com não mais do que 12 anos de idade, e os seduz com um strip-tease enquanto eles comem alguns doces (lembrando que são atores mirins, e que ela fica completamente nua a uns 10 centímetros da cara deles).

Bem, a conclusão desse falatório todo é que se pode ter acesso ao cinema de arte, underground, extremo ou o que quer que seja, não só pela net, mas também na telona, pagando a módica quantia de R$ 01,00. É ou não é motivo para se comemorar?

Abaixo, listo algumas sugestões de filmes que serão exibidos, acompanhadas de considerações pessoais para ajudar na escolha de quem puder comparecer à mostra (convenhamos, não é todo mundo que pode se dar ao luxo de ir ao cinema às 15:00 em dias de semana), e no fim do post o link para a programação no site da Galeria Olido:

IMPÉRIO DOS SENTIDOS
(Ai no corrida, Japão, 1976, 97 min). Dir.: Nagisa Oshima. Com Eiko Matsuda, Tatsuya Fuji, Aoi Nakajima e outros.
Dois amantes se reúnem para experimentar formas de prazer que ampliem as possibilidades de amor, sem se importar com fronteiras morais ou sociais.
(nota: Espetacular filme do mestre Nagisa Oshima, com fotografia impecável, ótimo roteiro e figurino, e com um final de certa forma surpreendente para um filme tido como pornográfico, mas que na verdade, se utiliza do sexo explícito e do erotismo como veículo para representar as emoções  dos protagonistas).

SALÓ
(Salò o Le 120 giornate di Sodoma, Itália, 1975, 117 min). Dir.: Pier Paolo Pasolini. Com Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Umberto Paolo Quintavalle e outros.
Adaptação de obra do Marques de Sade, o filme mostra quatro homens poderosos enclausurados em uma mansão para viver todo o tipo de orgias e torturas com garotos e garotas, embalados por histórias narradas por prostitutas.
(nota: Tenso e cruel. Para quem gosta de torturas e sevícias de todo o tipo. Não confundir com porcarias como a franquia JOGOS MORTAIS, Pasolini tem estilo).

O VOYEUR
(L’uomo che guarda, Itália, 1994, 100 min). Dir.: Tinto Brass. Com Franco Branciaroli, Francesco Casale, Katarina Vasilissa e outros.
História de homens e mulheres que olham e são olhados, como o jovem professor universitário, sua mulher bonita e infiel, seu pai libidinoso e uma desinibida empregada doméstica.
(nota: Esse é mesmo para quem é chegado numa safadeza. Não qualquer safadeza, mas sim com a marca de Tinto Brass na direção, o mesmo diretor do aclamado CALÍGULA de 1979, com Malcolm McDowell).

SWEET MOVIE
(França, 1974, 99 min). Dir.: Dusan Makavejev. Com Carole Laure, Pierre Clémenti, Anna Prucnal e outros.
Repleto de surrealismos e escatologias, o filme conta, paralelamente, as histórias de duas mulheres: uma que deixa o marido por não gostar de sexo e se envolve com um roqueiro, e a outra que comanda um barco onde discute sexo e política.

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/galeria_olido/cinema/index.php?p=6018

VISITOR Q (Takashi Miike – 2001)

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Takashi Miike é um gênio, e se você está lendo esse blog provavelmente já sabe disso. Se ainda não sabe, assista a algum filme dele e comprove. Comece por VISITOR Q, você não irá se arrepender.

Este filme faz parte de uma coletânea de seis longas chamada Love Cinema, um projeto envolvendo diretores independentes japoneses, e embora tenham sido apresentados em sessões exclusivas em uma única sala de cinema em Tóquio por um breve período, foram lançados diretamente no mercado de vídeo japonês.  A proposta da coletânea era chamar atenção para a produção mais barata das novas mídias digitais disponíveis na indústria cinematográfica no início da década.

Poster do filme

Poster do filme

Até aí, tudo bem. Mas Miike parece ter visto nesta empreitada a oportunidade de chocar o público. E mesmo que ele não tenha feito o filme com este objetivo em mente, ele se saiu muito bem!

Ao assistir o filme acompanhamos uma família em que o pai é cliente regular da filha prostituta, a mãe também se prostitui para poder sustentar o vício em heroína, o filho apanha de valentões na escola, mas espanca a mãe sadicamente em casa e por aí vai… Em meio a esse caos familiar, um homem misterioso (o visitante do título) será acolhido pela família após ter agredido o protagonista violentamente com uma pedrada na cabeça nos primeiros minutos da trama.

Contar mais seria estragar as surpresas do roteiro para quem ainda não assistiu ao filme, mas se você achou bizarro até agora, ainda não viu nada. A violência aumenta e há espaço na história para mutilações, homicídios e até uma hilária cena de necrofilia! Tudo isso ocorre sem que nada seja mostrado na tela de forma gratuita, confirmando o talento do diretor.

Fiz as contas aqui e já assisti a 19 trabalhos de Miike, o que é muito pouco considerando que sua filmografia atualizada indica que ele possui mais de 70 trabalhos desde sua estréia em 1991 (entre longas para cinema, TV e mercado de vídeo, documentários, episódios e séries de TV completas).

Alguns de seus filmes foram lançados em DVD no mercado nacional, anotem aí: ICHI THE KILLER, DEAD OR ALIVE e DEAD OR ALIVE: BIRDS pela Europa Filmes, que não se dignou a lançar DEAD OR ALIVE FINAL e completar a trilogia; IMPRINT pela Paris Filmes, episódio integrante da primeira temporada da série de TV a cabo MASTERS OF HORROR; ONE MISSED CALL pela Alpha Filmes, somente para locadoras, tentando pegar rabeira no sucesso que fez a regravação norte-americana por aqui, intitulada UMA CHAMADA PERDIDA; e por fim, FAMILY, pela Orion Filmes, em uma edição tosca com uma dublagem muito vagabunda, por sinal.

VISITOR Q compete com ICHI THE KILLER como meu filme preferido de Takashi Miike, e Takashi Miike compete com Park Chan-Wook e Alejandro Jodorowsky pelo posto de diretor preferido deste que vos escreve. Mas isso é pano para manga para outras postagens!

A filha...

The Visitor

...o visitante...

... e o pai.

Esse vídeo aí acima foi editado por alguém na net… coloquei no post porque funciona bem como amostra do filme, dá pra ter uma idéia do que está por vir. Já o link abaixo é de fato o trailer oficial do filme, bem mais confuso e sem noção:
 
Nota: Este post foi publicado originalmente em 29/12/2009 no antigo host http://www.pelicularaivosa.blogspot.com/ . As informações de lançamentos dos filmes se referem à esta data.