Mostra “20 Anos de Takashi Miike”, de 17/08 a 28/08

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Começa hoje na cidade de São Paulo a mostra “20 Anos de Takashi Miike”, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a exibição de 20 obras do cineasta.

Oportunidade perfeita para quem deseja ver ou rever os filmes deste excelente diretor em cópias de 35mm (com exceção do média metragem IMPRINT, que será exibido em Beta Digital), a preços módicos.

Acessem o site da mostra e vejam a programação, não percam esta oportunidade de conferir os delírios visuais de Miike com a melhor imagem possível! Veja o site da mostra AQUI.

OBS: Dia 27 de Agosto ocorrerá a pré-estréia nacional do mais novo filme do cineasta, ICHIMEI, com exibição em 3D no Cinemark do Shopping Metrô Santa Cruz (somente esta sessão terá cobrança de ingresso convencional com a tabela de preços do local). Após a sessão, ocorrerá uma vídeo conferência via Skype com Miike.

MAD DETECTIVE (Johnnie To, Wai Ka-Fai – 2007)

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Mais uma resenha do Batata aqui no blog, desta vez sobre MAD DETECTIVE, uma parceria entre os diretores Wai Ka-Fai e Johnnie To, um dos mais respeitados realizadores do gênero policial no oriente. Divirtam-se!

Esse filme chinês mostra a história do detetive Chan Kwai Bun (Ching Wan Lau, excelente), um ex-detetive que, em sua época, já foi considerado gênio por suas resoluções rápidas e precisas dos casos mais complicados. Porém, seus métodos eram pouco ortodoxos, pois consistiam em representações dos crimes feitas por ele mesmo. Isso, aliado ao seu comportamento, digamos, “excêntrico”, acabou acarretando em seu afastamento da polícia, que alegava que o mesmo possuía problemas mentais.

Alguns anos depois, Bun é procurado pelo agente Ho Ka On (Andy On), que já havia trabalhado com ele anteriormente e o admirava. Ho investigava o caso de um detetive desaparecido, e depois de meses sem provas, resolve pedir a ajuda de quem ele considera como a um mestre.

Logo é revelado o segredo do ex-detetive Bun: ele consegue enxergar as personalidades interiores das pessoas, como seres de carne e osso; e ainda conversar com elas. Claro que não é algo fácil de engolir, e apesar de seus esforços, Ho começa a se questionar se está trabalhando com um gênio, ou com um ser humano cada vez mais consumido pela loucura.

Logo no início do filme, somos tomados pelo clima de estranheza e comicidade, sendo levados a pensar que se trata de mais um filme bizarro que não deve ser levado a sério. Mas conforme a história se desenvolve, acabamos nos acostumando com o dom e as peculiaridades de Bun, e somos tomados pela trama policial bem conduzida, e pelos toques dramáticos que humanizam e ajudam a tornar os personagens (principalmente o protagonista) mais tridimensionais.

Apesar de tratar-se de um filme de investigação, a identidade do criminoso fica clara desde o início (como não poderia deixar de ser, devido aos talentos de Bun), mas mesmo assim, ficamos presos à história. Mais do que o desejo de descobrir aonde seremos levados, é o desejo de descobrir como seremos levados. E ainda conta com um ótimo clímax.

Mas o toque sobrenatural do filme o concede um charme todo especial. Não dá pra assistir e não se questionar sobre a função das personalidades sobre os seres humanos. Interessante é imaginar na prática, uma pessoa que, apesar de ser totalmente diferente de você, pode ser o seu eu verdadeiro. Imagine então se forem várias pessoas diferentes tentando tomar o controle de nossas decisões?

No geral as interpretações são muito boas, com destaque para Ching Wan Lau, com um detetive Bun interessante, misterioso e carismático (que vontade de ver a representação da sua personalidade – ou personalidades – interior); para Ka Tung Lam e seu personagem Ko Chi Wai, que consegue nos mostrar suas múltiplas personalidades com pequenas mudanças de expressões; e Kelly Lin, com a dualidade de May Cheung. A interpretação de Andy On chega a ser um pouco apagada e apática perto dos outros, mas talvez seja porque seu personagem pede justamente isso.

A direção é ágil e competente, com vários momentos inspirados como, por exemplo, sete personalidades caminhando em sincronia assobiando a trilha sonora, e uma sequência de cenas utilizando personagens, personalidades e espelhos (não pude deixar de lembrar de PERFECT BLUE e CISNE NEGRO). Os diretores do filme são Wai Ka-Fai e Johnnie To, sendo esse último talvez mais conhecido no Brasil, por ter dirigido o filme HAK SE WUI (ELEIÇÃO – O SUBMUNDO DO PODER, de 2005). Em 2008 o filme ganhou o prêmio Black Dragon na 10ª edição do Far East Film Festival (FEFF).

Não se engane, apesar de conter doses de sangue e uma trama sobrenatural, o que impera na película é o gênero policial. Cabe a cada espectador decidir se isso é um aspecto benéfico ou não do filme, mas particularmente, achei que foi de grande habilidade utilizar um dom paranormal como complemento de uma trama, e não fazer com que o filme dependa única e exclusivamente disso, como tantos outros diretores fazem.

Escrito por Renato Batarce.

THE UNTOLD STORY (Herman Yau – 1993)

6 Comentários

Deve fazer uns 10 anos que assisti THE UNTOLD STORY pela primeira vez. Na época, assim que acabou de rodar, rebobinei o VHS e vi de novo. Sempre que revejo este filme, tenho a mesma sensação: é um dos filmes mais insanos e divertidos que já vi. Hong Kong realmente não costuma decepcionar.

Os primeiros dois ou três minutos do filme são preenchidos com o passado do protagonista Wong Chi Hang, interpretado de forma brilhante por Anthony Wong, que inclusive recebeu o prêmio de Melhor Ator no Hong Kong Film Awards de 1993 por esta atuação. Na cena vemos uma briga ocorrida em Hong Kong por razão de uma dívida criada em um jogo de Mahjong, e ao ser informado de que não receberá mais dinheiro emprestado de seu amigo, Wong Chi Hang se enfurece, e não só agride seu credor como começa a destruir a casa do pobre homem, que espancado e subjugado, é queimado vivo por ele.

Foragido, Wong Chi Hang se muda para Macau (é nesta ocasião que ele tira outros documentos e troca sua identidade para a atual), e passa a viver aparentemente de forma tranqüila nos próximos anos.

Em uma calma manhã, duas crianças brincam na praia e encontram um saco com membros humanos dentro. A polícia é chamada, e o que parecia ser um filme de gênero policial sério, descamba para um pastelão com humor típico chinês. Os policiais encarregados da investigação são os maiores fanfarrões, preguiçosos e burros que a polícia poderia dispor, e o chefe deles, o oficial Lee, é um superior displicente, que se preocupa mais com as prostitutas que vive contratando e exibindo na delegacia do que com o rumo das investigações.

O foco retorna para Wong Chi Hang, agora gerenciando seu recém adquirido restaurante, especializado em tradicionais bolinhos chineses de carne de porco. Nesse ponto alguns espectadores podem achar que foram enganados pela premissa do filme, mas aí começa a loucura. Como disse antes, Anthony Wong é um ótimo ator, e ele se esforça para convencer o espectador de que é um verdadeiro demente, tamanha é a expressão de insanidade no rosto do personagem.

Wong Chi Hang maltrata os empregados e clientes do restaurante, e passa a maior parte do tempo na cozinha desossando porcos para fazer os bolinhos. Algumas cartas chegam para o antigo dono do restaurante, que desapareceu misteriosamente com toda sua família, e são recebidas pela recepcionista, que começa a desconfiar desta situação.

Mesmo com toda a incompetência dos policiais (que são uma diversão à parte no longa, cada um mais imbecil que o outro), algumas cartas reportando o desaparecimento da família são recebidas na delegacia, e após uma breve averiguação no restaurante, o protagonista passa a ser suspeito de tê-los assassinado, e não demora muito para ligarem o saco com os membros humanos ao desaparecimento da família.

Dito isso, vamos ao que interessa. Este é um dos filmes mais violentos que já vi, com cenas que apesar de simples, e até mesmo toscas, impressionam pela morbidez das ações e pela forma crua como são filmadas e interpretadas. Há uma quantidade enorme de sangue espirrando, tripas sendo arrancadas, carne dilacerada e desmembramentos durante o filme. Esqueçam estes filmecos de hoje em dia, em que a cada 05 minutos uma cabeça explode, ou uma colegial seminua é esfaqueada, ou algum tipo de tortura “super criativa” é executada em alguém, sem que ninguém atente para o fato de que é necessário o mínimo de história para que o espectador de fato fique chocado com o que é mostrado na tela. A falta de cérebro, os orçamentos gigantescos e o CGI estão matando o cinema!

Os efeitos do filme são em sua maioria muito bem feitos, apenas um braço ou uma perna eventualmente filmados em close-up tem uma aparência emborrachada e tosca, mas estamos falando de uma produção de Hong Kong… O que mais chama atenção é a cor do sangue usado nas cenas de mutilação ao longo do filme, que é de um vermelho-tinto muito vivo; embora eu não ficasse surpreso se descobrisse que foi usado sangue de porco na produção, uma vez que boa parte do filme se passa no açougue do restaurante de Wong Chi Hang, e aparentemente as tripas usadas durante a evisceração de uma das vítimas sejam realmente miúdos de porco.

A figura do protagonista é perturbadora nas cenas de assassinato, estupro e chacina que permeiam a história. A violência vem em doses cavalares, e é sadicamente criativa: olhos perfurados, mãos queimadas em água fervente, decapitações, garrafadas, automutilação, agulhadas, penetração com chopsticks e tortura psicológica.

Uma das cenas mais tensas envolve algumas crianças pequenas, e do jeito que a molecada chora, deviam estar acreditando que iam realmente virar picadinho… Anthony Wong até esbofeteia um dos moleques (esse tipo de sacanagem parece que era meio comum no cinema italiano e asiático da década de 70 e 80, vide FEIOS, SUJOS E MALVADOS e O IMPÉRIO DOS SENTIDOS).

Notáveis também são as seqüências que se passam na prisão, em que um grupo de presos surra e tortura repetidamente Wong Chi Hang. Quem está acostumado com os filmes de ação asiáticos, especialmente os de Hong Kong (desde as comédias de Kung Fu que marcaram o início da carreira de Jackie Chan até os truculentos filmes policiais dirigidos por John Woo na década de 80 e 90), sabe que em matéria de pancadaria eles são insuperáveis. Os dublês não economizam esforços para passar a idéia de que realmente estão moendo o infeliz na base da porrada.

Enfim, THE UNTOLD STORY é um filme que agrada em cheio aos fãs de bizarrices asiáticas, com sua inusitada mistura de comédia, perseguição policial e filme gore. Talvez seja mais indicado aos iniciados em cinema extremo, pois não é um filme que poupa o espectador ao mostrar as atrocidades praticadas pelo protagonista. Como diria um amigo meu: “Este é um dos maiores filhos da puta que o cinema teve o trabalho de retratar”.

Infelizmente, o filme é baseado em crimes reais que ocorreram em Macau em 1985, e na medida do possível, os fatos parecem ter sido retratados de forma bem fiel ao que realmente aconteceu, tendo sido mantido até mesmo o nome do assassino real, Wong Chi Hang. Talvez por isso o filme tenha recebido uma classificação etária equivalente ao nosso “Não recomendado para menores de 18 anos” ao ser exibido nos cinemas da China, e tanto o VHS distribuído em Hong Kong quanto o Laser Disc lançado no Japão, foram censurados em várias seqüências (para maiores detalhes da censura, dêem uma olhada AQUI). No entanto, o DVD disponível do filme possui a obra na íntegra, sem cortes.

PS: Os bolinhos chineses de carne de porco são chamados nos países de língua inglesa de pork chop buns, e um dos nomes pelo qual o filme é conhecido é HUMAN PORK CHOP. Acho que dá para imaginar o que tinha no recheio dos saborosos bolinhos…