Cinema de Bordas – 3ª edição

Deixe um comentário

Começa hoje a 3ª edição da mostra Cinema de Bordas no Itaú Cultural, uma ótima oportunidade para os cinéfilos paulistas prestigiarem o trabalho de realizadores independentes brasileiros. Este ano teremos a exibição de 18 obras, entre curtas e médias, contando tanto com filmes recentes quanto com alguns mais antigos.

Na noite de abertura da mostra será apresentada uma prévia de A NOITE DO CHUPACABRAS, o tão aguardado novo filme de Rodrigo Aragão, diretor do já clássico MANGUE NEGRO (apresentado na 1ª edição da mostra, em 2009) e os novos curtas de Joel Caetano e Coffin Souza, ESTRANHA e A PAIXÃO DOS MORTOS, respectivamente; este último estrelado pela nova musa do underground nacional, Gisele Ferran.

Serão exibidos também EXTREMA UNÇÃO, novo curta de Felipe M. Guerra, e o mais recente  filme de Petter Baiestorf , O DOCE AVANÇO DA FACA. Como já é de costume, haverá palestra com os curadores Bernadette Lyra, Gelson Santana e Laura Cánepa no primeiro dia do evento, e também bate-papos com alguns dos diretores ao longo da mostra.

Destaco também na seleção os filmes ROQUÍ – O BOXEADOR DA AMAZÔNIA, de Renato Dib, estrelando Aldenir Coti, mais conhecido como “Rambo da Amazônia”, astro da série de filmes RAMBÚ, e os mais antigos MUSEU DE CERA, de Pedro Daldegan e O LOBISOMEM DA PEDRA BRANCA, de José Denísio Pereira, ambos da década de 80, que parecem muito interessantes.

Enfim, diversão garantida para quem gosta de fugir do lugar comum e aprecia o ótimo cinema independente brasileiro.

O Itaú Cultural fica situado na Av. Paulista, 149 (próximo à estação Brigadeiro do metrô). Entrada franca. Vejam a programação completa AQUI.

Anúncios

Entrevista com Petter Baiestorf

2 Comentários

É com grande prazer que publico agora no blog nossa primeira entrevista, feita neste fim de semana com o gênio do cinema trash/exploitation nacional, o catarinense Petter Baiestorf. Apesar de muitos de seus filmes terem se tornado verdadeiros clássicos do cinema underground ao longo de quase duas décadas de trabalho na Canibal Filmes, suas obras até hoje são produzidas e distribuídas de forma totalmente independente.

Para os que ainda não conhecem o diretor, recomendo a leitura do blog Canibuk, atualizado por Baiestorf e Leyla Buk constantemente, com notícias sobre seus novos projetos e uma tonelada de informações sobre os mais diversos assuntos ligados à arte, música, literatura e cinema. Leiam também uma ótima matéria sobre a história da Canibal Filmes AQUI, e claro, comprem seus filmes no site da Bulhorgia Produções!

Agora vamos à entrevista:

Como você definiria seu trabalho como diretor?

Baiestorf: Nunca paro prá pensar nisso na verdade. Faço vários estilos de filmes porque não gosto de ficar preso em um único gênero na verdade. Faço vídeo poesia, filmes surrealistas, projetos experimentais, trash-movies, gore movies e filmes mais eróticos, quando não misturo tudo isso numa mesma produção! Sempre acredito em evoluir no que tu quer dizer ao público, então se pegar meus filmes de 18 anos atrás, tu vai ver que continuo desenvolvendo uma temática anarquista. É uma espécie de cinema autoral sem levar à sério a palavra autoral, porque quando cara começa a se levar à sério é o começo do fim!

Quais são suas maiores influências cinematográficas?

Baiestorf: Comecei a fazer por causa do cinema vagabundo mundial que me foi bombardeado na infância, produções brasileiras, mexicanas, italianas, chinesas e americanas. Dois filmes foram diretamente responsáveis por eu querer começar a fazer filmes: “The Incredible Melting Man” e “Ultimo Mondo Cannibale”. Um diretor também foi responsável por eu querer fazer filmes, isso já lá pelos 14 anos de idade, 1988, quando tomei conhecimento das idéias de John Waters. Logo depois que comecei a fazer filmes no ano de 1992, na seqüência, comecei a tomar contato com diretores interessantes como George Kuchar, Koji Wakamatsu, Dusan Makavejev, Jodorowsky. Não faço filmes na linha deles, mas suas idéias de cinema tem muita influência quando realizo minhas produções caseiras com amigos. Acho que cinema/vídeo não podem ser apenas diversão, tem que ser diversão mas também trazer alguma pergunta (trazer perguntas, não respostas) e fazer o expectador pensar. Tenho consigo isso com minhas produções.

Qual, dentre os filmes que você já fez, é o seu preferido? Em qual deles você acha que se saiu melhor como diretor?

Baiestorf: Não tenho filme preferido, todos os meus filmes representam uma pequena parte da minha vida, são coisas que tinham que sair de dentro de mim, depois que saiu é do mundo, ficam rodando por tudo que é lugar que aceite exibi-los. E as vezes me surpreende filmes que fiz lá por 1996, sendo exibidos ainda em mostras junto de filmes recentes, acho que são filmes caseiros que permaneceram na mente das pessoas, talvez justamente por serem filmes que fazem as pessoas pensarem. Filmo rápido demais, são tantos projetos por ano que nem rola tempo de me apegar à um filme!

Você diz que não gosta de ZOMBIO, pois ele não tem sua “marca”, porém este é justamente um dos filmes de maior repercussão da Canibal Filmes. A que você atribui isso?

Baiestorf: Porque “Zombio” é um dos únicos filme que fiz que é sessão livre e mais adolescente, ele não ofende e é fácil de ser compreendido. Por isso que 13 anos após ter sido lançado continua sendo visto, continua “popular” entre o pessoal que gosta de filmes de baixo orçamento. Em 2007 eu re-lancei “Zombio” em alguns cinemas aqui do sul prá fazer Double feature com o recém lançado “Arrombada” e pessoal continua curtindo ele. É gratificante um filme continuar sendo assistido, mas acho ele tão bobinho!

Fale um pouco de seus projetos futuros. Como serão estas filmagens com o Felipe M. Guerra na Páscoa?

Baiestorf: O projeto “Páscoa Sarnenta” é o seguinte: Felipe Guerra me procurou querendo fazer um documentário sobre “como fazer um filme de baixo orçamento filmado em 3 dias” e aceitei no ato. Só que como sou um sem noção completo, resolvi aumentar o desafio e fazer 4 filmes em 3 noites e 2 dias de filmagens, enquanto ele documenta todo esse processo de filmagens alucinantes, vou fazer 3 curtas, “Pampa’Migo”, “O Monstro Espacial” e “Filme Político Número Um” e num ato de metalinguagem total, vou fazer um documentário do Felipe Guerra documentando tudo, Se eu falhar estará tudo registrado num documentário para todos aprenderem como Não Fazer um filme de baixo orçamento.

Você escreveu em seu blog que tem vontade de refilmar alguns de seus trabalhos antigos. Dentre os filmes que você mencionou, NINGUÉM DEVE MORRER é o mais recente. O que você sente que precisa ser mudado nele?

Baiestorf: Pretendo sim refilmar de maneira profissional o “Ninguém Deve Morrer”. Quando comecei a escrever este filme eu tinha uma idéia prá um filme de longa-metragem, desenvolvendo melhor as personagens todas, era muito mais insano e surreal do que aquilo apresentado na tela. Minha idéia é refazê-lo com um orçamento maior, equipe técnica profissional e várias outras mudanças. Primeiro que nas minhas pesquisas musicais para a trilha sonora deste filme, encontrei muitas músicas que eu gostaria de ter usado nele e não foi possível quando comecei a cortar idéias para adequá-lo nos 30 minutos que ele e quero comprar essas músicas que usei para não ter problemas de direitos autorais, só com grana minha é impossível isso. Muita idéia boa ficou de fora, várias personagens que eu queria desenvolver ficaram de fora. Todo um bordel com putas dançarinas ficou de fora. Sem contar que eu tinha apenas 6 mil reais de orçamento e apenas 5 dias para filmá-lo. Foi insano as filmagens, filmar uma média de 8 seqüências completas por dia é tarefa ingrata, precisava de mais tempo para filmar tudo como deveria ter sido filmado, para mim o “Ninguém Deve Morrer” que fiz em 2009 é um esboço de um projeto muito maior. Mas não tinha dinheiro para manter a equipe reunida por mais do que 5 dias, então, por enquanto, é este o filme que consegui fazer com o material que tinha nas mãos.

(Assistam ao filme NINGUÉM DEVE MORRER completo no Youtube – Partes 01, 02 e 03)

A meu ver, ARROMBADA – VOU MIJAR NA PORRA DO SEU TÚMULO!!!!, VADIAS DO SEXO SANGRENTO e O DOCE AVANÇO DA FACA formam a mais nova trilogia do cinema de gênero no Brasil. Pretende continuar nesta veia Sexploitation com suas novas produções?

Baiestorf: Sim, eu faço sexploitations alternados por filmes experimentais desde 1996 (meus projetos entre 1992 e 1995 foram filmes que pertencem mais ao universo trash das Sci-Fi americanas) e esses 3 títulos que tu mencionou são parte de uma série que vai ter mais de 20 filmes carregados de violência e sexo que pretendo desenvolver nesta próxima década. Acredite, vários outros filmes extremamente exagerados estão por vir, tenho uns 8 filmes já escritos prá essa série e a cada novo título a coisa vai ficar mais divertida e insana.

Li em seu blog que ZOMBIO deveria ter sido um filme totalmente diferente (ainda mais insano do que é), ainda pretende levar o roteiro original às telas?

Baiestorf: Porra, “Zombio” eu vou refilmar também qualquer dia desses prá filmar a idéia original que eu tinha na época das filmagens. Ele foi uma sucessão de problemas de orçamento e de dias para filmar. “Zombio” a gente filmou todo ele em 4 dias e com menos de mil reais. Eu dormia 2 horas por dia, re-escrevia todo material que ia filmar poucas horas antes de filmar. Tive que cortar todas as ações que se passariam numa aldeia de pescadores porque nosso orçamento não permitiu construir a aldeia. Rolou várias discussões entre pessoal da equipe-técnica por causa do stress e cansaço, as condições de filmagem não eram as ideais. O interessante do “Zombio” é que saíram inúmeras produções de temática zumbis aqui no Brasil nos últimos anos e ele foi exibido em todas as mostras que exibiam essas novas produções. Achei isso bem legal!

Sente vontade de filmar novamente com VHS?  Desconsiderando o preço absurdo, já teve vontade de filmar com película?

Baiestorf: Não prá duas perguntas. Filmei em VHS porque quando comecei era o que tinha. E filmar em película não é viável para produtores independentes, não há essa necessidade.

O que você acha da censura em alguns de seus filmes para exibição em mostras e festivais?

Baiestorf: Quanto a censura, vejo que não preciso de ditadura militar prá ser censurado em quase tudo que é lugar. Nem quero falar sobre isso, mas ser censurado, ter cenas cortadas dos filmes para que possam ser exibidos em alguns lugares é algo deprimente. Acho que o público adulto deve escolher o que quer ver e que os filmes passem inteiros, sem cortes. Se o filme é uma merda o espectador abandona a sala de exibição, não precisa de censura!

Eu particularmente gosto muito de média-metragens. Qual o formato que você acredita que funciona melhor para seus filmes e para produções independentes/experimentais em geral?

Baiestorf: Acho que cada filme, cada produção, cada projeto acaba definindo seu tamanho. Gosto bastante de fazer curta-metragens e média-metragens (apesar de já ter feito 13 longas). Para a Canibal Filmes o formato que melhor funciona são os médias, filmes entre 30 e 50 minutos. O último longa que fiz foi em 2006, estou querendo voltar ao formato longa-metragem com algum projeto mais profissional e com orçamento maior. Se essas tentativas de filmar mais profissionais darem em nada vou trazer de volta umas idéias antigas prá um longa-metragem existencial que eu ia fazer nos anos 90 e acabei deixando de lado. Este longa existencial vai ser em ritmo lento, mais haver com filmes que fiz nos anos 90 do que os filmes que estou fazendo agora.

Você aceitaria trabalhar com um grande estúdio, sem restrições no orçamento, porém sem exageros na violência, gore e nudez, para poder se adequar a uma classificação etária mais branda?

Baiestorf: Não vou responder isso. É uma pergunta hipotética demais. Sei que vou filmar uma série de sexploitations com grana do meu bolso e temáticas ofensivas e exageradas. Isso é fato!

Qual a posição que você acredita que a Canibal Filmes possui em relação ao cenário cinematográfico nacional? Você sente que tem o reconhecimento que merece?

Baiestorf: Nunca pensei nisso, qual seria a posição da Canibal Filmes no cenário cinematográfico brasileiro. Acho que isso apenas o tempo vai responder, ainda é cedo demais prá pensar nisso. Eu tento dar continuidade ao tipo de cinema ofensivo que era feito na Boca do Lixo paulista misturando os anos 60 do cinema Marginal com os anos 80 do cinema mais pornográfico sem limites que se fazia lá. Talvez o papel da Canibal Filmes seja influenciar o surgimento de jovens cineastas independentes e desses jovens cineastas independentes pode surgir várias cabeças com idéias realmente novas. Talvez minha maior contribuição ao cinema nacional foi de acabar com essa idéia que cineasta brasileiro é um ser especial, intocável. Fodam-se os mitos, qualquer imbecil com uma filmadora faz um filme e sou um exemplo perfeito disso!

Qual o conselho que você daria para quem começa agora a fazer cinema independente?

Baiestorf: Seguinte: Menos teoria e mais filmes. Menos ego e mais apoio-mútuo. E sejam agressivos, façam filmes sujos, filmes que tenham o que dizer, filmes suados que desagradem, que causem estranheza no espectador, não tenham medo de ofender.

Deixe uma mensagem para quem acompanha seus filmes:

Baiestorf: Estudem prá caralho, estudem tudo que vocês conseguirem colocar as mãos. Precisamos de uma nova geração menos preguiçosa. Não tenham preguiça de aprender. Exercitem a mente e duvidem de tudo, Não existem mestres, não existem deuses, você é capaz de fazer tudo que quiser. Persiga seus sonhos!!!

Assistam abaixo ao trailer de ZOMBIO, e ao documentário BAIESTORF: FILMES DE SANGUEIRA E MULHER PELADA de 2004, filmado em Porto Alegre por Christian Caselli, durante o festival CineEsquemaNovo:

JESUS CHRIST VAMPIRE HUNTER (Lee Demarbre – 2001)

Deixe um comentário

Para amenizar um pouco o clima das produções comentadas aqui no blog, nada melhor do que um ótimo filme trash cheio de idéias insanas, humor anárquico, porrada e vampiros.  Com a palavra, Batata:

Existem certas produções que nos deixam surpresos com até onde a imaginação e a ousadia humana podem chegar. Muitas vezes nos decepcionamos com idéias originais mal executadas, ou filmes pretensiosos que acham que podem se tornar cult apenas por serem bizarros. Felizmente não é o que acontece aqui.

JESUS CHRIST VAMPIRE HUNTER é daqueles filmes que funcionam tão bem numa tarde solitária, quanto numa noite com os amigos. É diversão certa pra quem não se importar com as (muitas vezes inspiradas) piadas religiosas, e preferir rir com elas. Um crítico da Variety observou que “o filme é muito bobo para ser ofensivo”.

A história é um delicioso absurdo. Aparentemente Jesus sempre esteve entre nós, morando em uma praia. Quando as lésbicas do mundo começam a desaparecer, alguns padres que conhecem seu segredo (entre eles um punk) resolvem pedir sua ajuda. Fica claro que as moças estão sendo vítimas de um grupo de vampiros, mas Jesus está pronto pra briga, utilizando suas habilidades em artes marciais, em criar estacas de madeira (afinal ele era carpinteiro), e inclusive sua onipresença.

E não para por aí. Para ficar mais com a cara do mundo atual, ele resolve aderir a uma imagem mais moderna (sem barba ou cabelo). Durante sua saga, ele vai enfrentar a descrença com dança e música, vai se confrontar com os ateus, receber conselhos dos seus pais (nas formas mais inusitadas), vai comer no Hooters, entre muitas outras bizarrices.

O filme é empolgante, engraçado, e Jesus se mostra um herói bastante carismático. A própria produção barata provoca risos, sem que isso a ridicularize a ponto de desmerecê-la. Não é um superfilmão épico nem nada, mas cenas e frases acabam grudando na memória (“se eu não voltar em 5 minutos, chame o Papa”).

Filme canadense de 2001, até hoje ele é o maior sucesso da Odessa Filmworks, uma pequena produtora de Ottawa, fundada por Lee Demarbre, o diretor do filme. Apesar disso, o grande símbolo da produtora é o personagem Harry Knuckles, com 04 filmes na produtora entre curtas e longas. O personagem é interpretado por Phil Caracas, o mesmo que encarna Jesus no filme.

Mas o filho de Deus não está sozinho no longa. Ele recebe ajuda da garota Mary Magnum (Maria Moulton), e do lutador mexicano El Santo.

Peraí, El Santo voltou dos mortos?

Na verdade, trata-se do ator Jeff Moffet, que assim como o ator turco Yavuz Selekman em 3 DEV ADAM (filme turco de 1973, onde El Santo e Capitão América enfrentam o criminoso Homem-Aranha), faz uma versão não autorizada do luchador como homenagem.

Pra quem não conhece, El Santo foi um lutador mexicano mascarado, que se tornou ícone. Além de lutador, já teve sua série de histórias em quadrinhos, atuou em 52 filmes, e em toda a sua carreira só mostrou seu rosto uma única vez na TV mexicana após sua aposentadoria. Seu nome era Rodolfo Guzmán Huerta, e faleceu em 1984 aos 66 anos. Um de seus filhos, Jorge Guzmán Rodríguez seguiu os passos do pai, utilizando o nome El Hijo del Santo. Em 2004, o Cartoon Network latino realizou uma série de 05 animações curtas em homenagem a El Santo.

Essa não foi a única vez que Jeff Moffet encarnou esse personagem. O El Santo canadense também pode ser encontrado nos filmes HARRY KNUCKLES AND THE TREASURE OF THE AZTEC MUMMY (1999), e HARRY KNUCKLES AND THE PEARL NECKLACE (2004), ambos, claro, da Odessa Filmworks.

Enfim, assistam ao filme com a mente aberta, e terão uma grande diversão. Sim, os efeitos são toscos, as atuações são ás vezes risíveis, ás vezes canastronas, e ás vezes até mesmo inexpressivas, mas na verdade, a própria tosquice contribui para o triunfo do filme. Estou certo de que há a possibilidade de que muitos não concordem com isso, e detestem o filme, mas oras bolas, isso acontece com praticamente todas as obras existentes (nem Jesus conseguiu agradar a todos, hahaha).

Por incrível que pareça, se pesquisarmos iremos encontrar produções muito mais bizarras que utilizam a figura de Jesus. Essa o transformou em um herói, um herói moderno, e se repararem, com idéias bem modernas sobre o cristianismo. Assistam, talvez esse filme faça com que você cresça espiritualmente, e sua alma pare de se atormentar com dúvidas como “haverá limonada o suficiente?”

Escrito por Renato Batarce.

BLACK DEVIL DOLL (Jonathan Lewis – 2007)

Deixe um comentário

Como vocês já notaram, o blog passou por um certo período sem atualizações, pois tanto eu quanto o Batata não estávamos com muito tempo para escrever as resenhas. Mas voltamos, e como reparei que tenho escrito muito sobre cinema asiático, hoje é dia de filme norte-americano aqui no Película Raivosa! Aguardem os novos textos do Batata, tenho certeza que serão bem interessantes! Boa leitura e até a próxima atualização!

Um presidiário negro é executado, após ter sido condenado pelo estupro e assassinato de 15 mulheres brancas. No mesmo momento da execução, uma jovem entediada brinca inocentemente com um tabuleiro ouija em sua casa. O espírito maligno do presidiário é atraído pelo tabuleiro e após fazer contato com a moça, incorpora em um de seus bonecos. Será esse mais um blockbuster de terror acéfalo, oriundo da terra do Tio Sam? Mais uma dessas regravações de algum filme de sucesso do fim dos anos 80, que estão tão em moda hoje em dia, onde se altera vários detalhes do roteiro original para mascarar a completa falta de originalidade da turma financiada pelos grandes estúdios de Hollywood? Será então uma nova roupagem para o cultuado BRINQUEDO ASSASSINO, de Tom Holland? Não leitor… Para nossa sorte, o buraco é mais embaixo.

O filme BLACK DEVIL DOLL pode ser considerado uma evolução de outro longa do qual é quase homônimo, o tosco BLACK DEVIL DOLL FROM HELL. Em 1984, o aspirante a cineasta Chester Novell Turner levou às telas (ao vídeo, para ser mais exato) a história de um boneco possuído por uma entidade maligna, que tinha o poder de realizar o desejo mais íntimo da pessoa que o possuísse. Bem, como estamos falando de um filme trash amador da década de 80, não é de se espantar que o desejo da dona do boneco, uma fanática religiosa na casa dos 35 anos, era exatamente ser possuída por um homem.

Não sei qual foi a intenção de Chester Novell Turner ao fazer BLACK DEVIL DOLL FROM HELL, mas a impressão que ficou, ao menos para mim, é de que ele fracassou de forma retumbante. Poucas vezes em minha vida fiz tanta força para assistir um filme na íntegra, e acreditem, estou acostumado a porcarias cinematográficas de todo tipo. Nada funciona neste longa: o boneco demoníaco usa roupa de presidiário e tem trancinhas, ninguém em sã consciência compraria um boneco escroto como esse em uma loja de artigos para magia; a protagonista não pode sequer ser chamada de atriz, tamanha é sua inaptidão em atuar; o ritmo do filme é lento ao extremo, e nem as cenas em que o boneco está fazendo das suas melhoram o andamento desta porcaria; a trilha sonora é horrível, chega a ser torturante de tão alta e dissonante, basicamente um músico ruim mexendo em um teclado ou sintetizador, criando melodias absurdamente simples e fora de compasso, com uns apitos tão altos que chegam a atrapalhar o entendimento dos diálogos; a cenografia e fotografia são bem pobres, até mesmo porque os equipamentos utilizados na produção não foram dos melhores (geralmente utilizado em programas de TV, o videotape tem uma imagem bem fosca e sem contraste, se comparado à películas usadas em produções profissionais).

Mas apesar de tantos pontos negativos, BLACK DEVIL DOLL FROM HELL tem status de filme cult para alguns, e como eu já havia mencionado, serviu de inspiração para que Jonathan Lewis realizasse seu BLACK DEVIL DOLL em 2007. O filme de Jonathan Lewis não é de forma alguma uma obra-prima, mas é infinitamente melhor e mais divertido que seu predecessor.

O filme copia a estética dos sexploitations feitos na década de 70, mas não utiliza efeitos digitais na imagem para emular falhas comuns em películas antigas, como foi feito em PLANETA TERROR de Robert Rodriguez, DEATH PROOF de Quentin Tarantino e mais recentemente nos primeiros minutos de MACHETE, outro filme de Rodriguez. É digna de destaque também a trilha sonora funkeada, muito bem encaixada e executada, completando a atmosfera setentista da produção.

O roteiro é simples e não esconde do espectador a verdadeira intenção do diretor: fazer um filme cômico, anárquico, repleto de sangue e mulheres nuas. Falando no elenco feminino do longa, temos cinco garotas de formas bem avantajadas e com pinta de atrizes pornográficas, trajando pouca ou nenhuma roupa, fingindo que estão atuando. Prato cheio para os onanistas de plantão.

Deixando de lado os pormenores (ou “pormaiores” – assistam ao filme e entendam o porquê deste trocadilho infame), voltemos à trama do filme: após ter incorporado no boneco que estava no sofá da garota que brincava com o tabuleiro ouija, numa cena bizarra em que o boneco muda de cor e ganha um penteado afro e uma boina, ele logo ganha sua confiança e se torna seu namorado (?), para desespero de seu ex, que fica indignado com o novo relacionamento da garota.

A personalidade do boneco é o estereótipo do homem negro presente nos filmes de gênero Blacksploitation: marginal, garanhão, boca-suja e agressor de mulheres. A dublagem do boneco é sensacional, lembra muito a voz e a entonação de Samuel L. Jackson em filmes como PULP FICTION, JACKIE BROWN e SHAFT. Cada frase proferida por ele é permeada por preconceito, sexismo e palavrões. E é exatamente por ser tão caricato que este personagem se torna hilário.

Depois de um breve espaço de tempo aproveitando o novo relacionamento, o boneco exige que sua namorada traga algumas amigas para sua casa, alegando estar entediado de fazer sexo com apenas uma mulher… Ele então arma uma emboscada para elas, pois sente novamente vontade de violentar e matar.

E o filme segue em frente, em meio a strip-teases, diálogos risíveis, muita nudez gratuita, sexo softcore entre as mulheres e o boneco, atuações pobres e violência de todo tipo: facadas, pauladas, eletrocução, estupros e necrofilia. Garantia de diversão para os amantes do cinema trash e extremo.

Quando foi exibido em 2009 no 4º CineFantasy – Festival Curta Fantástico em São Paulo, integrando a mostra não-competitiva de longas do festival, a diversão começou antes mesmo do início da sessão: a diretora da Biblioteca Viriato Corrêa, espaço que estava exibindo o longa, compareceu à fila fora da sala e pediu que todos ali apresentassem o RG para provar que eram maiores de idade. A risadaria foi geral, mas de fato ninguém entrou sem apresentar o documento a ela… Não era para tanto, mas valeu para aumentar a expectativa antes da exibição desta pérola do cinema politicamente incorreto.

Vale a pena dar uma olhada no site que a produtora Lowest Common Denominator fez para o filme, e se vocês não possuem conta no Youtube, só mesmo dessa forma para poderem assistir aos trailers da produção, clicando AQUI.

Enfim, BLACK DEVIL DOLL é indicado para pessoas que não se ofendem com este tipo de humor, para amantes de sexploitation, fãs de cinema trash e claro, para homens safados em geral.

(Edit em 21/02/2011: Como eu disse acima, no Youtube é preciso acessar sua conta e confirmar que tem ao menos 18 anos para ver o trailer do filme, mas pelo jeito ele rola aqui no blog sem frescura…)

NINJAS (Dennison Ramalho – 2010)

Deixe um comentário

Novamente marcando presença no blog, nosso querido Renato “Batata” Batarce, falando sobre NINJAS, o mais novo curta do talentoso diretor tupiniquim Dennison Ramalho. Quanto a mim, empaquei em algumas resenhas (misto de bloqueio criativo e saco cheio de fim de ano…)

Poster do curta

Depois de um hiato de 08 anos, o diretor Dennison Ramalho (AMOR SÓ DE MÃE, NOCTURNU) volta com o curta NINJAS, um trabalho muito mais maduro, completo e perturbador.

NINJAS mostra a história do policial Jailton (Flávio Bauraqui), que durante uma perseguição na favela, acaba acidentalmente assassinando um garoto inocente. Religioso, apesar de não ser condenado pelos colegas, é tomado pela culpa, que logo depois é substituída pelo horror e desespero ao ser perseguido pelo fantasma do garoto.

Essa seqüencia inicial vai lembrar a muitos os filmes asiáticos de assombrações, ao estilo Takashi Shimizu, com o garoto fantasma perturbando o protagonista, e até uma sequência com uma água escura de sangue, algo muito usado por lá, água para causar terror. As cenas são bem feitas, mas realmente perturba a falta de expressão do garoto fantasma. Já não tinha que fazer muita coisa, pelo menos podia se esforçar um pouquinho na representação.

Mas na segunda parte do curta, a coisa muda de figura, e o fantasma não parece mais tão ameaçador. Aparentemente, boa parte da PM tem problemas com fantasmas de erros do passado, e seus colegas resolvem ensiná-lo a suportar os seus. Para isso, resolvem incluí-lo na milícia Ninjas, onde deverá se tornar tão cruel que nada vivo nem morto poderá mais abalá-lo.

A sequência que revela todo o sangue-frio dos Ninjas é intensa e forte, utilizando-se de torturas tanto físicas quanto psicológicas. Com todos esses elementos, Dennison consegue realizar um curta que une o suspense fantasmagórico asiático com o torture porn (e na minha opinião, um toque de nazi exploitation), mas ainda assim, a ambientação e os costumes brasileiros é que contribuem para deixar tudo ainda mais perturbador, pois realmente identificamos que aquilo tudo acontece em nossa terra. Não faltou também a cutucada no fanatismo religioso, também presente em AMOR SÓ DE MÃE.

Mas uma peça fundamental para o sucesso de tudo, com certeza foram as escolhas dos atores (com exceção do menino fantasma). Muitos filmes de horror afundam devido a atores canastrões e atuações caricatas, ao tentar contar uma história séria, acabam arrancando risos, e tudo isso contribui para o gênero ser ridicularizado pelo grande público, principalmente as produções nacionais. Felizmente não foi o caso de NINJAS, que contou com atuações inspiradas de grandes atores, que conseguiram expressar culpa, sadismo, medo e loucura de forma extremamente convincente. Flávio Bauraqui (MADAME SATÃ, SALVE GERAL, ZUZU ANGEL, QUINCAS BERRO D’ÁGUA) inclusive ganhou o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado pela sua atuação no filme.

O filme foi baseado no conto Um Bom Policial de Marco de Castro, que já foi repórter policial; e conta com a melhor equipe técnica que há atualmente no Brasil para o gênero, como o próprio Dennison, José Roberto Eliezer, Paulo Sacramento (responsável pelo curta ganhar também o Kikito de melhor montagem), André Kapel Furman, todos também presentes em AMOR SÓ DE MÃE e A ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, este último de José Mojica Marins. Destaque também pro pôster, que lembra muito a arte das capas de discos de Thrash Metal da zona de BH.

Sucesso de crítica nacional e internacional, além dos prêmios no Festival de Gramado, também ganhou como melhor curta pelo New York City Horror Film Festival, e atualmente Dennison está nos Estados Unidos em projeto com John Carpenter. É de deixar louco que, com tantas qualidades, não se ouve praticamente nada sobre o filme nos grandes veículos da mídia nacional. É torcer pra que no final os responsáveis sejam perturbados pelos fantasmas de grandes obras ignoradas.

Escrito por Renato “Batata” Batarce.

 

COLIN (Marc Price – 2008)

Deixe um comentário

Acho que todos concordam que a grande maioria dos filmes de zumbis caiu na mesmice já faz muito tempo… Os roteiros são os mais previsíveis do mundo, e me parece que a única diferença entre eles é se os zumbis vão ser inteligentes ou não, se vão correr ou tropeçar por aí, se comem apenas o cérebro ou o corpo todo das suas vítimas e mais um punhado de clichês que já encheu o saco até do fã mais carniceiro, ávido por tripas cenográficas e sangue de xarope de milho…

Mas vira e mexe aparece um filme inusitado, com um pouco mais de originalidade, provando que basta criatividade para salvar um filão tão explorado como o dos filmes de zumbis. Foi assim com a ótima comédia inglesa SHAUN OF THE DEAD de Edgar Wright (conhecido por aqui com o título ridículo e oportunista TODO MUNDO QUASE MORTO), um filme feito para homenagear o gênero, justamente debochando de todos os absurdos clichês destas produções, mas sem perder o ritmo ou errar a mão na palhaçada, mantendo sempre um bom nível de matança e diversão inteligente. Mais do que recomendado para os fãs de mortos-vivos.

Poster do filme

Mas o assunto aqui é outro, e tem nome: COLIN. Este filme teve muita repercussão na mídia ano passado, graças ao seu baixíssimo orçamento, algo em torno de $ 70,00 (£ 45,00), e também por ter sido selecionado para exibição no Festival de Cannes. Barulho feito, o filme vem sendo exibido em vários festivais pelo mundo, sempre com uma boa cobertura da imprensa, que não cansa de alardear sobre o orçamento do mesmo.

E eis que COLIN e seu diretor, Marc Price, aportaram aqui no Brasil, para uma exibição seguida de bate-papo, integrando a mostra não-competitiva de longas do 4º CineFantasy – Festival Curta Fantástico, ocorrido em novembro de 2009. Eu estava por lá para conferir, e posso dizer que o filme é realmente muito bom, inovador e interessante, e que Marc Price é um cara legal, que parece ainda não reconhecer o valor de sua obra, seja por humildade ou simplesmente porque caiu de pára-quedas na rota da indústria cinematográfica e dos festivais.

Ele mesmo endossa essa opinião, pois falou para todos os presentes na sessão que nunca teve a pretensão de ser cineasta, e que fez o filme por diversão, de forma totalmente independente e amadora. Se bem me lembro, Marc Price disse ser formado em artes plásticas, e gravou o filme ao longo de mais de dois anos, apenas nos fins de semana, com pessoas que se inscreveram como voluntários para o projeto através do Facebook e Myspace. Alguém perguntou a ele qual câmera havia utilizado para fazer o filme, e o mesmo confirmou o que se pode ler em alguns sites por aí, uma Panasonic mini-dv camcorder antiga, tendo usado o Adobe Premiere em um PC comum para a edição, durante todo o processo.

A história é bem simples: o protagonista, um jovem chamado Colin, está em desesperada luta pela vida durante uma infestação de zumbis. Já ferido e tentando se refugiar na casa de um amigo, acaba sendo mordido logo nos primeiros minutos da trama. É aí que está a grande sacada do filme. Depois de passar mal e desmaiar, Colin já “acorda” como um zumbi, e a partir daí o personagem vaga pelas ruas destruídas de um subúrbio da Inglaterra…

Acompanhando seus passos à procura de comida, o diretor capta nuances de sentimentos nas expressões de Colin; é realmente muito interessante ver que o morto-vivo sente medo e fome, e por vezes tem dificuldade para estabelecer relação entre seus semelhantes, até mesmo por ser um indivíduo novo no “grupo”, e é hostilizado por aqueles que são mais vorazes e violentos. Assim como no reino animal, onde é preciso confiar nos instintos para sobreviver, Colin vai aprendendo a se aproveitar de certas situações para poder se alimentar, e aos poucos vai se tornando mais persistente e selvagem.

O ritmo do filme é um pouco lento, principalmente na primeira metade da história, mas não chega a comprometer o resultado. Por ser filmado com equipamento amador, muitas vezes com a câmera à mão, o longa acaba passando uma sensação de proximidade com o espectador, e muito do que é mostrado na tela vem à nós pela ótica do protagonista. Nas cenas de ação, lembra muito os registros de reportagens policiais, durante manifestações turbulentas ou quando irrompe um tiroteio durante a matéria… Um verdadeiro pandemônio.

Duas cenas merecem destaque: uma delas é extremamente claustrofóbica, se passa numa casa lotada de zumbis, onde poucas pessoas tentam desesperadamente se defender do ataque deles. Outra é no fim de uma grande e sangrenta batalha, em que um grupo de pessoas que caçam os mortos-vivos faz o balanço da carnificina, e basta dizer que não há possibilidade de feridos voltarem para casa.

Este filme merece ser visto por quem gosta de cinema independente, filmes de horror e por todos aqueles que apreciam cinema não só como entretenimento escapista,  mas também como forma de expressão artística. É muito bom ver até onde um cineasta pode chegar com um orçamento tão limitado, mas com muita vontade de inovar. Fica a torcida para que Marc Price resolva nos presentear com mais um grande filme em breve; incentivo da mídia e dos fãs ao redor do mundo é o que não vai faltar.