STREET TRASH (J. Michael Muro – 1987)

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Mais uma resenha do Batata, que ficou meio cabreiro depois de assistir à um certo blockbusterzinho aí…

Parece uma contradição, mas mesmo amando cinema, está cada vez mais difícil eu conseguir me animar para sair de casa e assistir algo na tela grande. Afinal, onde estão os argumentos originais? Ás vezes parece que tudo que sai é adaptação de alguma outra mídia, uma sequência, uma refilmagem, ou uma desculpa para mostrar grandes efeitos digitais em 3D, quando não tudo isso misturado. Sim, ainda existem filmes bons, mas pra falar a verdade, nos raros momentos em que vou a alguma grande sala assistir um lançamento e acabo dizendo “olha, esse filme é bom”, no fundo eu estou pensando “é bom, pra um filme de grande estúdio”.

Felizmente, com a internet e com o relançamento de títulos em DVD, acabo descobrindo várias pérolas do passado. Muitas pessoas se empolgam muito com notícias do tipo “já vai sair o próximo filme do Harry Potter, que eu já li várias vezes e já sei o final de cor e salteado então vou reconhecer tudo que está na tela”. Vi uma vez um vídeo no YouTube, onde uma garota se empolgava muito vendo o trailer de ECLIPSE, e falava coisas do tipo “nem acredito em quantas pessoas eu reconheci só vendo o trailer”, ou algo assim.

Não posso dizer que sou contra adaptações, até gosto bastante das bem feitas, mas eu prefiro muito mais os argumentos absurdos, que ás vezes parecem até mentira de tão bizarros. Minha fé na criatividade humana chega ao limite quando ouço coisas do tipo “É um filme sobre Jesus matando vampiros assassinos de lésbicas com a ajuda de um lutador mexicano”, ou “É sobre Bruce Lee no inferno lutando contra James Bond, Popeye e um cara imitando Clint Eastwood”, e até mesmo “Elvis e um Kennedy negro estão num asilo e enfrentam uma múmia que suga a alma dos velhinhos pelo cu”! Deviam colocar isso em letras garrafais nos cartazes.

No caso dessa pérola de 1987, me passaram a idéia através da frase “É um filme sobre uma bebida que derrete mendigos”. Corri atrás e me surpreendi por ser muito melhor do que eu esperava.

O argumento é o seguinte, o dono de uma loja de bebidas encontra uma caixa esquecida em sua loja, de muitos anos, com várias garrafinhas de uma bebida chamada Viper. Como não sabia o que fazer com ela, pôs à venda em sua loja por $ 01,00 cada. Por esse preço, se tornou popular entre os mendigos (que nem assim deixavam de afanar uma garrafa ou outra). O problema é que quem bebe da Viper, explode ou derrete instantaneamente, se tornando uma meleca ácida.

Apesar desse argumento já ser legal demais, você acaba se esquecendo dele em boa parte do filme. Isso acontece porque todas as outras subtramas acabam prendendo a atenção, e as ações dos moradores de rua (bom, no caso, de ferro-velho) e suas personalidades acabam roubando a cena.

Existem personagens memoráveis no filme todo, além do mendigo principal e seu irmão mais novo, tem também o veterano de guerra psicopata, a mendiga doida pra se sentir desejada, o experiente que manja de roubar supermercados, e muitos loucos sujos e tarados.

Além deles, também se destacam o dono do ferro-velho, o dono da loja de bebidas, o policial que tenta entender as mortes misteriosas que acontecem por conta da Viper, o mafioso e seu empregado adolescente.

Mesmo com a bebida derretedora, muito do gore do filme é causado pelos próprios mendigos. Extremamente violentos, espancam, mutilam e matam, muitas vezes sem motivo algum, principalmente o veterano de guerra que se autoproclama líder.

J. Michael Muro dirigiu apenas esse filme, e alguns episódios do seriado Southland. Sua principal ocupação mesmo é na parte técnica, como por exemplo, sendo operador de câmera ou diretor de fotografia. A lista de filmes em que ele participa é imensa, basta consultar no IMDB para ver, pois é quase impossível citar apenas alguns destaques.  Mike Lacey, que interpreta o mendigo Fred, é também o responsável pelos efeitos de maquiagem do filme. Além desse filme, ele também fez os efeitos de I WAS A TEENAGE ZOMBIE, também de 1987.

Existe em DVD a versão STREET TRASH: SPECIAL TWO DISC MELTDOWN EDITION, com vários extras, incluindo um documentário de 02 horas chamado THE MELTDOWN MEMOIRS, e o curta em 16mm que deu origem ao longa, que também se chama STREET TRASH. Aliás, na capa deste DVD está escrito “ERASERHEAD encontra NIGHT OF THE LIVING DEAD no set de TEXAS CHAINSAW MASSACRE”; ignorem essa merda, quem escreveu isso não viu o filme.

OBS: Grande parte do começo do texto veio à minha mente quando percebi que, logo depois de assistir SUCKER PUNCH, fiquei com muita vontade de rever PINK FLAMINGOS.

Escrito por Renato Batarce.

I DRINK YOUR BLOOD (David E. Durston – 1970)

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Mais uma pedrada que o Batata coloca aqui no blog! A década de 70 foi realmente uma maravilha!

I DRINK YOUR BLOOD é um horror exploitation daqueles que nos deixa felizes pelos anos 70 terem existido. Sangue, satanismo, sexo, drogas, sadismo, tudo bem explícito e da maneira mais chocante que os responsáveis conseguiram exibir na época.

Sem piadinhas ou humor negro, I DRINK YOUR BLOOD foi planejado pra chocar e incomodar, principalmente na época em que foi feito, com temas que incomodavam muitos americanos.

Lançado em 1970, o filme mostra uma caravana de hippies satanistas, cujo líder se autoproclamava filho do Demo. Eles chegam nas proximidades da pequena cidade de Valley Hills, com apenas 40 habitantes e, durante um de seus cultos, são observados por uma garota local. Quando se dão conta da presença da menina, ela é perseguida, espancada e violentada (apesar de não falarem diretamente em estupro, fica claro que foi isso que ocorreu).

Quando o grupo chega à cidade, ocupam uma das muitas casas abandonadas. Em uma cidade quase abandonada, claro que um grupo de pessoas de fora chama atenção, principalmente por seu comportamento incomum. O avô da garota atacada vai tirar satisfações com o bando, e os encontra torturando um de seus membros. O velho é subjugado e dopado com LSD, e seu neto de 10 anos observa tudo.

O filme já prende a atenção desde o começo, mas a partir desse ponto que ele realmente começa. Decidido a se vingar, o garoto injeta sangue de um cão raivoso que ele matou em tortas de carne da padaria local. Ele vende as tortas para o grupo de hippies, e começa uma epidemia incontrolável.

Não são zumbis, são pessoas com o vírus da raiva. Nervos descontrolados, ataques de violência, boca espumante e hidrofobia. Essa doença age de formas e intensidades distintas em cada um do grupo. A raiva é praticamente incurável, com um pequeno número de casos resolvidos. O infectado se torna cada vez mais hostil, mas está consciente de todo o processo. Ao aparecer a hidrofobia, medo intenso de líquidos (e uma das principais armas contra os infectados no filme), a morte é praticamente certa. A raiva mata em cerca de 04 dias.

Claro que o filme tenta explorar a doença da forma mais exagerada possível. Mas é uma ótima desculpa para jogar de forma intensa na tela variadas formas de violência e sadismo. A música que é repetida em vários momentos do filme contribui também para o clima perturbador e enlouquecedor.

O filme foi dirigido por David Edward Durston, e foi seu filme de maior expressão. Ele também atua no filme em participação não creditada, como Dr. Oakes. Não conheço praticamente nenhum trabalho do resto do elenco, mas o grande destaque vai para o líder hippie satanista Horace Bones, interpretado pelo ator indiano Bhaskar Roy Chowdhury, que faleceu em agosto de 2003.

I DRINK YOUR BLOOD se tornou um sucesso em sessões Grindhouse, principalmente ao lado do filme I EAT YOUR SKIN (do diretor Del Tenney), filme de 1964 lançado apenas em 1970. O distribuidor Jerry Gross juntou os dois filmes e deu o nome de I EAT YOUR SKIN ao segundo, que originalmente se chamava apenas ZOMBIES, e também já chegou a ter títulos como ZOMBIE BLOODBATH e VOODOO BLOOD BATH.

I DRINK YOUR BLOOD é um filme para aqueles que gostam da boa e velha ultraviolência dos anos 70, aquela violência que não é apenas tripas e gore (apesar de ter muito disso também), mas é algo feito pra incomodar e mostrar o tanto que o cinema pode ser cruel e divertido.

OBS: apesar de o trailer abaixo citar I EAT YOUR SKIN, ele contém apenas cenas de I DRINK YOUR BLOOD.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

BLACK DEVIL DOLL (Jonathan Lewis – 2007)

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Como vocês já notaram, o blog passou por um certo período sem atualizações, pois tanto eu quanto o Batata não estávamos com muito tempo para escrever as resenhas. Mas voltamos, e como reparei que tenho escrito muito sobre cinema asiático, hoje é dia de filme norte-americano aqui no Película Raivosa! Aguardem os novos textos do Batata, tenho certeza que serão bem interessantes! Boa leitura e até a próxima atualização!

Um presidiário negro é executado, após ter sido condenado pelo estupro e assassinato de 15 mulheres brancas. No mesmo momento da execução, uma jovem entediada brinca inocentemente com um tabuleiro ouija em sua casa. O espírito maligno do presidiário é atraído pelo tabuleiro e após fazer contato com a moça, incorpora em um de seus bonecos. Será esse mais um blockbuster de terror acéfalo, oriundo da terra do Tio Sam? Mais uma dessas regravações de algum filme de sucesso do fim dos anos 80, que estão tão em moda hoje em dia, onde se altera vários detalhes do roteiro original para mascarar a completa falta de originalidade da turma financiada pelos grandes estúdios de Hollywood? Será então uma nova roupagem para o cultuado BRINQUEDO ASSASSINO, de Tom Holland? Não leitor… Para nossa sorte, o buraco é mais embaixo.

O filme BLACK DEVIL DOLL pode ser considerado uma evolução de outro longa do qual é quase homônimo, o tosco BLACK DEVIL DOLL FROM HELL. Em 1984, o aspirante a cineasta Chester Novell Turner levou às telas (ao vídeo, para ser mais exato) a história de um boneco possuído por uma entidade maligna, que tinha o poder de realizar o desejo mais íntimo da pessoa que o possuísse. Bem, como estamos falando de um filme trash amador da década de 80, não é de se espantar que o desejo da dona do boneco, uma fanática religiosa na casa dos 35 anos, era exatamente ser possuída por um homem.

Não sei qual foi a intenção de Chester Novell Turner ao fazer BLACK DEVIL DOLL FROM HELL, mas a impressão que ficou, ao menos para mim, é de que ele fracassou de forma retumbante. Poucas vezes em minha vida fiz tanta força para assistir um filme na íntegra, e acreditem, estou acostumado a porcarias cinematográficas de todo tipo. Nada funciona neste longa: o boneco demoníaco usa roupa de presidiário e tem trancinhas, ninguém em sã consciência compraria um boneco escroto como esse em uma loja de artigos para magia; a protagonista não pode sequer ser chamada de atriz, tamanha é sua inaptidão em atuar; o ritmo do filme é lento ao extremo, e nem as cenas em que o boneco está fazendo das suas melhoram o andamento desta porcaria; a trilha sonora é horrível, chega a ser torturante de tão alta e dissonante, basicamente um músico ruim mexendo em um teclado ou sintetizador, criando melodias absurdamente simples e fora de compasso, com uns apitos tão altos que chegam a atrapalhar o entendimento dos diálogos; a cenografia e fotografia são bem pobres, até mesmo porque os equipamentos utilizados na produção não foram dos melhores (geralmente utilizado em programas de TV, o videotape tem uma imagem bem fosca e sem contraste, se comparado à películas usadas em produções profissionais).

Mas apesar de tantos pontos negativos, BLACK DEVIL DOLL FROM HELL tem status de filme cult para alguns, e como eu já havia mencionado, serviu de inspiração para que Jonathan Lewis realizasse seu BLACK DEVIL DOLL em 2007. O filme de Jonathan Lewis não é de forma alguma uma obra-prima, mas é infinitamente melhor e mais divertido que seu predecessor.

O filme copia a estética dos sexploitations feitos na década de 70, mas não utiliza efeitos digitais na imagem para emular falhas comuns em películas antigas, como foi feito em PLANETA TERROR de Robert Rodriguez, DEATH PROOF de Quentin Tarantino e mais recentemente nos primeiros minutos de MACHETE, outro filme de Rodriguez. É digna de destaque também a trilha sonora funkeada, muito bem encaixada e executada, completando a atmosfera setentista da produção.

O roteiro é simples e não esconde do espectador a verdadeira intenção do diretor: fazer um filme cômico, anárquico, repleto de sangue e mulheres nuas. Falando no elenco feminino do longa, temos cinco garotas de formas bem avantajadas e com pinta de atrizes pornográficas, trajando pouca ou nenhuma roupa, fingindo que estão atuando. Prato cheio para os onanistas de plantão.

Deixando de lado os pormenores (ou “pormaiores” – assistam ao filme e entendam o porquê deste trocadilho infame), voltemos à trama do filme: após ter incorporado no boneco que estava no sofá da garota que brincava com o tabuleiro ouija, numa cena bizarra em que o boneco muda de cor e ganha um penteado afro e uma boina, ele logo ganha sua confiança e se torna seu namorado (?), para desespero de seu ex, que fica indignado com o novo relacionamento da garota.

A personalidade do boneco é o estereótipo do homem negro presente nos filmes de gênero Blacksploitation: marginal, garanhão, boca-suja e agressor de mulheres. A dublagem do boneco é sensacional, lembra muito a voz e a entonação de Samuel L. Jackson em filmes como PULP FICTION, JACKIE BROWN e SHAFT. Cada frase proferida por ele é permeada por preconceito, sexismo e palavrões. E é exatamente por ser tão caricato que este personagem se torna hilário.

Depois de um breve espaço de tempo aproveitando o novo relacionamento, o boneco exige que sua namorada traga algumas amigas para sua casa, alegando estar entediado de fazer sexo com apenas uma mulher… Ele então arma uma emboscada para elas, pois sente novamente vontade de violentar e matar.

E o filme segue em frente, em meio a strip-teases, diálogos risíveis, muita nudez gratuita, sexo softcore entre as mulheres e o boneco, atuações pobres e violência de todo tipo: facadas, pauladas, eletrocução, estupros e necrofilia. Garantia de diversão para os amantes do cinema trash e extremo.

Quando foi exibido em 2009 no 4º CineFantasy – Festival Curta Fantástico em São Paulo, integrando a mostra não-competitiva de longas do festival, a diversão começou antes mesmo do início da sessão: a diretora da Biblioteca Viriato Corrêa, espaço que estava exibindo o longa, compareceu à fila fora da sala e pediu que todos ali apresentassem o RG para provar que eram maiores de idade. A risadaria foi geral, mas de fato ninguém entrou sem apresentar o documento a ela… Não era para tanto, mas valeu para aumentar a expectativa antes da exibição desta pérola do cinema politicamente incorreto.

Vale a pena dar uma olhada no site que a produtora Lowest Common Denominator fez para o filme, e se vocês não possuem conta no Youtube, só mesmo dessa forma para poderem assistir aos trailers da produção, clicando AQUI.

Enfim, BLACK DEVIL DOLL é indicado para pessoas que não se ofendem com este tipo de humor, para amantes de sexploitation, fãs de cinema trash e claro, para homens safados em geral.

(Edit em 21/02/2011: Como eu disse acima, no Youtube é preciso acessar sua conta e confirmar que tem ao menos 18 anos para ver o trailer do filme, mas pelo jeito ele rola aqui no blog sem frescura…)