SUKIYAKI WESTERN DJANGO (Takashi Miike – 2007)

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Para dar o chute inicial no “Mês Takashi Miike” aqui no blog, o Batata escreveu sobre SUKIYAKI WESTERN DJANGO, um western bem diferente, feito pelo diretor em 2007, traçando um paralelo com outras duas obras, verdadeiros clássicos do cinema:

Quer gostem ou não, Takashi Miike é um ícone cult. Apesar de alguns o considerarem um diretor de filmes de Yakuza, outros um diretor de cinema de horror, quem conhece melhor sua obra sabe que é impossível defini-lo em apenas um gênero (afinal, até pelo infantil ele se aventurou), apesar de sempre ter aquele toque de exagero surpreendente com classe, que acabou se tornando sua marca.

No quesito violência, podemos dizer que, pelo menos no Ocidente, esse exagero foi fundamental para formar sua legião de fãs, entre eles, nomes bem conhecidos como Quentin Tarantino, Benicio Del Toro, Eli Roth, e todo o resto do Splat Pack.

Como todos sabem, esses cineastas são bem unidos, e sempre acabam firmando uma amizade entre si, trocando idéias e formando parcerias. Pra quem não lembra, Takashi Miike fez uma participação relâmpago em O ALBERGUE (HOSTEL, 2005), escrito e dirigido por Eli Roth e apadrinhado por Tarantino.

Em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, percebemos uma grande influência dessas parcerias. Sim, é um bom filme, e Takashi Miike fez um grande trabalho em vários aspectos, mas acabou tornando-se um dos seus filmes com a linguagem mais pop, e em alguns momentos tentando se forçar a parecer cult. Notam-se também um ou outro diálogo um pouco longo e insólito demais, que parece soar mais como algo escrito por Tarantino, que inclusive participa do filme.

Bom, mas vamos à história, SUKIYAKI WESTERN DJANGO é um trocadilho com os filmes de faroeste italianos (Spaghetti Western), junto com o nome do famoso personagem Django, inclusive utilizando a mesma música do filme (composta por Luis Enríquez Bacalov, letra por Franco Migliacci), só que em uma versão cantada em japonês.

Após uma breve introdução (com a atuação de Tarantino), começa a história do pistoleiro solitário e sem nome (Hideaki Ito), que chega em um vilarejo dominado por duas gangues rivais, os Brancos e os Vermelhos. Após uma breve demonstração de suas habilidades, os dois grupos se interessam por ter o pistoleiro do seu lado, porém, após ouvir da senhora Ruriko (Kaori Momoi) a história de como o vilarejo foi tomado e como famílias foram destruídas, o solitário viajante decide ao mesmo tempo satisfazer seus interesses, e libertar o vilarejo do domínio das duas gangues.  Isso tudo usando principalmente de inteligência e astúcia.

Takashi Miike cria um western bem peculiar, com um clima épico, que engrena a partir da sua segunda metade que é mais dinâmica, e consegue mesclar momentos de drama, violência, ação e comédia. Aliás, não deixa de ser hilário alguns atores pronunciando suas falas com um sotaque extremamente canastrão, já que são atores japoneses, e o filme é todo falado em inglês.

O clima é bem menos sério que em westerns convencionais, além disso, tanto atuações, quanto figurino (e certas vezes cenário) são levados mais para o lado teatral. A verossimilhança não é o forte do filme, e pela maneira como o diretor o conduz, ele acertadamente deixa claro que nem deveria ser. Apesar disso, muitas vezes ficamos com a impressão de que, certas coisas que acontecem, não tem outra razão de ser, além de parecer “cool”.

O elenco é ótimo, Hideaki Ito já atuou em 30 filmes, entre eles, ONMYOJI partes  1 e 2. Yusuke Iseya, o líder dos brancos, foi o protagonista em CASSHERN (de Kazuaki Kiriya, 2004), e foi o primeiro cego no filme ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Fernando Meirelles, de 2008). Masanobu Ando de BATTLE ROYALE (de Kinji Fukasaku, 2000) também faz uma participação pequena, mas importante na história. Mas o grande destaque fica por parte da multipremiada atriz veterana Kaori Momoi (sim, ela rouba a cena do filme), que atuou em mais de 70 filmes, entre eles IZO (também de Takashi Miike, 2004), MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (de Rob Marshall, 2005) e KAGEMUSHA, A SOMBRA DE UM SAMURAI (de Akira Kurosawa, 1980).

Apesar de um ou outro momento incomodar um pouco, gostei do filme. Mas a influência externa é clara, e não estou falando apenas dos diretores citados anteriormente. A história do viajante sem nome não é novidade, e apesar de nesse filme o revólver e a espada dividirem o status de arma principal, no passado elas se apresentaram separadamente em duas outras grandes produções.

YOJIMBO (Akira Kurosawa – 1961)

Nesse filme, o viajante sem nome (sim, sem nome, porque fica claro no filme que o nome com que ele se apresenta foi inventado na hora) é um ronin, um samurai errante, interpretado pelo lendário ator Toshiro Mifune. Sua filmografia é extensa e invejável; só para citar dois exemplos, atuou em OS SETE SAMURAIS (1954), e TRONO MANCHADO DE SANGUE (1957), ambos também de Kurosawa.

Apesar de se passar no Japão feudal do século 19, Kurosawa consegue criar no filme (propositalmente), um clima Western inspirado nos filmes de John Ford, e consegue mostrar a burguesia da época de forma bem satírica, contrastando com a situação desesperadora das classes mais baixas.

Mas o grande destaque da direção está no posicionamento das câmeras. Kurosawa e o diretor de fotografia Kazuo Miyagawa conseguem criar enquadramentos belos e eficientes, conseguindo mostrar tudo que precisava ser visto na cena de uma vez, sem se tornar confuso. Todas essas qualidades, aliadas ao figurino (que concorreu ao Oscar) e à trilha sonora composta por Masaru Sato, transformam esse filme num grande clássico.

No final, discípulo se torna mestre, e Yojimbo acaba por mudar o estilo de se fazer Western, como comprova sua refilmagem feita por Sergio Leone. Vale lembrar que assim como SUKIYAKI, essa refilmagem também não é oficial.

A FISTFUL OF DOLLARS (Sergio Leone – 1964)

Provavelmente o mais famoso entre os três, possui novamente um protagonista marcante, interpretado por Clint Eastwood em seu auge no gênero.

Além da grande atuação do ator, como um pistoleiro mal encarado, inteligente e de olhar assustador (não mexam com sua mula), outra característica marcante da produção é a música composta pelo gênio Ennio Morricone, responsável por incontáveis trilhas sonoras marcantes. Recebeu inclusive das mãos do próprio Clint, um Oscar honorário em 2007 pela importância do seu trabalho. Merecido, pois a introdução do filme (com uma música que iria se repetir em versões diferentes nas duas continuações posteriores do filme) é emocionante.

Com todos esses elementos, e com uma direção que sabe muito bem carregar na tensão, Sergio Leone populariza o gênero Spaghetti Western, muito mais dramático e humano do que o Western americano na época. O filme gerou mais duas continuações, POR UNS DÓLARES A MAIS (FOR A FEW DOLLARS MORE, 1965), e TRÊS HOMENS EM CONFLITO (THE GOOD, THE BAD, AND THE UGLY, 1966), formando a Trilogia dos Dólares, ou a Trilogia do Homem Sem Nome.

Apesar de a figura de Clint nesses filmes ser icônica, antes de lhe oferecer o papel, Sergio Leone já havia cotado Henry Fonda, e depois Charles Bronson, mas ambos recusaram o papel.

Muito mais parecido com YOJIMBO do que o filme de Miike, nessa produção conseguimos identificar facilmente os personagens do filme de Kurosawa em sua versão italiana. Interessante notarmos a ordem dos acontecimentos, uma mesma história que começou no Japão e foi até a Itália, volta ao Japão de um modo totalmente diferente, sem contar que, de alguma forma, todas essas produções foram influenciadas também pelos Estados Unidos. Sendo assim, acho interessante que os três filmes sejam assistidos, pois além de serem ótimos isoladamente, todos tem seu próprio estilo de contarem praticamente a mesma história.

Escrito por Renato Batarce.

 

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DAS EXPERIMENT (Oliver Hirschbiegel – 2001)

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Este filme que o Batata recomendou parece ser bem tenso… Ia assistir o americano, pois não sabia que se tratava de regravação, mas com certeza esse deve ser mais interessante. Leiam a resenha dele, assistam e tirem suas conclusões!

Em grande parte, o cinema alemão foi marcado pelas duas grandes guerras. Com o fim da primeira guerra mundial, surge o cinema expressionista alemão; filmes de temática pessimista, fotografia sombreada, e personagens sofridos, deprimidos, em uma realidade desesperadora de cenários distorcidos como pesadelos, que era o clima pós-guerra. Grandes obras desse gênero são DAS KABINETT VON DR. CALIGARI (1920 – Robert Wiene), SCHLOß VOGELÖD (1921 – F.W. Murnau), NOSFERATU (1922 – F.W. Murnau), FAUST – EINE DEUTSCHE VOLKSSAGE (1926 – F.W. Murnau), METROPOLIS (1926 – Fritz Lang), entre outras. Mas maior ainda foi o impacto da segunda guerra mundial.

Se o cinema de horror alemão antes era simbolizado pelo expressionismo, atualmente seu grande forte é o horror psicológico que, direta ou indiretamente, quase sempre aborda o nazismo.  Não é raro assistir a um filme alemão que tenha a frase “Seu maldito nazista”.

E é com essa introdução que começo a falar sobre esse filme, DAS EXPERIMENT, lançado no Brasil pela Europa Filmes com o nome de A EXPERIÊNCIA (por favor não confundir com o outro filme A EXPERIÊNCIA, THE SPECIES de 1995), e baseado no romance Black Box de Mario Giordano; um dos roteiristas do filme, e dirigido por Oliver Hirschbiegel.

DAS EXPERIMENT trata de uma experiência de duas semanas em um presídio, com voluntários escolhidos aleatoriamente através de um anúncio no jornal. As únicas informações que possuem, além da quantia que irão receber, é que alguns serão guardas, alguns serão prisioneiros, serão monitorados 24 horas, e poderão passar por situações extremas.

Os papéis de cada um são definidos através de entrevistas, daí o jogo começa. Os guardas são informados que devem manter a ordem, porém sem usar de violência. Os prisioneiros são levados até suas celas, tudo num clima de brincadeira, pois sabem que tudo não passa de um jogo. Entre os prisioneiros, encontra-se Tarek Fahd (Moritz Bleibtreu), um taxista, ex-jornalista, que vê na experiência uma oportunidade de escrever a matéria que poderá representar seu retorno à antiga profissão.

Basta um dos prisioneiros recusar-se a tomar leite para que a bomba relógio seja ligada. Os guardas tentam se impor, os prisioneiros se tornam insubordinados e provocam caos na prisão. Após um breve momento de desnorteio, os guardas passam a utilizar a arma da qual eles dispõe já que não podem ser violentos: humilhação.

A partir daí, o filme torna-se cada vez mais tenso, agressivo, o clima no presídio torna-se de desespero e medo, e tudo acontece tão rápido e de forma tão intensa, que até mesmo alguns dos cientistas passam a se questionar sobre a experiência. Tarek, com sede de escrever uma grande história, provoca os guardas como pode, o que poderia para alguns soar até heróico, mas na minha opinião são atos totalmente egoístas que apenas prejudicam seu próprio grupo. Justamente devido a esse comportamento, os cientistas consideram Tarek uma das peças chave da experiência, juntamente com Berus (Justus Von Dohnányi), que se torna uma espécie de líder dos guardas megalomaníacos.

O filme prende a atenção, mas confesso que acho totalmente desnecessária a presença da personagem Dora (Margen Eggert), o interesse amoroso (não sei por que, já que se viram apenas uma noite e ela é realmente chata) do protagonista. As cenas em que ela aparece são extremamente excessivas e quebram totalmente o ritmo do filme. Pra falar a verdade, se ela tivesse apenas uma cena já seria um excesso. Mesmo ao final, ela não faz diferença nenhuma no filme.

Tarek

 Um detalhe um pouco exagerado (que, diga-se de passagem, não existe no livro) são os óculos de espião que Tarek usa. Quando ele vai até um amigo que os entrega, parecia James Bond recebendo um acessório, e achei que não combinava muito com o clima mais realista que o filme tentava levar. Apesar disso, até que os óculos proporcionam momentos interessantes. Reparem que, sempre que Tarek tenta ter uma conversa mais amigável com alguém, ele tira os óculos, como que para proteger sua intimidade.

Como eu havia comentado anteriormente, as referências ao nazismo são praticamente explícitas, com guardas tratando da forma que entendem os prisioneiros, se sentindo a própria raça superior. E como eu havia citado antes, não falta o grito de “nazista nojento!”.

O ator Moritz Bleibtreu é um dos maiores astros da Alemanha, e como pode ser visto no filme, o cara realmente não é nada mal na atuação. No Brasil ele é mais conhecido por seu papel como o namorado de Lola em CORRA LOLA CORRA (LOLA RENNT de 1998). Já Justus Von Dohnányi pode ser visto interpretando o General Wilhelm Burgdorf no filme A QUEDA: AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER (DER UNTERGANG de 2004), também dirigido por Oliver Hirschbiegel. Aliás, é difícil de acreditar que o mesmo diretor de dois filmes tão bons, tenha dirigido também A INVASÃO (THE INVASION de 2007), pavorosa refilmagem de VAMPIROS DE ALMAS (INVASION OF THE BODY SNATCHERS de 1956), com Nicole Kidman e Daniel Craig.

Entre os prêmios que DAS EXPERIMENT recebeu, estão o de Melhor Diretor no Festival de Montreal, de Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Direção de Arte (Andrea Kessler, Uli Hanisch), todos esses prêmios da Academia de Cinema da Alemanha (The Golden Lola). Além de tudo foi a seleção oficial da Alemanha na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2002.

Como já é de praxe com os bons filmes de língua não-inglesa, DAS EXPERIMENT ganhou uma refilmagem em 2010, chamada THE EXPERIMENT (no Brasil, DETENÇÃO), com Adrian Brody e Forest Whitaker. Ainda não assisti, mas é difícil imaginar um resultado positivo em um filme hollywoodiano em uma história que tem a essência tão cravada na Alemanha quanto esta.

Bom, apenas para finalizar, vale citar que a história foi baseada no “Experimento da Prisão de Stanford”, que foi um experimento real realizado em 1971. E fica a dica, mesmo para quem viu ou pretende ver a refilmagem, não deixem de dar uma olhada no original.

Escrito por Renato Batarce.

EL DIA DE LA BESTIA (Alex de La Iglesia – 1995)

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Desta vez nosso incansável colaborador resolveu escrever sobre EL DIA DE LA BESTIA, um filme que vi aproximadamente há 10 anos em VHS, e apesar de já ter baixado o mesmo faz um bom tempo, ainda não revi. Depois de ler a resenha e ver o trailer, certeza que vou assistir novamente ainda essa semana! Com a palavra, Batata:

O filme conta a história do padre Angel (Álex Angulo), um teólogo que através de cálculos matemáticos se convence de que encontrou o dia do nascimento do Anti-Cristo, e consequentemente, do Apocalipse, e é exatamente na noite anterior desse dia, numa véspera de Natal que toda a ação acontece. O padre Angel tenta se aproximar do demônio, ganhando sua confiança através de pecados como roubar mendigos, bater em pessoas, e ouvir músicas satânicas. Esse percurso o leva até a loja de discos de Heavy Metal de José Maria (Santiago Segura), que simpatiza pelo sacerdote e o convida para ficar na pensão de sua mãe. Tentando conhecer melhor o oculto, Angel entra em contato com o apresentador de TV Prof. Cavan (Armando de Razza), numa obsessiva perseguição ao demônio para poder salvar a humanidade.

Poster do filme

 

Apesar de, acreditar no padre ser uma leitura válida, ao que tudo indica sua jornada é completamente inútil. Sua obsessão o cega para todo o resto a não ser seu objetivo, como se se jogar nessa ilusão terrível (mas de certa forma heróica) fosse uma compensação de toda uma vida medíocre, sentimento esse que parece ser compartilhado de forma mais ingênua por José Maria, e posteriormente, de forma mais séria por Cavan. Tudo isso nos remete a outra obra criada também na Espanha, mas pela literatura, Don Quixote. Impossível não comparar.

Mas sim, o mal existe no filme, não da forma como Angel imagina (e algumas vezes alucina) combater. Alex de La Iglesia despeja críticas sociais através de violência policial, gangues intolerantes às minorias, e até em armas vendidas em lojas de brinquedos.

Outra força do filme são os personagens. Todos se mostram interessantes, e não apenas o trio principal. A mãe e (principalmente) o avô de José Maria; Mina, a ajudante da pensão; Susana, a amante de Cavan; o estressado produtor de TV; todos memoráveis.

Mas, apesar de tudo isso, o filme pode ser considerado extremamente trash. O sangue e gore são até bem contidos, mas todos os outros elementos estão lá: atuações exageradas e canastronas, ritmo frenético, muito humor, Chroma Key, e até o bodão da capa do filme dá as caras em efeitos que não chegam exatamente à perfeição. Confesso que realmente sinto vontade de agir como os personagens do filme; quem estiver no caminho leva uma porrada. Na verdade nem precisa estar no caminho, só estar lá.

O satanismo no filme? Extremamente infantil. Dessa forma o diretor demonstra o quão ridículo é acreditar em mitos de invocação satânica apresentados em livros de charlatões, ou que Heavy Metal (“Death Metal, é completamente diferente” José Maria) é música satânica de verdade. Talvez o único grande defeito do filme seja tentar nos fazer crer que um teólogo, mesmo um teólogo com a mente perturbada, realmente dê tanta importância a esses fatores para invocar o demônio.

O ator Álex Angulo, que interpreta o padre Angel, já é figurinha carimbada no cinema espanhol. Trabalhou com Alex de La Iglesia em seu longa-metragem de estréia, ACCION MUTANTE de 1993, com Pedro Almodóvar em CARNE TRÉMULA de 1997, e com Guillermo Del Toro em EL LABERINTO DEL FAUNO de 2006, apenas para citar os mais conhecidos. Já Santiago Segura, intérprete de José Maria se tornou um ícone do underground espanhol ao protagonizar a trilogia TORRENTE.

Alex de La Iglesia é um diretor espanhol conhecido pela galera do cinema fantástico também por outras obras como o já citado ACCION MUTANTE, e tem entre seus maiores sucessos PERDITA DURANGO (1997), LA COMUNIDAD (2000), 800 BALAS (2002) e CRIMEN FERPECTO (2004). Dirigiu em 2006 o filme LA HABITACIÓN DEL NIÑO, que faz parte da série de 06 filmes da TV espanhola chamada PELÍCULAS PARA NO DORMIR (que teve filmes dirigidos também por Jaume Balagueró, Paco Plaza, Mateo Gil, entre outros), além de também ter se aventurado pelo cinema americano dirigindo THE OXFORD MURDERS em 2008, com Elijah Wood e John Hurt.

Vale a pena assistir EL DIA DE LA BESTIA. Não é apenas cinema trash podreira, é cinema trash com qualidade (bom, pelo menos dentro do possível no gênero, hehehe).

                                       Escrito por Renato “Batata” Batarce.

La Bestia...

LOS SIN NOMBRE (Jaume Balagueró – 1999)

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Mais uma resenha do colaborador Renato Batarce, agora sobre o premiado filme espanhol LOS SIN NOMBRE de Jaume Balagueró. Este filme é relativamente fácil de achar nas locadoras, e com certeza vale a pena prestar atenção na filmografia do diretor. Divirtam-se:

Sinopse

O corpo mutilado de uma menina de seis anos é encontrado na água. A menina é identificada como a filha desparecida de Cláudia. Entretanto, somente duas evidências servem para identificá-la: um bracelete com seu nome perto da cena do crime, e o fato de seu pé direito ser três polegadas mais longo que seu pé esquerdo. Todos os métodos restantes de identificação se mostraram inúteis em seu corpo. Cinco anos mais tarde, Cláudia, agora uma viciada em tranqüilizantes, recebe uma chamada telefônica de alguém dizendo ser sua filha, pedindo sua ajuda para salvá-la antes que a matem. Outros indícios misteriosos indicam que a filha de Cláudia pode estar viva e correndo muito perigo. Cláudia e um repórter parapsicólogo unem os indícios para descobrir a verdade.

 

Poster do filme

Em 2007, os diretores Paco Plaza e Jaume Balagueró chamaram grande atenção do mundo com o filme REC, e posteriormente com sua continuação em 2009, REC 2. Coincidentemente, os dois filmes de estréia destes diretores são sobre o mesmo tema, e até mesmo os nomes são semelhantes. São esses: EL SEGUNDO NOMBRE (2002) de Paco Plaza, e o filme em questão LOS SIN NOMBRE por Jaume Balagueró.

O tema em comum entre as duas películas é o de seitas que utilizam crianças em seus rituais. EL SEGUNDO NOMBRE começa com o aparente fim da investigação do desaparecimento da menina de 06 anos Angela (Judith Tort aos 05 anos e Jessica Del Pozo aos 11), com a localização do seu corpo mutilado, apenas identificado por uma perna ser mais curta que a outra e uma pulseira que pertencia a ela. O corpo mutilado, a descrição do que o corpo sofreu ainda em vida pelo médico que fazia a autópsia e a reação dos pais ao reconhecerem a pulseira da filha nos remete a alguns momentos memoráveis de horrores com a família como tema, como O EXORCISTA, e O CEMITÉRIO MALDITO. Nesse quesito, a atriz principal especialmente (Emma Vilarasau) soa bem convincente em sua dor. Infelizmente, uma das falhas da película reside também no certo exagero com que cenas dramáticas gratuitas são apresentadas em certos momentos em que realmente estamos mais interessados nos rumos das investigações, mas no mais, a atriz está perfeita, conferindo personalidade à personagem através da fala e dos gestos mais simples.

Após o descobrimento do corpo, o filme dá um salto de 06 anos no tempo, onde após uma breve vista da nova rotina da mãe da menina, vemos ela receber uma ligação de socorro de alguém que diz ser sua filha. A partir daí, o filme torna-se um suspense eficiente de investigação, nada muito extremo nem gore, como podia-se ter a impressão no início. Mas ao final, as coisas se tornam bem mais extremas, nada que choque os espectadores veteranos do cinema de horror, mas como o filme foi todo carregado na tensão e no suspense, ver a violência apresentada no final (tanto física quanto psicológica), acaba chocando de certa forma.

O filme, como dito anteriormente, é conduzido de modo competente, mantendo o interesse e a atenção (que algumas vezes é quebrada por alguma cena melodramática fora de hora), o que é muito mais do que pode ser dito da maioria dos suspenses de hoje em dia. Sim, tem elementos de horror, mas nada extremo, é um filme de certa forma pesado, mas acessível ao grande público também. Outra coisa benéfica, é que o filme foge de alguns clichês que o cinema americano insiste em colocar, como por exemplo, um romance entre os protagonistas, que soaria muito forçado nesse filme.

Revelar mais sobre a trama de um suspense sempre tira o sabor de assisti-lo pela primeira vez, então apenas resumirei a base da trama na frase “O mal absoluto abre portas”. Fará sentido após o final (em aberto, permitindo diversas interpretações sobre o que pode ter acontecido).

O filme vale também aos fãs de REC, para verem como o diretor Jaume Balagueró conduz um filme em condições “normais”, ou seja, com música, câmeras devidamente posicionadas, montagem e edição convencionais e etc. Outros filmes de destaque do diretor são A SÉTIMA VÍTIMA (THE DARKNESS, 2002), e no roteiro MALDIÇÃO: REZE PARA NÃO VÊ-LA (THE NUN, 2005). Além disso, ao que parece ele tomou uma dose de bom senso e pulou fora de REC 3.

O filme foi lançado no Brasil com o nome de A SEITA, e foi baseado na obra original escrita por Ramsey Campbell. Apesar da pouca repercussão por aqui, lá fora teve boa repercussão, recebendo os prêmios abaixo:

FESTIVAL INT´L DE BRUXELAS – MELHOR FILME

BUTACA AWARDS – MELHOR ATRIZ E INDICADO A MELHOR FILME

CIRCULO DE CRITICOS DE CINE DE ESPANHA – INDICADO A MELHOR MONTAGEM

FANT-ASIA FILM FESTIVAL – MELHOR FILME ESTRANGEIRO

FANTAFESTIVAL – MELHOR FILME

FANTASPORTO – PRÊMIO DA CRÍTICA MELHOR FILME – MELHOR DIRETOR – INDICADO A MELHOR FILME

GÉRARDMER FILM FESTIVAL – MELHOR FILME COM PRÊMIOS CRÍTICA INTERNACIONAL (FIPRESCI), ESPECIAL DO JURI, PRÊMIO DO JURI JOVEM E PRÊMIO CINÉ-LIVE (GRAND PRIX)

PUCHON INT´L FANTASTIC FILM FESTIVAL – MELHOR FILME PREMIO ESPECIAL DO JURI

SITGES – FESTIVAL INT´L DA CATALUNIA – MELHOR FILME, ATRIZ, FOTOGRAFIA E PRÊMIOS GRAND PRIZE OF EUROPEAN FANTASY FILM IN GOLD E GRAND PRIZE OF EUROPEAN FANTASY

FILM IN SILVER – INDICADO A MELHOR FILME

É a Espanha provando que é dos maiores berços do cinema de horror da atualidade na Europa, que está vivendo uma época bem fraca no estilo.

                                                                    Escrito por Renato Batarce.

COLIN (Marc Price – 2008)

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Acho que todos concordam que a grande maioria dos filmes de zumbis caiu na mesmice já faz muito tempo… Os roteiros são os mais previsíveis do mundo, e me parece que a única diferença entre eles é se os zumbis vão ser inteligentes ou não, se vão correr ou tropeçar por aí, se comem apenas o cérebro ou o corpo todo das suas vítimas e mais um punhado de clichês que já encheu o saco até do fã mais carniceiro, ávido por tripas cenográficas e sangue de xarope de milho…

Mas vira e mexe aparece um filme inusitado, com um pouco mais de originalidade, provando que basta criatividade para salvar um filão tão explorado como o dos filmes de zumbis. Foi assim com a ótima comédia inglesa SHAUN OF THE DEAD de Edgar Wright (conhecido por aqui com o título ridículo e oportunista TODO MUNDO QUASE MORTO), um filme feito para homenagear o gênero, justamente debochando de todos os absurdos clichês destas produções, mas sem perder o ritmo ou errar a mão na palhaçada, mantendo sempre um bom nível de matança e diversão inteligente. Mais do que recomendado para os fãs de mortos-vivos.

Poster do filme

Mas o assunto aqui é outro, e tem nome: COLIN. Este filme teve muita repercussão na mídia ano passado, graças ao seu baixíssimo orçamento, algo em torno de $ 70,00 (£ 45,00), e também por ter sido selecionado para exibição no Festival de Cannes. Barulho feito, o filme vem sendo exibido em vários festivais pelo mundo, sempre com uma boa cobertura da imprensa, que não cansa de alardear sobre o orçamento do mesmo.

E eis que COLIN e seu diretor, Marc Price, aportaram aqui no Brasil, para uma exibição seguida de bate-papo, integrando a mostra não-competitiva de longas do 4º CineFantasy – Festival Curta Fantástico, ocorrido em novembro de 2009. Eu estava por lá para conferir, e posso dizer que o filme é realmente muito bom, inovador e interessante, e que Marc Price é um cara legal, que parece ainda não reconhecer o valor de sua obra, seja por humildade ou simplesmente porque caiu de pára-quedas na rota da indústria cinematográfica e dos festivais.

Ele mesmo endossa essa opinião, pois falou para todos os presentes na sessão que nunca teve a pretensão de ser cineasta, e que fez o filme por diversão, de forma totalmente independente e amadora. Se bem me lembro, Marc Price disse ser formado em artes plásticas, e gravou o filme ao longo de mais de dois anos, apenas nos fins de semana, com pessoas que se inscreveram como voluntários para o projeto através do Facebook e Myspace. Alguém perguntou a ele qual câmera havia utilizado para fazer o filme, e o mesmo confirmou o que se pode ler em alguns sites por aí, uma Panasonic mini-dv camcorder antiga, tendo usado o Adobe Premiere em um PC comum para a edição, durante todo o processo.

A história é bem simples: o protagonista, um jovem chamado Colin, está em desesperada luta pela vida durante uma infestação de zumbis. Já ferido e tentando se refugiar na casa de um amigo, acaba sendo mordido logo nos primeiros minutos da trama. É aí que está a grande sacada do filme. Depois de passar mal e desmaiar, Colin já “acorda” como um zumbi, e a partir daí o personagem vaga pelas ruas destruídas de um subúrbio da Inglaterra…

Acompanhando seus passos à procura de comida, o diretor capta nuances de sentimentos nas expressões de Colin; é realmente muito interessante ver que o morto-vivo sente medo e fome, e por vezes tem dificuldade para estabelecer relação entre seus semelhantes, até mesmo por ser um indivíduo novo no “grupo”, e é hostilizado por aqueles que são mais vorazes e violentos. Assim como no reino animal, onde é preciso confiar nos instintos para sobreviver, Colin vai aprendendo a se aproveitar de certas situações para poder se alimentar, e aos poucos vai se tornando mais persistente e selvagem.

O ritmo do filme é um pouco lento, principalmente na primeira metade da história, mas não chega a comprometer o resultado. Por ser filmado com equipamento amador, muitas vezes com a câmera à mão, o longa acaba passando uma sensação de proximidade com o espectador, e muito do que é mostrado na tela vem à nós pela ótica do protagonista. Nas cenas de ação, lembra muito os registros de reportagens policiais, durante manifestações turbulentas ou quando irrompe um tiroteio durante a matéria… Um verdadeiro pandemônio.

Duas cenas merecem destaque: uma delas é extremamente claustrofóbica, se passa numa casa lotada de zumbis, onde poucas pessoas tentam desesperadamente se defender do ataque deles. Outra é no fim de uma grande e sangrenta batalha, em que um grupo de pessoas que caçam os mortos-vivos faz o balanço da carnificina, e basta dizer que não há possibilidade de feridos voltarem para casa.

Este filme merece ser visto por quem gosta de cinema independente, filmes de horror e por todos aqueles que apreciam cinema não só como entretenimento escapista,  mas também como forma de expressão artística. É muito bom ver até onde um cineasta pode chegar com um orçamento tão limitado, mas com muita vontade de inovar. Fica a torcida para que Marc Price resolva nos presentear com mais um grande filme em breve; incentivo da mídia e dos fãs ao redor do mundo é o que não vai faltar.

Mostra “Todos os corpos – Parte 1”, de 12/11 a 18/11

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Começa amanhã a mostra “Todos os corpos” na Galeria Olido, aqui no centrão de São Paulo, paralelamente ao 18º Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual, que também começa a ser exibido no mesmo dia.

A mostra “Todos os corpos” tem por objetivo “fazer um panorama sobre os registros do cinema a respeito do corpo” segundo a equipe da Galeria Olido. Serão exibidos filmes que contém cenas de sexo simulado (softcore) e sexo explícito. Até aí tudo beleza, isso não é nenhuma novidade neste espaço cultural, pois o Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual já vem trazendo este tipo de tema e abordagem cinematográfica à telona neste mesmo local faz algum tempo. 

Embora a mostra seja composta predominantemente por filmes de grande apelo erótico de renomados diretores, o que me chamou mais a atenção na seleção de filmes foi a escolha do polêmico SWEET MOVIE  para integrar a grade de exibições.

SWEET MOVIE é um filme de arte de 1974 do diretor Iugoslavo Dusan Makavejev, que causou grande rebuliço em sua estréia, por conter cenas bem gráficas de Coprofilia e Emetofilia, ou seja, cenas com pessoas que se excitam ao ter contato com as fezes e urina de outras, e também tem o singelo hábito de vomitar durante seus atos sexuais, respectivamente. Quem puder assistir verá que a certa altura a protagonista do filme se abriga em um enorme galpão com uma espécie de trupe teatral, e todos se juntam à mesa para um banquete animado; a partir daí só os espectadores de estômago forte continuam assistindo à cena sem se incomodar com a catarse escatológica que se segue.

Dando uma vasculhada pela net achei a informação de que algumas das cenas enxertadas na montagem (cenas em preto e branco que mostram cadáveres em decomposição ao ar livre) são imagens reais de vítimas de um triste evento conhecido na Polônia como Massacre da Floresta de Katyn, ocorrido na década de 40, e estas cenas enfureceram a opinião pública na época do lançamento da película. Por estas e outras o filme foi proibido em muitos países por muitos anos, e continua vetado em algumas localidades. Com o advento das mídias digitais e da facilidade da livre transferência de dados via web de hoje em dia (a boa e velha pirataria), o filme já não é mais tido como um filme raro, mas continua sendo controverso.

A história do filme é interessante, vale a pena dar uma espiada, o roteiro é recheado de alegorias sobre a sociedade moderna, tem belíssimas cenas, bela fotografia e boas atuações. A meu ver, a parte mais politicamente incorreta da obra está na sequência em que Anna Planeta, uma espécie de pirata revolucionária, recebe em seu barco algumas crianças, moleques com não mais do que 12 anos de idade, e os seduz com um strip-tease enquanto eles comem alguns doces (lembrando que são atores mirins, e que ela fica completamente nua a uns 10 centímetros da cara deles).

Bem, a conclusão desse falatório todo é que se pode ter acesso ao cinema de arte, underground, extremo ou o que quer que seja, não só pela net, mas também na telona, pagando a módica quantia de R$ 01,00. É ou não é motivo para se comemorar?

Abaixo, listo algumas sugestões de filmes que serão exibidos, acompanhadas de considerações pessoais para ajudar na escolha de quem puder comparecer à mostra (convenhamos, não é todo mundo que pode se dar ao luxo de ir ao cinema às 15:00 em dias de semana), e no fim do post o link para a programação no site da Galeria Olido:

IMPÉRIO DOS SENTIDOS
(Ai no corrida, Japão, 1976, 97 min). Dir.: Nagisa Oshima. Com Eiko Matsuda, Tatsuya Fuji, Aoi Nakajima e outros.
Dois amantes se reúnem para experimentar formas de prazer que ampliem as possibilidades de amor, sem se importar com fronteiras morais ou sociais.
(nota: Espetacular filme do mestre Nagisa Oshima, com fotografia impecável, ótimo roteiro e figurino, e com um final de certa forma surpreendente para um filme tido como pornográfico, mas que na verdade, se utiliza do sexo explícito e do erotismo como veículo para representar as emoções  dos protagonistas).

SALÓ
(Salò o Le 120 giornate di Sodoma, Itália, 1975, 117 min). Dir.: Pier Paolo Pasolini. Com Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Umberto Paolo Quintavalle e outros.
Adaptação de obra do Marques de Sade, o filme mostra quatro homens poderosos enclausurados em uma mansão para viver todo o tipo de orgias e torturas com garotos e garotas, embalados por histórias narradas por prostitutas.
(nota: Tenso e cruel. Para quem gosta de torturas e sevícias de todo o tipo. Não confundir com porcarias como a franquia JOGOS MORTAIS, Pasolini tem estilo).

O VOYEUR
(L’uomo che guarda, Itália, 1994, 100 min). Dir.: Tinto Brass. Com Franco Branciaroli, Francesco Casale, Katarina Vasilissa e outros.
História de homens e mulheres que olham e são olhados, como o jovem professor universitário, sua mulher bonita e infiel, seu pai libidinoso e uma desinibida empregada doméstica.
(nota: Esse é mesmo para quem é chegado numa safadeza. Não qualquer safadeza, mas sim com a marca de Tinto Brass na direção, o mesmo diretor do aclamado CALÍGULA de 1979, com Malcolm McDowell).

SWEET MOVIE
(França, 1974, 99 min). Dir.: Dusan Makavejev. Com Carole Laure, Pierre Clémenti, Anna Prucnal e outros.
Repleto de surrealismos e escatologias, o filme conta, paralelamente, as histórias de duas mulheres: uma que deixa o marido por não gostar de sexo e se envolve com um roqueiro, e a outra que comanda um barco onde discute sexo e política.

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/galeria_olido/cinema/index.php?p=6018