Mostra “20 Anos de Takashi Miike”, de 17/08 a 28/08

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Começa hoje na cidade de São Paulo a mostra “20 Anos de Takashi Miike”, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a exibição de 20 obras do cineasta.

Oportunidade perfeita para quem deseja ver ou rever os filmes deste excelente diretor em cópias de 35mm (com exceção do média metragem IMPRINT, que será exibido em Beta Digital), a preços módicos.

Acessem o site da mostra e vejam a programação, não percam esta oportunidade de conferir os delírios visuais de Miike com a melhor imagem possível! Veja o site da mostra AQUI.

OBS: Dia 27 de Agosto ocorrerá a pré-estréia nacional do mais novo filme do cineasta, ICHIMEI, com exibição em 3D no Cinemark do Shopping Metrô Santa Cruz (somente esta sessão terá cobrança de ingresso convencional com a tabela de preços do local). Após a sessão, ocorrerá uma vídeo conferência via Skype com Miike.

CROWS ZERO (Takashi miike – 2007)

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Mais uma resenha do Batata:

CROWS ZERO é baseado no mangá Crows, escrito por Hiroshi Takahashi, mas na verdade o filme é um prequel da história.

A trama se passa na Escola Suzuran, onde estudam apenas rapazes arruaceiros e briguentos, que querem dominar a escola através dos punhos. O aluno com mais chances de chegar ao topo da liderança é Tamao Serizawa (Takayuki Yamada), do terceiro ano; mas eis que aparece um aluno transferido chamado Takiya Genji (Shun Oguri), disposto a superar Serizawa e dominar Suzuran. Genji acaba tendo a ajuda de um yakuza chamado Ken Katagiri (Kyosuke Yabe), que fica impressionado com suas habilidades e tem alguns problemas com Serizawa. Esse por sua vez, tem como maior aliado Tokio Tatsukawa (Kenta Kiritani), que era amigo de infância de Genji.

A própria escola acaba por se tornar um personagem da trama, e nela encontram-se várias subdivisões, cada uma com seu líder próprio, e Genji e Serizawa trabalham para recrutar esses pequenos grupos para que se tornem cada vez mais fortes para a luta final. Destaque para Hideto Bandou (Hiroshi Watanabe), do segundo ano, que lidera uma gangue de motociclistas; para o persistente Takashi Makise (Tsutomu Takahashi) e para o misterioso Rindaman.

O filme é cheio de lutas a todo o momento, mas não são lutas ao estilo filmes de Kung Fu: na verdade elas parecem mais brigas de rua bem coreografadas. O que pode faltar em técnica, sobra em brutalidade e hematomas nos personagens. Apesar disso, Genji tem que aprender novos métodos para recrutar alunos além da força bruta, ele tem que aprender a merecer lealdade. Cabe dizer que boa parte da vontade de Genji comandar Suzuran vem do fato de ele ser filho de um chefe da Yakuza.

Apesar da brutalidade, nota-se que Takashi Miike produziu um filme para adolescentes, sendo assim, tem aquele toque de romance chato e aquela música melosa obrigatória que faz você pensar “por que transformar o filme em um videoclipe?”. O clima anime e mangá também está presente a todo o momento, desde a caracterização e movimentos dos personagens, até aquela velha história daquele que apanha mas não desiste nunca. Pra vocês terem uma idéia, o filme tem até uma abertura, como se fosse um seriado!

Apesar de jovens, os atores são bastante experientes. Entre outros, Shun Oguri interpretou o personagem Akira em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Nachi em AZUMI, Ginkaku em AZUMI 2 e Kazuya em ALMAS REENCARNADAS. Takayuki Yamada interpreta Shinrouko em 13 ASSASSINS, também de Takashi Miike, e está na versão Live Action do mangá e anime Gantz.

O filme ainda rendeu uma continuação, CROWS ZERO II, com o mesmo elenco, também de Takashi Miike. Existe o anime Crows One, uma série spin-off chamada Worst, e também rumores de um possível CROWS ZERO III, que não deve ser difícil, considerando que o segundo filme ficou várias semanas nos Top 10 de mais vistos no Japão. Se por acaso o terceiro filme vier a ser feito, provavelmente o elenco não será mantido, já que os alunos se formaram em Suzuran no segundo filme.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

FULL METAL YAKUZA (Takashi Miike – 1997)

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Voltamos a postar no blog, infelizmente nos encontramos no último dia do mês, e não conseguimos levar à frente a homenagem à Takashi Miike da forma como idealizamos, simplesmente não tivemos tempo para nos dedicar às resenhas, e ficamos devendo nossa opinião em uma porção de filmes. Fechamos então estes dois meses de postagens com apenas 08 resenhas novas sobre as obras do cineasta. Porém, como já foi citado anteriormente, há um forte boato de que teremos aqui em São Paulo uma mostra dedicada ao mestre, provavelmente em Setembro, e nesta ocasião falaremos mais sobre seus filmes.

Seguimos então com dois posts do Batata, sobre os filmes FULL METAL YAKUZA e CROWS ZERO, e um de minha autoria, sobre DEADLY OUTLAW REKKA. Confiram:

Se em ZEBRAMAN Takashi Miike fez uma comédia utilizando tokusatsus e um fã bitolado, em FULL METAL YAKUZA ele cria o perfeito tokusatsu para adultos.

FULL METAL YAKUZA mostra a história de Kensuke Hagane (Tsuyoshi Ujiki), um aspirante à Yakuza que não se mostra um capanga muito bom. Ele tem grande admiração por Tosa (Takeshi Caesar), um dos chefes da gangue. Tosa é preso por matar um chefe rival, e após sua saída da prisão, é morto por seus companheiros junto com Kensuke.

Mas de repente, Kensuke acorda no laboratório do cientista Genpaku Hiraga (Tomorowo Taguchi), que fundiu seu corpo ao de Tosa, complementando com partes cibernéticas. Kensuke agora é um ciborgue superpoderoso e quer buscar vingança contra seus antigos companheiros, apesar dos desejos de seu salvador, que queria que Kensuke se tornasse um super-herói defensor da justiça.

O filme é sensacional, feito com baixo orçamento, muito sangue, crueldade, depravação, e cenas de tortura com mulheres, que, apesar de não serem tão extremas quanto em IMPRINT, tinham um clima que chegava a me lembrar alguns momentos mais sádicos de BODYGUARD KIBA. Além disso, tanto os efeitos especiais quanto o corpo ciborgue de Kensuke são os grandes responsáveis pelo charme tokusatsu do filme, que citei anteriormente.

Apesar de tudo isso, o clima ainda tem momentos muito engraçados, como por exemplo o treinamento de Kensuke em seu novo corpo ciborgue, a maneira curiosa de ele se alimentar, e todas as piadas envolvendo o “instrumento” que ele herdou de Tosa.

O filme foi originalmente concebido para o mercado de V-Cinema, que é o nome dado às produções japonesas que são lançadas direto em vídeo; mas por sua história bizarra, e pela reputação crescente do diretor Takashi Miike, FULL METAL YAKUZA foi ganhando cada vez mais renome.

O ator Tsuyoshi Ujiki participou também dos filmes CURE, também de 1997, ROBOKON de 2003, e participou do seriado SUZURAN. Takeshi Caesar atuou em KAMIKASE TAXI de 1995 e FUDOH de Takashi Miike em 1996. Mas o ator mais clássico do elenco com certeza é Tomorowo Taguchi; só pra citar alguns filmes que ele participou: GUINEA PIG 5 – ANDROID OF NOTRE DAME, TETSUO 1 e 2, BULLET BALLET, TOKYO FIST (sendo os quatro últimos dirigidos por Shinya Tsukamoto), KAMIKASE TAXI, GAMERA 2, KAMEN RIDER – THE NEXT, GANTZ, DEAD OR ALIVE 1 e 2, e ANDROMEDIA, sendo os três últimos de Takashi Miike.

FULL METAL YAKUZA já pode ser considerado um clássico da filmografia de Miike, e contém todos os elementos que podem ser considerados marcas registradas do diretor: yakuzas, sangueira, humor negro, bizarrices e torturas.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

THE CITY OF LOST SOULS (Takashi Miike – 2000)

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E o Batata abre o mês de Maio dando continuidade à nossa homenagem ao cineasta Takashi Miike, com uma resenha sobre THE CITY OF LOST SOULS:

Em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Miike optou por fazer um filme com atores japoneses todo falado em inglês, em um sotaque muito evidente. Em THE CITY OF LOST SOULS é a vez dos brasileiros experimentarem o sotaque oriental falando nossa língua oficial.

THE CITY OF LOST SOULS é um filme de ação, que conta a história do brasileiro Mário (Teah), e da chinesa Kei (Michelle Reis), que vivem no Japão. Com toda essa mistura, quase metade do filme é falado em português, metade falado em japonês, e um pouquinho de chinês (isso sem contar o personagem russo), o que torna a obra uma celebração à convivência de culturas e à miscigenação.

O caso é que o português falado por atores estrangeiros (posso estar enganado, mas ao que parece são apenas dois brasileiros de verdade no filme) é realmente muito ruim, tanto que precisei assistir aos diálogos com legendas. Se isso é um problema ou não, depende mais da pessoa que está assistindo, mas se dermos uma boa olhada no histórico de Takashi Miike, é de se presumir que esse defeito tenha sido proposital. Ironicamente, a atriz chinesa Michelle Reis, que nasceu em Macau, uma colônia portuguesa, tem pai português e mãe chinesa, não diz uma palavra em português no filme.

Algumas pessoas podem não gostar da visão do bairro brasileiro de Miike, podem achar estereotipado, com o povo sambando, bebendo e chamando as mulheres de gostosas (além de em certo momento ter uma cena de luta com capoeira), mas sejamos francos, existem diretores brasileiros que exibem cenas como essa de forma bem mais evidente. Vejamos o lado bom, pelo menos os brasileiros no filme não falam espanhol.

O início do filme é bombástico. Em nenhum momento Miike se preocupa em mostrar como o casal de protagonistas se conheceu, ou algo do seu passado; ele preferiu começar do meio da história, com Mário resgatando Kei de ser deportada do Japão, em uma cena de ação energética e exagerada, bem ao estilo John Woo. Após o resgate, o casal é encontrado por Ko, um gangster chinês apaixonado por Kei, que tem negócios no Japão envolvendo drogas. A trama toma seu rumo quando Mário, Kei, Carlos (Atsushi Okuno) e Ricardo (Sebastian DeVicente) resolvem se intrometer nesses negócios.

A trama é bem básica, mas é conduzida de forma energética, e possui personagens interessantes que vão sendo introduzidos calmamente e se encaixando na história. O filme pode estar no meio e ainda não foram apresentados todos os principais personagens. Além disso, o filme conta com vários toques “Miikeanos”, que dão aquele toque especial, como cabeças em chamas, personagens que saltam de enormes alturas sem se ferir, e a famosa briga de galos porcamente computadorizados à la MATRIX.

Hora de dar nome aos bois: o brasileiro Mário é interpretado pelo ator japonês Teah (que foi abrasileirado no filme, ficando com pele morena e cabelos encaracolados e mullets), e participou dos filmes IZO, DEAD OR ALIVE 2: TOBOSHA, e também do prequel de ICHI THE KILLER, o filme 1 ICHI. Michelle Reis começou a carreira como modelo, mas depois se tornou uma atriz famosa na China, atuando em filmes como SWORDMAN 2 (1991), DRUNKEN MASTER 3 (1994) e FALLEN ANGELS (1995). O elenco conta também com o ator chinês Terence Yin, famoso por diversos filmes como BLACK MASK 2: CITY OF MASKS (2002), DEAD OR ALIVE: FINAL (2002) e NEW POLICE STORY (2004). Os atores brasileiros são Sebastian DeVicente, que interpreta Ricardo, e Márcio Rosario (que já fez diversos trabalhos em séries, novelas e filmes, tanto nacionais quanto internacionais), que interpreta Sanchez, o apresentador da TV Piranha. Por último, Lúcia, a prostituta e ex-caso amoroso de Mário é interpretada pela atriz mexicana Patrícia Manterola.

Ah, não deixem de assistir às cenas que passam durante os créditos do filme, pois elas mostram o destino de dois personagens coadjuvantes.

Escrito por Renato Batarce.

IZO (Takashi Miike – 2004)

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Para os leitores do blog e fãs de Takashi Miike, segue um texto do Batata sobre um dos mais densos e impressionantes filmes do mestre, o belo e sanguinário IZO:

IZO é uma experiência cinematográfica totalmente surreal e experimental.

O protagonista é baseado no personagem histórico real Okada Izo, um samurai assassino do período do Bakumatsu. Já apareceu em várias outras obras de diferentes mídias, como por exemplo, o assassino Udo Jun-ei do mangá Rurouni Kenshin foi baseado em Okada Izo.

A história do filme começa com a morte de Izo. Ele é crucificado (no primeiro de vários simbolismos religiosos) após anos de assassinato sob as ordens de um senhor feudal. Como toda a vida de Izo foi baseada em morte e violência extrema, seu espírito não consegue entrar nem no inferno, nem tampouco no céu, então começa a vagar e matar quem estiver no seu caminho, perturbando a ordem da existência.

Enquanto Izo prossegue seu caminho de matança, existe um grupo de pessoas que sabe de cada um de seus passos e se preocupa com os danos que o espírito vem causando. Esse grupo é divido entre sacerdotes (Religião), e políticos (Estado). Durante toda a história, as pessoas têm seguido as regras ditadas por essas duas instituições e sido governadas por elas, por isso que, independente da época que Izo se encontra, eles sempre estão sabendo de suas ações, já que o poder deles é atemporal. O filme reflete sobre o poder exercido sobre o indíviduo, como por exemplo, na frase dita por crianças na escola: “nação é um delírio maléfico só existente nas mentes humanas; uma noção imaginária de falsidade que existe apenas para controlar e governar pessoas que instintivamente se aglomeram em bandos.”

Izo é a representação da violência e da marginalização, por isso não segue nenhuma das regras políticas, religiosas ou morais. Sendo assim, não importa se são sacerdotes, polícia, gangues, assassinos, inocentes ou crianças, todos são abatidos sem piedade. Como espírito, Izo é aquilo que se tornou e nada mais, é a representação de tudo que conheceu em suas experiências em vida. Izo é o espírito do caos, contra qualquer tipo de ordem. Seu caminho é nada mais nada menos que violência cíclica e sem fim, mas em determinado momento ele se opõe até mesmo a isso, se negando a aceitar seu carma.

Os atos de crueldade de um indivíduo causam grandes deformações ao espírito, então quanto mais destruição é causada por Izo, mais seu corpo se modifica, até que ele se transforma em uma figura praticamente demoníaca.

Cada cena possui reflexões próprias, com frases existencialistas, filosóficas, políticas e poéticas muito inspiradas, ditas pelos diversos personagens. Além dos adversários, um espírito feminino acompanha Izo em parte de sua jornada, mas quem causa mais impacto é o homem com violão que de repente surge em muitas cenas, cantando poesias belíssimas, cheias de sentimento, metendo a mão no instrumento. Miike valoriza essas performances do músico Kazuki Tomokawa (também conhecido como “O Filósofo Gritante”), reservando para ele momentos algumas vezes bem longos até, para que o mesmo se expresse, aumentando o impacto emocional do filme.

Além do músico, o elenco de Izo ainda conta com o artista plástico Kazuya Nakayama como o personagem título, Kaori Momoi (de SUKIYAKI WESTERN DJANGO), o sensacional Takeshi Kitano (ZATOICHI, BATTLE ROYALE 1 e 2 e JHONNY MNEMONIC, só pra citar alguns), e a participação especial do lutador Bob Sapp (tomando um coro, como sempre).

Takashi Miike produz um filme pesado, de difícil absorção ao grande público devido à sua trama sem linearidade, e matança atrás de matança em seus 128 minutos. O diretor mostra grande habilidade ao conduzir essa trama de forma ágil, mesclando também várias imagens de arquivo sobre violência e guerra durante a história. Como uma trama surreal, o principal não é encontrar sentido, mas deixar-se levar pelos pensamentos e sentimentos que as frases, sons e imagens causam a cada um.

Diz a lenda, que esse projeto surgiu da frustração de Miike perante a baixa aceitação de Gozu por público e crítica. Sendo isso verdade ou não, esse filme é praticamente uma poesia em movimento, e deve ser visto por quem acha que Takashi Miike não passa de um diretor maluco que apenas produz filmes de ultraviolência estilizada (como Robert Rodriguez). Mesmo grandes fãs do diretor podem se surpreender, eu me surpreendi.

Escrito por Renato Batarce.

ZEBRAMAN (Takashi Miike – 2004)

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Vocês se lembram das séries de super-heróis vindas do Japão que passavam na TV alguns anos atrás? Ultraman, Jaspion, Changeman, Flashman, Jiraiya e tantos outros… Pois é, quem está perto da casa dos 30 anos com certeza se lembra. Estas séries fizeram a alegria da molecada no final da década de 80 e início da de 90, tendo sido exibidas à exaustão pela extinta TV Manchete, e posteriormente espalhando-se por outras emissoras.  Estes seriados, e uma porção de filmes também, são conhecidos como Tokusatsu, nome criado a partir da junção das duas palavras do termo japonês “tokushu satsuei”, que significa algo como “filmes de efeitos especiais”.

O gênero Tokusatsu é muito popular no Japão, e embora os primórdios deste tipo de produção apontem para os filmes de monstros gigantes (Kaiju Eiga, ou Daikaiju Eiga), como Godzilla, Mothra e Gamera, destinados ao público adulto em geral, hoje em dia o termo é largamente utilizado para se referir apenas às séries de super-heróis exibidas semanalmente no Japão, direcionadas estritamente ao público infantil e infanto-juvenil. Como todo bom gênero cinematográfico ou televisivo, o Tokusatsu possui alguns subgêneros: o de esquadrões de heróis multicoloridos que possuem um robô gigante (Super Sentai), guerreiros com armaduras metálicas (Metal Heroes), heróis gigantes intergalácticos (Kyodai Heroes) e aqueles que “apenas” sofrem algum tipo de mutação ou metamorfose e caem na porrada com os mais diferentes tipos de malfeitores (Henshin Heroes). Este nicho se mostrou muito rentável, e as duas maiores produtoras japonesas deste tipo de seriado, a Toei Company e a Tsuburaya Productions, responsáveis pela criação das franquias Kamen Rider e Ultraman, respectivamente, conseguiram consolidar seus personagens e produtos na cultura pop do país ao longo dos últimos 45 anos, tornando-os verdadeiros ícones da produção audiovisual nipônica.

ZEBRAMAN, realizado por Takashi Miike em 2004, é uma homenagem ao gênero Tokusatsu, e de certa forma, uma bem humorada paródia.

Sho Aikawa (excelente ator, e protagonista de diversos filmes de Miike) é Shinichi Ichikawa, um professor de escola primária que leva uma vida patética: não é respeitado por sua família nem por seus alunos, e como forma de escapar da realidade, vive assistindo séries de tokusatsu na TV. Seu herói preferido é Zebraman, que estrelou uma série que acabou sendo cancelada após 13 episódios, quando Ichikawa era jovem.

Como se não bastasse, o professor possui um estranho hobby: confecciona roupas idênticas ao figurino do herói, e passa horas em seu quarto fantasiado, treinando golpes e reproduzindo falas e trejeitos de seu ídolo. Paralelamente, a polícia japonesa começa a investigar a possível presença de alienígenas na terra, e tem também que se preocupar com uma onda de ataques a mulheres, efetuados por um louco que usa um capacete em formato de caranguejo (?).

Em meio a esse bizarro cenário, um aluno novo é transferido para a escola onde Ichikawa leciona, e após descobrir que o garoto conhece Zebraman através dos relatos de seu falecido pai, um vínculo forte começa a se formar entre os dois. Ichikawa também se aproxima da mãe de Asano, o novo aluno, e começa a sentir uma certa atração por ela.

Cada vez mais absorto em seu mundo imaginário, e contagiado pela empolgação do pequeno Asano que idolatra Zebraman, Ichikawa começa a sair na rua trajando sua fantasia, e é justamente em um desses passeios noturnos que ele se encontra com o maníaco que anda atacando mulheres na cidade. Como todo bom herói, o protagonista impede que mais um crime aconteça, mas um confronto entre os dois é inevitável. E é a partir daí que o filme começa a ficar cada vez melhor.

Ichikawa é um homem franzino, desajeitado e de meia-idade, e quando se vê frente a frente com um criminoso real não consegue esconder de si mesmo o fato de que não deveria estar nas ruas, fantasiado, procurando confusão. Mas para sua própria surpresa, o professor consegue desviar dos ataques do maníaco de forma espetacular, com reflexos sobre humanos e acrobacias incríveis. Ichikawa não só consegue se proteger como também revidar com um violento super golpe. Fica claro que o protagonista acreditou tanto em seus devaneios que os poderes e habilidades de Zebraman passaram a se manifestar em nosso mundo. Caberá a ele agora garantir a segurança dos cidadãos de sua cidade, em meio à crescente onda de violência e aos estanhos acontecimentos relacionados à invasão alienígena.

A produção é muito caprichada, e um fato interessante é que o herói aparece com três diferentes roupas durante o filme: a tosca fantasia feita pelo protagonista, a vestimenta original que o herói trajava na série exibida na TV e uma outra versão, já nos moldes atuais, quando o herói está no auge de sua força. Esta última, muito parecida com uma espécie de armadura, evolui sozinha a partir da versão antiga, numa cena muito interessante.

Para quem gosta de tokusatsu, o filme é diversão garantida. Já havia mencionado aqui que a obra é uma espécie de homenagem de Miike ao gênero, e isso pode ser visto com clareza na cena em que o professor descobre que seu novo aluno conhece Zebraman. Com uma narração em off do garoto, vemos o que seria a sequência de abertura da antiga série do personagem, gravada por Miike nos moldes das produções setentistas, com alguns “defeitos” especiais e uma música tema idêntica às que tocavam nestas produções. O ator escolhido para encarnar Zebraman na série de TV é o veterano Hiroshi Watari, protagonista de Sharivan e Spielvan, duas séries de muito sucesso no Japão, e é considerado por muitos um dos melhores atores de tokusatsu de todos os tempos.

Embora este não seja um trabalho “convencional” de Takashi Miike, muitas de suas características cinematográficas estão presentes: edição ágil, trilha sonora barulhenta, cenas violentas e temática absurda. Um presente para aqueles que assistiram este tipo de série na infância, mas também não deixa de ser um ótimo filme para quem procura por um pouco de ação e humor descompromissados.

SUKIYAKI WESTERN DJANGO (Takashi Miike – 2007)

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Para dar o chute inicial no “Mês Takashi Miike” aqui no blog, o Batata escreveu sobre SUKIYAKI WESTERN DJANGO, um western bem diferente, feito pelo diretor em 2007, traçando um paralelo com outras duas obras, verdadeiros clássicos do cinema:

Quer gostem ou não, Takashi Miike é um ícone cult. Apesar de alguns o considerarem um diretor de filmes de Yakuza, outros um diretor de cinema de horror, quem conhece melhor sua obra sabe que é impossível defini-lo em apenas um gênero (afinal, até pelo infantil ele se aventurou), apesar de sempre ter aquele toque de exagero surpreendente com classe, que acabou se tornando sua marca.

No quesito violência, podemos dizer que, pelo menos no Ocidente, esse exagero foi fundamental para formar sua legião de fãs, entre eles, nomes bem conhecidos como Quentin Tarantino, Benicio Del Toro, Eli Roth, e todo o resto do Splat Pack.

Como todos sabem, esses cineastas são bem unidos, e sempre acabam firmando uma amizade entre si, trocando idéias e formando parcerias. Pra quem não lembra, Takashi Miike fez uma participação relâmpago em O ALBERGUE (HOSTEL, 2005), escrito e dirigido por Eli Roth e apadrinhado por Tarantino.

Em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, percebemos uma grande influência dessas parcerias. Sim, é um bom filme, e Takashi Miike fez um grande trabalho em vários aspectos, mas acabou tornando-se um dos seus filmes com a linguagem mais pop, e em alguns momentos tentando se forçar a parecer cult. Notam-se também um ou outro diálogo um pouco longo e insólito demais, que parece soar mais como algo escrito por Tarantino, que inclusive participa do filme.

Bom, mas vamos à história, SUKIYAKI WESTERN DJANGO é um trocadilho com os filmes de faroeste italianos (Spaghetti Western), junto com o nome do famoso personagem Django, inclusive utilizando a mesma música do filme (composta por Luis Enríquez Bacalov, letra por Franco Migliacci), só que em uma versão cantada em japonês.

Após uma breve introdução (com a atuação de Tarantino), começa a história do pistoleiro solitário e sem nome (Hideaki Ito), que chega em um vilarejo dominado por duas gangues rivais, os Brancos e os Vermelhos. Após uma breve demonstração de suas habilidades, os dois grupos se interessam por ter o pistoleiro do seu lado, porém, após ouvir da senhora Ruriko (Kaori Momoi) a história de como o vilarejo foi tomado e como famílias foram destruídas, o solitário viajante decide ao mesmo tempo satisfazer seus interesses, e libertar o vilarejo do domínio das duas gangues.  Isso tudo usando principalmente de inteligência e astúcia.

Takashi Miike cria um western bem peculiar, com um clima épico, que engrena a partir da sua segunda metade que é mais dinâmica, e consegue mesclar momentos de drama, violência, ação e comédia. Aliás, não deixa de ser hilário alguns atores pronunciando suas falas com um sotaque extremamente canastrão, já que são atores japoneses, e o filme é todo falado em inglês.

O clima é bem menos sério que em westerns convencionais, além disso, tanto atuações, quanto figurino (e certas vezes cenário) são levados mais para o lado teatral. A verossimilhança não é o forte do filme, e pela maneira como o diretor o conduz, ele acertadamente deixa claro que nem deveria ser. Apesar disso, muitas vezes ficamos com a impressão de que, certas coisas que acontecem, não tem outra razão de ser, além de parecer “cool”.

O elenco é ótimo, Hideaki Ito já atuou em 30 filmes, entre eles, ONMYOJI partes  1 e 2. Yusuke Iseya, o líder dos brancos, foi o protagonista em CASSHERN (de Kazuaki Kiriya, 2004), e foi o primeiro cego no filme ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Fernando Meirelles, de 2008). Masanobu Ando de BATTLE ROYALE (de Kinji Fukasaku, 2000) também faz uma participação pequena, mas importante na história. Mas o grande destaque fica por parte da multipremiada atriz veterana Kaori Momoi (sim, ela rouba a cena do filme), que atuou em mais de 70 filmes, entre eles IZO (também de Takashi Miike, 2004), MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (de Rob Marshall, 2005) e KAGEMUSHA, A SOMBRA DE UM SAMURAI (de Akira Kurosawa, 1980).

Apesar de um ou outro momento incomodar um pouco, gostei do filme. Mas a influência externa é clara, e não estou falando apenas dos diretores citados anteriormente. A história do viajante sem nome não é novidade, e apesar de nesse filme o revólver e a espada dividirem o status de arma principal, no passado elas se apresentaram separadamente em duas outras grandes produções.

YOJIMBO (Akira Kurosawa – 1961)

Nesse filme, o viajante sem nome (sim, sem nome, porque fica claro no filme que o nome com que ele se apresenta foi inventado na hora) é um ronin, um samurai errante, interpretado pelo lendário ator Toshiro Mifune. Sua filmografia é extensa e invejável; só para citar dois exemplos, atuou em OS SETE SAMURAIS (1954), e TRONO MANCHADO DE SANGUE (1957), ambos também de Kurosawa.

Apesar de se passar no Japão feudal do século 19, Kurosawa consegue criar no filme (propositalmente), um clima Western inspirado nos filmes de John Ford, e consegue mostrar a burguesia da época de forma bem satírica, contrastando com a situação desesperadora das classes mais baixas.

Mas o grande destaque da direção está no posicionamento das câmeras. Kurosawa e o diretor de fotografia Kazuo Miyagawa conseguem criar enquadramentos belos e eficientes, conseguindo mostrar tudo que precisava ser visto na cena de uma vez, sem se tornar confuso. Todas essas qualidades, aliadas ao figurino (que concorreu ao Oscar) e à trilha sonora composta por Masaru Sato, transformam esse filme num grande clássico.

No final, discípulo se torna mestre, e Yojimbo acaba por mudar o estilo de se fazer Western, como comprova sua refilmagem feita por Sergio Leone. Vale lembrar que assim como SUKIYAKI, essa refilmagem também não é oficial.

A FISTFUL OF DOLLARS (Sergio Leone – 1964)

Provavelmente o mais famoso entre os três, possui novamente um protagonista marcante, interpretado por Clint Eastwood em seu auge no gênero.

Além da grande atuação do ator, como um pistoleiro mal encarado, inteligente e de olhar assustador (não mexam com sua mula), outra característica marcante da produção é a música composta pelo gênio Ennio Morricone, responsável por incontáveis trilhas sonoras marcantes. Recebeu inclusive das mãos do próprio Clint, um Oscar honorário em 2007 pela importância do seu trabalho. Merecido, pois a introdução do filme (com uma música que iria se repetir em versões diferentes nas duas continuações posteriores do filme) é emocionante.

Com todos esses elementos, e com uma direção que sabe muito bem carregar na tensão, Sergio Leone populariza o gênero Spaghetti Western, muito mais dramático e humano do que o Western americano na época. O filme gerou mais duas continuações, POR UNS DÓLARES A MAIS (FOR A FEW DOLLARS MORE, 1965), e TRÊS HOMENS EM CONFLITO (THE GOOD, THE BAD, AND THE UGLY, 1966), formando a Trilogia dos Dólares, ou a Trilogia do Homem Sem Nome.

Apesar de a figura de Clint nesses filmes ser icônica, antes de lhe oferecer o papel, Sergio Leone já havia cotado Henry Fonda, e depois Charles Bronson, mas ambos recusaram o papel.

Muito mais parecido com YOJIMBO do que o filme de Miike, nessa produção conseguimos identificar facilmente os personagens do filme de Kurosawa em sua versão italiana. Interessante notarmos a ordem dos acontecimentos, uma mesma história que começou no Japão e foi até a Itália, volta ao Japão de um modo totalmente diferente, sem contar que, de alguma forma, todas essas produções foram influenciadas também pelos Estados Unidos. Sendo assim, acho interessante que os três filmes sejam assistidos, pois além de serem ótimos isoladamente, todos tem seu próprio estilo de contarem praticamente a mesma história.

Escrito por Renato Batarce.

 

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