Mostra “20 Anos de Takashi Miike”, de 17/08 a 28/08

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Começa hoje na cidade de São Paulo a mostra “20 Anos de Takashi Miike”, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a exibição de 20 obras do cineasta.

Oportunidade perfeita para quem deseja ver ou rever os filmes deste excelente diretor em cópias de 35mm (com exceção do média metragem IMPRINT, que será exibido em Beta Digital), a preços módicos.

Acessem o site da mostra e vejam a programação, não percam esta oportunidade de conferir os delírios visuais de Miike com a melhor imagem possível! Veja o site da mostra AQUI.

OBS: Dia 27 de Agosto ocorrerá a pré-estréia nacional do mais novo filme do cineasta, ICHIMEI, com exibição em 3D no Cinemark do Shopping Metrô Santa Cruz (somente esta sessão terá cobrança de ingresso convencional com a tabela de preços do local). Após a sessão, ocorrerá uma vídeo conferência via Skype com Miike.

STREET TRASH (J. Michael Muro – 1987)

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Mais uma resenha do Batata, que ficou meio cabreiro depois de assistir à um certo blockbusterzinho aí…

Parece uma contradição, mas mesmo amando cinema, está cada vez mais difícil eu conseguir me animar para sair de casa e assistir algo na tela grande. Afinal, onde estão os argumentos originais? Ás vezes parece que tudo que sai é adaptação de alguma outra mídia, uma sequência, uma refilmagem, ou uma desculpa para mostrar grandes efeitos digitais em 3D, quando não tudo isso misturado. Sim, ainda existem filmes bons, mas pra falar a verdade, nos raros momentos em que vou a alguma grande sala assistir um lançamento e acabo dizendo “olha, esse filme é bom”, no fundo eu estou pensando “é bom, pra um filme de grande estúdio”.

Felizmente, com a internet e com o relançamento de títulos em DVD, acabo descobrindo várias pérolas do passado. Muitas pessoas se empolgam muito com notícias do tipo “já vai sair o próximo filme do Harry Potter, que eu já li várias vezes e já sei o final de cor e salteado então vou reconhecer tudo que está na tela”. Vi uma vez um vídeo no YouTube, onde uma garota se empolgava muito vendo o trailer de ECLIPSE, e falava coisas do tipo “nem acredito em quantas pessoas eu reconheci só vendo o trailer”, ou algo assim.

Não posso dizer que sou contra adaptações, até gosto bastante das bem feitas, mas eu prefiro muito mais os argumentos absurdos, que ás vezes parecem até mentira de tão bizarros. Minha fé na criatividade humana chega ao limite quando ouço coisas do tipo “É um filme sobre Jesus matando vampiros assassinos de lésbicas com a ajuda de um lutador mexicano”, ou “É sobre Bruce Lee no inferno lutando contra James Bond, Popeye e um cara imitando Clint Eastwood”, e até mesmo “Elvis e um Kennedy negro estão num asilo e enfrentam uma múmia que suga a alma dos velhinhos pelo cu”! Deviam colocar isso em letras garrafais nos cartazes.

No caso dessa pérola de 1987, me passaram a idéia através da frase “É um filme sobre uma bebida que derrete mendigos”. Corri atrás e me surpreendi por ser muito melhor do que eu esperava.

O argumento é o seguinte, o dono de uma loja de bebidas encontra uma caixa esquecida em sua loja, de muitos anos, com várias garrafinhas de uma bebida chamada Viper. Como não sabia o que fazer com ela, pôs à venda em sua loja por $ 01,00 cada. Por esse preço, se tornou popular entre os mendigos (que nem assim deixavam de afanar uma garrafa ou outra). O problema é que quem bebe da Viper, explode ou derrete instantaneamente, se tornando uma meleca ácida.

Apesar desse argumento já ser legal demais, você acaba se esquecendo dele em boa parte do filme. Isso acontece porque todas as outras subtramas acabam prendendo a atenção, e as ações dos moradores de rua (bom, no caso, de ferro-velho) e suas personalidades acabam roubando a cena.

Existem personagens memoráveis no filme todo, além do mendigo principal e seu irmão mais novo, tem também o veterano de guerra psicopata, a mendiga doida pra se sentir desejada, o experiente que manja de roubar supermercados, e muitos loucos sujos e tarados.

Além deles, também se destacam o dono do ferro-velho, o dono da loja de bebidas, o policial que tenta entender as mortes misteriosas que acontecem por conta da Viper, o mafioso e seu empregado adolescente.

Mesmo com a bebida derretedora, muito do gore do filme é causado pelos próprios mendigos. Extremamente violentos, espancam, mutilam e matam, muitas vezes sem motivo algum, principalmente o veterano de guerra que se autoproclama líder.

J. Michael Muro dirigiu apenas esse filme, e alguns episódios do seriado Southland. Sua principal ocupação mesmo é na parte técnica, como por exemplo, sendo operador de câmera ou diretor de fotografia. A lista de filmes em que ele participa é imensa, basta consultar no IMDB para ver, pois é quase impossível citar apenas alguns destaques.  Mike Lacey, que interpreta o mendigo Fred, é também o responsável pelos efeitos de maquiagem do filme. Além desse filme, ele também fez os efeitos de I WAS A TEENAGE ZOMBIE, também de 1987.

Existe em DVD a versão STREET TRASH: SPECIAL TWO DISC MELTDOWN EDITION, com vários extras, incluindo um documentário de 02 horas chamado THE MELTDOWN MEMOIRS, e o curta em 16mm que deu origem ao longa, que também se chama STREET TRASH. Aliás, na capa deste DVD está escrito “ERASERHEAD encontra NIGHT OF THE LIVING DEAD no set de TEXAS CHAINSAW MASSACRE”; ignorem essa merda, quem escreveu isso não viu o filme.

OBS: Grande parte do começo do texto veio à minha mente quando percebi que, logo depois de assistir SUCKER PUNCH, fiquei com muita vontade de rever PINK FLAMINGOS.

Escrito por Renato Batarce.

I DRINK YOUR BLOOD (David E. Durston – 1970)

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Mais uma pedrada que o Batata coloca aqui no blog! A década de 70 foi realmente uma maravilha!

I DRINK YOUR BLOOD é um horror exploitation daqueles que nos deixa felizes pelos anos 70 terem existido. Sangue, satanismo, sexo, drogas, sadismo, tudo bem explícito e da maneira mais chocante que os responsáveis conseguiram exibir na época.

Sem piadinhas ou humor negro, I DRINK YOUR BLOOD foi planejado pra chocar e incomodar, principalmente na época em que foi feito, com temas que incomodavam muitos americanos.

Lançado em 1970, o filme mostra uma caravana de hippies satanistas, cujo líder se autoproclamava filho do Demo. Eles chegam nas proximidades da pequena cidade de Valley Hills, com apenas 40 habitantes e, durante um de seus cultos, são observados por uma garota local. Quando se dão conta da presença da menina, ela é perseguida, espancada e violentada (apesar de não falarem diretamente em estupro, fica claro que foi isso que ocorreu).

Quando o grupo chega à cidade, ocupam uma das muitas casas abandonadas. Em uma cidade quase abandonada, claro que um grupo de pessoas de fora chama atenção, principalmente por seu comportamento incomum. O avô da garota atacada vai tirar satisfações com o bando, e os encontra torturando um de seus membros. O velho é subjugado e dopado com LSD, e seu neto de 10 anos observa tudo.

O filme já prende a atenção desde o começo, mas a partir desse ponto que ele realmente começa. Decidido a se vingar, o garoto injeta sangue de um cão raivoso que ele matou em tortas de carne da padaria local. Ele vende as tortas para o grupo de hippies, e começa uma epidemia incontrolável.

Não são zumbis, são pessoas com o vírus da raiva. Nervos descontrolados, ataques de violência, boca espumante e hidrofobia. Essa doença age de formas e intensidades distintas em cada um do grupo. A raiva é praticamente incurável, com um pequeno número de casos resolvidos. O infectado se torna cada vez mais hostil, mas está consciente de todo o processo. Ao aparecer a hidrofobia, medo intenso de líquidos (e uma das principais armas contra os infectados no filme), a morte é praticamente certa. A raiva mata em cerca de 04 dias.

Claro que o filme tenta explorar a doença da forma mais exagerada possível. Mas é uma ótima desculpa para jogar de forma intensa na tela variadas formas de violência e sadismo. A música que é repetida em vários momentos do filme contribui também para o clima perturbador e enlouquecedor.

O filme foi dirigido por David Edward Durston, e foi seu filme de maior expressão. Ele também atua no filme em participação não creditada, como Dr. Oakes. Não conheço praticamente nenhum trabalho do resto do elenco, mas o grande destaque vai para o líder hippie satanista Horace Bones, interpretado pelo ator indiano Bhaskar Roy Chowdhury, que faleceu em agosto de 2003.

I DRINK YOUR BLOOD se tornou um sucesso em sessões Grindhouse, principalmente ao lado do filme I EAT YOUR SKIN (do diretor Del Tenney), filme de 1964 lançado apenas em 1970. O distribuidor Jerry Gross juntou os dois filmes e deu o nome de I EAT YOUR SKIN ao segundo, que originalmente se chamava apenas ZOMBIES, e também já chegou a ter títulos como ZOMBIE BLOODBATH e VOODOO BLOOD BATH.

I DRINK YOUR BLOOD é um filme para aqueles que gostam da boa e velha ultraviolência dos anos 70, aquela violência que não é apenas tripas e gore (apesar de ter muito disso também), mas é algo feito pra incomodar e mostrar o tanto que o cinema pode ser cruel e divertido.

OBS: apesar de o trailer abaixo citar I EAT YOUR SKIN, ele contém apenas cenas de I DRINK YOUR BLOOD.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

FULL METAL YAKUZA (Takashi Miike – 1997)

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Voltamos a postar no blog, infelizmente nos encontramos no último dia do mês, e não conseguimos levar à frente a homenagem à Takashi Miike da forma como idealizamos, simplesmente não tivemos tempo para nos dedicar às resenhas, e ficamos devendo nossa opinião em uma porção de filmes. Fechamos então estes dois meses de postagens com apenas 08 resenhas novas sobre as obras do cineasta. Porém, como já foi citado anteriormente, há um forte boato de que teremos aqui em São Paulo uma mostra dedicada ao mestre, provavelmente em Setembro, e nesta ocasião falaremos mais sobre seus filmes.

Seguimos então com dois posts do Batata, sobre os filmes FULL METAL YAKUZA e CROWS ZERO, e um de minha autoria, sobre DEADLY OUTLAW REKKA. Confiram:

Se em ZEBRAMAN Takashi Miike fez uma comédia utilizando tokusatsus e um fã bitolado, em FULL METAL YAKUZA ele cria o perfeito tokusatsu para adultos.

FULL METAL YAKUZA mostra a história de Kensuke Hagane (Tsuyoshi Ujiki), um aspirante à Yakuza que não se mostra um capanga muito bom. Ele tem grande admiração por Tosa (Takeshi Caesar), um dos chefes da gangue. Tosa é preso por matar um chefe rival, e após sua saída da prisão, é morto por seus companheiros junto com Kensuke.

Mas de repente, Kensuke acorda no laboratório do cientista Genpaku Hiraga (Tomorowo Taguchi), que fundiu seu corpo ao de Tosa, complementando com partes cibernéticas. Kensuke agora é um ciborgue superpoderoso e quer buscar vingança contra seus antigos companheiros, apesar dos desejos de seu salvador, que queria que Kensuke se tornasse um super-herói defensor da justiça.

O filme é sensacional, feito com baixo orçamento, muito sangue, crueldade, depravação, e cenas de tortura com mulheres, que, apesar de não serem tão extremas quanto em IMPRINT, tinham um clima que chegava a me lembrar alguns momentos mais sádicos de BODYGUARD KIBA. Além disso, tanto os efeitos especiais quanto o corpo ciborgue de Kensuke são os grandes responsáveis pelo charme tokusatsu do filme, que citei anteriormente.

Apesar de tudo isso, o clima ainda tem momentos muito engraçados, como por exemplo o treinamento de Kensuke em seu novo corpo ciborgue, a maneira curiosa de ele se alimentar, e todas as piadas envolvendo o “instrumento” que ele herdou de Tosa.

O filme foi originalmente concebido para o mercado de V-Cinema, que é o nome dado às produções japonesas que são lançadas direto em vídeo; mas por sua história bizarra, e pela reputação crescente do diretor Takashi Miike, FULL METAL YAKUZA foi ganhando cada vez mais renome.

O ator Tsuyoshi Ujiki participou também dos filmes CURE, também de 1997, ROBOKON de 2003, e participou do seriado SUZURAN. Takeshi Caesar atuou em KAMIKASE TAXI de 1995 e FUDOH de Takashi Miike em 1996. Mas o ator mais clássico do elenco com certeza é Tomorowo Taguchi; só pra citar alguns filmes que ele participou: GUINEA PIG 5 – ANDROID OF NOTRE DAME, TETSUO 1 e 2, BULLET BALLET, TOKYO FIST (sendo os quatro últimos dirigidos por Shinya Tsukamoto), KAMIKASE TAXI, GAMERA 2, KAMEN RIDER – THE NEXT, GANTZ, DEAD OR ALIVE 1 e 2, e ANDROMEDIA, sendo os três últimos de Takashi Miike.

FULL METAL YAKUZA já pode ser considerado um clássico da filmografia de Miike, e contém todos os elementos que podem ser considerados marcas registradas do diretor: yakuzas, sangueira, humor negro, bizarrices e torturas.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

IZO (Takashi Miike – 2004)

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Para os leitores do blog e fãs de Takashi Miike, segue um texto do Batata sobre um dos mais densos e impressionantes filmes do mestre, o belo e sanguinário IZO:

IZO é uma experiência cinematográfica totalmente surreal e experimental.

O protagonista é baseado no personagem histórico real Okada Izo, um samurai assassino do período do Bakumatsu. Já apareceu em várias outras obras de diferentes mídias, como por exemplo, o assassino Udo Jun-ei do mangá Rurouni Kenshin foi baseado em Okada Izo.

A história do filme começa com a morte de Izo. Ele é crucificado (no primeiro de vários simbolismos religiosos) após anos de assassinato sob as ordens de um senhor feudal. Como toda a vida de Izo foi baseada em morte e violência extrema, seu espírito não consegue entrar nem no inferno, nem tampouco no céu, então começa a vagar e matar quem estiver no seu caminho, perturbando a ordem da existência.

Enquanto Izo prossegue seu caminho de matança, existe um grupo de pessoas que sabe de cada um de seus passos e se preocupa com os danos que o espírito vem causando. Esse grupo é divido entre sacerdotes (Religião), e políticos (Estado). Durante toda a história, as pessoas têm seguido as regras ditadas por essas duas instituições e sido governadas por elas, por isso que, independente da época que Izo se encontra, eles sempre estão sabendo de suas ações, já que o poder deles é atemporal. O filme reflete sobre o poder exercido sobre o indíviduo, como por exemplo, na frase dita por crianças na escola: “nação é um delírio maléfico só existente nas mentes humanas; uma noção imaginária de falsidade que existe apenas para controlar e governar pessoas que instintivamente se aglomeram em bandos.”

Izo é a representação da violência e da marginalização, por isso não segue nenhuma das regras políticas, religiosas ou morais. Sendo assim, não importa se são sacerdotes, polícia, gangues, assassinos, inocentes ou crianças, todos são abatidos sem piedade. Como espírito, Izo é aquilo que se tornou e nada mais, é a representação de tudo que conheceu em suas experiências em vida. Izo é o espírito do caos, contra qualquer tipo de ordem. Seu caminho é nada mais nada menos que violência cíclica e sem fim, mas em determinado momento ele se opõe até mesmo a isso, se negando a aceitar seu carma.

Os atos de crueldade de um indivíduo causam grandes deformações ao espírito, então quanto mais destruição é causada por Izo, mais seu corpo se modifica, até que ele se transforma em uma figura praticamente demoníaca.

Cada cena possui reflexões próprias, com frases existencialistas, filosóficas, políticas e poéticas muito inspiradas, ditas pelos diversos personagens. Além dos adversários, um espírito feminino acompanha Izo em parte de sua jornada, mas quem causa mais impacto é o homem com violão que de repente surge em muitas cenas, cantando poesias belíssimas, cheias de sentimento, metendo a mão no instrumento. Miike valoriza essas performances do músico Kazuki Tomokawa (também conhecido como “O Filósofo Gritante”), reservando para ele momentos algumas vezes bem longos até, para que o mesmo se expresse, aumentando o impacto emocional do filme.

Além do músico, o elenco de Izo ainda conta com o artista plástico Kazuya Nakayama como o personagem título, Kaori Momoi (de SUKIYAKI WESTERN DJANGO), o sensacional Takeshi Kitano (ZATOICHI, BATTLE ROYALE 1 e 2 e JHONNY MNEMONIC, só pra citar alguns), e a participação especial do lutador Bob Sapp (tomando um coro, como sempre).

Takashi Miike produz um filme pesado, de difícil absorção ao grande público devido à sua trama sem linearidade, e matança atrás de matança em seus 128 minutos. O diretor mostra grande habilidade ao conduzir essa trama de forma ágil, mesclando também várias imagens de arquivo sobre violência e guerra durante a história. Como uma trama surreal, o principal não é encontrar sentido, mas deixar-se levar pelos pensamentos e sentimentos que as frases, sons e imagens causam a cada um.

Diz a lenda, que esse projeto surgiu da frustração de Miike perante a baixa aceitação de Gozu por público e crítica. Sendo isso verdade ou não, esse filme é praticamente uma poesia em movimento, e deve ser visto por quem acha que Takashi Miike não passa de um diretor maluco que apenas produz filmes de ultraviolência estilizada (como Robert Rodriguez). Mesmo grandes fãs do diretor podem se surpreender, eu me surpreendi.

Escrito por Renato Batarce.

SUKIYAKI WESTERN DJANGO (Takashi Miike – 2007)

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Para dar o chute inicial no “Mês Takashi Miike” aqui no blog, o Batata escreveu sobre SUKIYAKI WESTERN DJANGO, um western bem diferente, feito pelo diretor em 2007, traçando um paralelo com outras duas obras, verdadeiros clássicos do cinema:

Quer gostem ou não, Takashi Miike é um ícone cult. Apesar de alguns o considerarem um diretor de filmes de Yakuza, outros um diretor de cinema de horror, quem conhece melhor sua obra sabe que é impossível defini-lo em apenas um gênero (afinal, até pelo infantil ele se aventurou), apesar de sempre ter aquele toque de exagero surpreendente com classe, que acabou se tornando sua marca.

No quesito violência, podemos dizer que, pelo menos no Ocidente, esse exagero foi fundamental para formar sua legião de fãs, entre eles, nomes bem conhecidos como Quentin Tarantino, Benicio Del Toro, Eli Roth, e todo o resto do Splat Pack.

Como todos sabem, esses cineastas são bem unidos, e sempre acabam firmando uma amizade entre si, trocando idéias e formando parcerias. Pra quem não lembra, Takashi Miike fez uma participação relâmpago em O ALBERGUE (HOSTEL, 2005), escrito e dirigido por Eli Roth e apadrinhado por Tarantino.

Em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, percebemos uma grande influência dessas parcerias. Sim, é um bom filme, e Takashi Miike fez um grande trabalho em vários aspectos, mas acabou tornando-se um dos seus filmes com a linguagem mais pop, e em alguns momentos tentando se forçar a parecer cult. Notam-se também um ou outro diálogo um pouco longo e insólito demais, que parece soar mais como algo escrito por Tarantino, que inclusive participa do filme.

Bom, mas vamos à história, SUKIYAKI WESTERN DJANGO é um trocadilho com os filmes de faroeste italianos (Spaghetti Western), junto com o nome do famoso personagem Django, inclusive utilizando a mesma música do filme (composta por Luis Enríquez Bacalov, letra por Franco Migliacci), só que em uma versão cantada em japonês.

Após uma breve introdução (com a atuação de Tarantino), começa a história do pistoleiro solitário e sem nome (Hideaki Ito), que chega em um vilarejo dominado por duas gangues rivais, os Brancos e os Vermelhos. Após uma breve demonstração de suas habilidades, os dois grupos se interessam por ter o pistoleiro do seu lado, porém, após ouvir da senhora Ruriko (Kaori Momoi) a história de como o vilarejo foi tomado e como famílias foram destruídas, o solitário viajante decide ao mesmo tempo satisfazer seus interesses, e libertar o vilarejo do domínio das duas gangues.  Isso tudo usando principalmente de inteligência e astúcia.

Takashi Miike cria um western bem peculiar, com um clima épico, que engrena a partir da sua segunda metade que é mais dinâmica, e consegue mesclar momentos de drama, violência, ação e comédia. Aliás, não deixa de ser hilário alguns atores pronunciando suas falas com um sotaque extremamente canastrão, já que são atores japoneses, e o filme é todo falado em inglês.

O clima é bem menos sério que em westerns convencionais, além disso, tanto atuações, quanto figurino (e certas vezes cenário) são levados mais para o lado teatral. A verossimilhança não é o forte do filme, e pela maneira como o diretor o conduz, ele acertadamente deixa claro que nem deveria ser. Apesar disso, muitas vezes ficamos com a impressão de que, certas coisas que acontecem, não tem outra razão de ser, além de parecer “cool”.

O elenco é ótimo, Hideaki Ito já atuou em 30 filmes, entre eles, ONMYOJI partes  1 e 2. Yusuke Iseya, o líder dos brancos, foi o protagonista em CASSHERN (de Kazuaki Kiriya, 2004), e foi o primeiro cego no filme ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Fernando Meirelles, de 2008). Masanobu Ando de BATTLE ROYALE (de Kinji Fukasaku, 2000) também faz uma participação pequena, mas importante na história. Mas o grande destaque fica por parte da multipremiada atriz veterana Kaori Momoi (sim, ela rouba a cena do filme), que atuou em mais de 70 filmes, entre eles IZO (também de Takashi Miike, 2004), MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (de Rob Marshall, 2005) e KAGEMUSHA, A SOMBRA DE UM SAMURAI (de Akira Kurosawa, 1980).

Apesar de um ou outro momento incomodar um pouco, gostei do filme. Mas a influência externa é clara, e não estou falando apenas dos diretores citados anteriormente. A história do viajante sem nome não é novidade, e apesar de nesse filme o revólver e a espada dividirem o status de arma principal, no passado elas se apresentaram separadamente em duas outras grandes produções.

YOJIMBO (Akira Kurosawa – 1961)

Nesse filme, o viajante sem nome (sim, sem nome, porque fica claro no filme que o nome com que ele se apresenta foi inventado na hora) é um ronin, um samurai errante, interpretado pelo lendário ator Toshiro Mifune. Sua filmografia é extensa e invejável; só para citar dois exemplos, atuou em OS SETE SAMURAIS (1954), e TRONO MANCHADO DE SANGUE (1957), ambos também de Kurosawa.

Apesar de se passar no Japão feudal do século 19, Kurosawa consegue criar no filme (propositalmente), um clima Western inspirado nos filmes de John Ford, e consegue mostrar a burguesia da época de forma bem satírica, contrastando com a situação desesperadora das classes mais baixas.

Mas o grande destaque da direção está no posicionamento das câmeras. Kurosawa e o diretor de fotografia Kazuo Miyagawa conseguem criar enquadramentos belos e eficientes, conseguindo mostrar tudo que precisava ser visto na cena de uma vez, sem se tornar confuso. Todas essas qualidades, aliadas ao figurino (que concorreu ao Oscar) e à trilha sonora composta por Masaru Sato, transformam esse filme num grande clássico.

No final, discípulo se torna mestre, e Yojimbo acaba por mudar o estilo de se fazer Western, como comprova sua refilmagem feita por Sergio Leone. Vale lembrar que assim como SUKIYAKI, essa refilmagem também não é oficial.

A FISTFUL OF DOLLARS (Sergio Leone – 1964)

Provavelmente o mais famoso entre os três, possui novamente um protagonista marcante, interpretado por Clint Eastwood em seu auge no gênero.

Além da grande atuação do ator, como um pistoleiro mal encarado, inteligente e de olhar assustador (não mexam com sua mula), outra característica marcante da produção é a música composta pelo gênio Ennio Morricone, responsável por incontáveis trilhas sonoras marcantes. Recebeu inclusive das mãos do próprio Clint, um Oscar honorário em 2007 pela importância do seu trabalho. Merecido, pois a introdução do filme (com uma música que iria se repetir em versões diferentes nas duas continuações posteriores do filme) é emocionante.

Com todos esses elementos, e com uma direção que sabe muito bem carregar na tensão, Sergio Leone populariza o gênero Spaghetti Western, muito mais dramático e humano do que o Western americano na época. O filme gerou mais duas continuações, POR UNS DÓLARES A MAIS (FOR A FEW DOLLARS MORE, 1965), e TRÊS HOMENS EM CONFLITO (THE GOOD, THE BAD, AND THE UGLY, 1966), formando a Trilogia dos Dólares, ou a Trilogia do Homem Sem Nome.

Apesar de a figura de Clint nesses filmes ser icônica, antes de lhe oferecer o papel, Sergio Leone já havia cotado Henry Fonda, e depois Charles Bronson, mas ambos recusaram o papel.

Muito mais parecido com YOJIMBO do que o filme de Miike, nessa produção conseguimos identificar facilmente os personagens do filme de Kurosawa em sua versão italiana. Interessante notarmos a ordem dos acontecimentos, uma mesma história que começou no Japão e foi até a Itália, volta ao Japão de um modo totalmente diferente, sem contar que, de alguma forma, todas essas produções foram influenciadas também pelos Estados Unidos. Sendo assim, acho interessante que os três filmes sejam assistidos, pois além de serem ótimos isoladamente, todos tem seu próprio estilo de contarem praticamente a mesma história.

Escrito por Renato Batarce.

 

Mostra “Mojica 24 horas – Zé do Caixão”, Virada Cultural 2011

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O grande mestre do horror nacional, José Mojica Marins, será homenageado na Virada Cultural 2011 (que acontece em São Paulo nos dias 16 e 17/04), com a exibição ininterrupta de algumas de suas principais obras ao longo de 24 horas no Cine Windsor, situado na Av. Ipiranga, 9740.

É uma boa oportunidade de ver na telona a trilogia formada por À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER e finalizada por sua produção mais recente, ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Além da trilogia, serão exibidos 03 curtas na primeira sessão (ainda não obtive informação de quais serão as obras, quando confirmar adicionarei ao post), assim como os clássicos absolutos O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS), O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO e DELÍRIOS DE UM ANORMAL.

Serão exibidas 14 obras no total, e além dos trabalhos realizados pelo diretor, haverá a exibição de O PROFETA DA FOME, dirigido por Maurice Capovilla e protagonizado por Mojica, no qual ele vive o papel de Ali Khan, personagem inspirado no faquir Silk, seu amigo na vida real e A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, que apesar de ter sido dirigido por Mojica, foi inicialmente creditado a Marcelo Motta, um de seus alunos na escola de cinema e interpretação, como forma de tentar alavancar a carreira cinematográfica de seu discípulo, segundo o próprio.

Claramente, a mostra não se limita a exibir filmes somente com o personagem do coveiro Zé do Caixão, mas como já ocorreu tantas outras vezes, o nome da criação mais famosa de José Mojica Marins foi usado para garantir a presença do público, que por vezes confunde criatura com criador, evidenciando a força deste mítico personagem que já faz parte da cultura popular brasileira.

Meu primeiro encontro com o Mestre!

Segue a programação da mostra:

Mojica 24 Horas – Mostra Zé do Caixão:

18h – Sessão de curtas (03 Filmes)

20h – A SINA DO AVENTUREIRO

22h – O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS)

00h – À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA

02h – ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER

04h – O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO

06h – FINIS HOMINIS

08h – DELÍRIOS DE UM ANORMAL

10h – ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

14h – INFERNO CARNAL

16h – A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES

(16/04/2011: Os curtas que integram a primeira sessão são O UNIVERSO DE MOJICA MARINS, documentário de Ivan Cardoso filmado em 1978, A LASANHA ASSASSINA de Ale McHaddo, 2002 e PESADELO MACABRO, dirigido por Mojica em 1968, um dos episódios do longa TRILOGIA DE TERROR, que também conta com Ozualdo Candeias e Luís Sérgio Person na direção.)

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