Mostra “20 Anos de Takashi Miike”, de 17/08 a 28/08

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Começa hoje na cidade de São Paulo a mostra “20 Anos de Takashi Miike”, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a exibição de 20 obras do cineasta.

Oportunidade perfeita para quem deseja ver ou rever os filmes deste excelente diretor em cópias de 35mm (com exceção do média metragem IMPRINT, que será exibido em Beta Digital), a preços módicos.

Acessem o site da mostra e vejam a programação, não percam esta oportunidade de conferir os delírios visuais de Miike com a melhor imagem possível! Veja o site da mostra AQUI.

OBS: Dia 27 de Agosto ocorrerá a pré-estréia nacional do mais novo filme do cineasta, ICHIMEI, com exibição em 3D no Cinemark do Shopping Metrô Santa Cruz (somente esta sessão terá cobrança de ingresso convencional com a tabela de preços do local). Após a sessão, ocorrerá uma vídeo conferência via Skype com Miike.

MEET THE FEEBLES (Peter Jackson – 1989)

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Achei que esse mês seria de férias aqui no blog, mas o Batata insistiu para postar essa resenha feita por ele esses dias. Este filme é da época em que Peter Jackson ainda trabalhava com orçamento baixo, confiram:

Sexo, drogas, gore, nudez, humor negro: são todos ingredientes para mais um belo exemplar do bom e velho cinema exploitation. Mas não contente com isso, em 1989 Peter Jackson (BAD TASTE, BRAIN DEAD, OS ESPÍRITOS, trilogia SENHOR DOS ANÉIS) resolveu juntar esses singelos ingredientes num formato ainda mais bizarro: bonecos.

Sabem os Muppets? Aqueles fantoches criados por Jim Henson que ficaram mais conhecidos no Brasil por sua versão animada Muppet Babies? Então, os bonecos de Peter Jackson são exatamente nesse mesmo estilo, ora apenas fantoches, ora pessoas vestindo grandes fantasias. Agora imaginem versões dos Muppets fazendo tudo que foi citado no início do texto, e você terá MEET THE FEEBLES. Inclusive, aparentemente a idéia original de Jackson era fazer um documentário sobre os bastidores do show dos Muppets, mas após a rejeição, resolveu criar seu próprio projeto que se tornou este filme.

No filme, MEET THE FEEBLES é um espetáculo musical comandado por Bletch (uma grande morsa azul), que é casado com Heidi (uma hipopótamo), a estrela do show. Heidi porém sofre de depressão e não consegue parar de comer. Como resultado, ficou obesa e Bletch começa a traí-la com Samantha (gata), que sonha em ser a estrela do espetáculo. Além disso, Bletch também tem um negócio de tráfico de drogas correndo por fora.

Para se juntar ao show, chega Robert (porco-espinho), que é o típico personagem “certinho”, talvez o único do filme. Ele fica amigo do diretor de cena Arthur (minhoca) e se apaixona por Lucille (cadela).  Logo que Robert chega no teatro, é abordado por uma repórter sensacionalista (mosca), que está sempre á procura de histórias podres, que segundo ela mesma, são muito comuns por lá.

E isso é a mais pura verdade, vejam o caso de outros personagens: o elefante Sid está sofrendo um processo de paternidade aberto por um antigo caso seu, Sandy, a galinha; Harry, o coelho, está sofrendo de uma forte doença decorrente de suas constantes orgias com suas colegas de palco; Trevor, o rato, faz filmes sadomasoquistas no porão do teatro estrelando a vaca Daisy e o tamanduá tarado Denis; o diretor de palco é a raposa Sebastian, que sonha em apresentar novamente seu número, não importa o que a aconteça; o sapo Wyniard é atirador de facas e tornou-se viciado em drogas após lutar no Vietnã . Tudo isso acaba tornando-se uma grande bomba relógio que explode no final avassalador.

Este filme, junto com o anterior BAD TASTE (no Brasil, TRASH – NÁUSEA TOTAL) e o posterior BRAIN DEAD (no Brasil, FOME ANIMAL), são os maiores expoentes do humor negro de baixo orçamento de Peter Jackson. No caso de MEET THE FEEBLES, o filme custou 750 mil dólares, e ainda por cima tomando todas as precauções de segurança, já que o produtor avisa nos créditos que nenhum fantoche foi ferido ou morto após a produção do filme (eu sei, essa piada atualmente já é velha e clichê).  Claro que sempre tem um ou outro macete de economia; se olharem bem, na platéia cheia há apenas alguns bonecos, o resto são papelões recortados com rostos de animais.

Aliás, é possível relacionar estes três filmes através de certas referências de um em outro. Por exemplo, em MEET THE FEEBLES, quando o show começa, é possível notar que na platéia existe uma pessoa usando a máscara do alienígena comedor de carne humana de BAD TASTE; e pouco antes da cena do embalsamento da mãe do protagonista em BRAIN DEAD, do lado de fora da igreja, é possível escutar a música Sodomy, que em FEEBLES é cantada pela raposa Sebastian.

Apesar de muitos dos novos fãs de Peter Jackson não conhecerem muitos de seus trabalhos anteriores, o diretor acabou atiçando a curiosidade de alguns quando recebeu o Oscar de melhor filme por SENHOR DOS ANÉIS – O RETORNO DO REI em 2004, quando agradeceu á Academia por não ter lhe concedido o troféu por seu trabalho em BAD TASTE ou MEET THE FEEBLES. Apesar dessa brincadeira, eu continuo achando muito mais carismáticos os marionetes depravados do filme de 89, do que o tão ovacionado gorila digitalizado da sua refilmagem de KING KONG.

Escrito por Renato Batarce.

STREET TRASH (J. Michael Muro – 1987)

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Mais uma resenha do Batata, que ficou meio cabreiro depois de assistir à um certo blockbusterzinho aí…

Parece uma contradição, mas mesmo amando cinema, está cada vez mais difícil eu conseguir me animar para sair de casa e assistir algo na tela grande. Afinal, onde estão os argumentos originais? Ás vezes parece que tudo que sai é adaptação de alguma outra mídia, uma sequência, uma refilmagem, ou uma desculpa para mostrar grandes efeitos digitais em 3D, quando não tudo isso misturado. Sim, ainda existem filmes bons, mas pra falar a verdade, nos raros momentos em que vou a alguma grande sala assistir um lançamento e acabo dizendo “olha, esse filme é bom”, no fundo eu estou pensando “é bom, pra um filme de grande estúdio”.

Felizmente, com a internet e com o relançamento de títulos em DVD, acabo descobrindo várias pérolas do passado. Muitas pessoas se empolgam muito com notícias do tipo “já vai sair o próximo filme do Harry Potter, que eu já li várias vezes e já sei o final de cor e salteado então vou reconhecer tudo que está na tela”. Vi uma vez um vídeo no YouTube, onde uma garota se empolgava muito vendo o trailer de ECLIPSE, e falava coisas do tipo “nem acredito em quantas pessoas eu reconheci só vendo o trailer”, ou algo assim.

Não posso dizer que sou contra adaptações, até gosto bastante das bem feitas, mas eu prefiro muito mais os argumentos absurdos, que ás vezes parecem até mentira de tão bizarros. Minha fé na criatividade humana chega ao limite quando ouço coisas do tipo “É um filme sobre Jesus matando vampiros assassinos de lésbicas com a ajuda de um lutador mexicano”, ou “É sobre Bruce Lee no inferno lutando contra James Bond, Popeye e um cara imitando Clint Eastwood”, e até mesmo “Elvis e um Kennedy negro estão num asilo e enfrentam uma múmia que suga a alma dos velhinhos pelo cu”! Deviam colocar isso em letras garrafais nos cartazes.

No caso dessa pérola de 1987, me passaram a idéia através da frase “É um filme sobre uma bebida que derrete mendigos”. Corri atrás e me surpreendi por ser muito melhor do que eu esperava.

O argumento é o seguinte, o dono de uma loja de bebidas encontra uma caixa esquecida em sua loja, de muitos anos, com várias garrafinhas de uma bebida chamada Viper. Como não sabia o que fazer com ela, pôs à venda em sua loja por $ 01,00 cada. Por esse preço, se tornou popular entre os mendigos (que nem assim deixavam de afanar uma garrafa ou outra). O problema é que quem bebe da Viper, explode ou derrete instantaneamente, se tornando uma meleca ácida.

Apesar desse argumento já ser legal demais, você acaba se esquecendo dele em boa parte do filme. Isso acontece porque todas as outras subtramas acabam prendendo a atenção, e as ações dos moradores de rua (bom, no caso, de ferro-velho) e suas personalidades acabam roubando a cena.

Existem personagens memoráveis no filme todo, além do mendigo principal e seu irmão mais novo, tem também o veterano de guerra psicopata, a mendiga doida pra se sentir desejada, o experiente que manja de roubar supermercados, e muitos loucos sujos e tarados.

Além deles, também se destacam o dono do ferro-velho, o dono da loja de bebidas, o policial que tenta entender as mortes misteriosas que acontecem por conta da Viper, o mafioso e seu empregado adolescente.

Mesmo com a bebida derretedora, muito do gore do filme é causado pelos próprios mendigos. Extremamente violentos, espancam, mutilam e matam, muitas vezes sem motivo algum, principalmente o veterano de guerra que se autoproclama líder.

J. Michael Muro dirigiu apenas esse filme, e alguns episódios do seriado Southland. Sua principal ocupação mesmo é na parte técnica, como por exemplo, sendo operador de câmera ou diretor de fotografia. A lista de filmes em que ele participa é imensa, basta consultar no IMDB para ver, pois é quase impossível citar apenas alguns destaques.  Mike Lacey, que interpreta o mendigo Fred, é também o responsável pelos efeitos de maquiagem do filme. Além desse filme, ele também fez os efeitos de I WAS A TEENAGE ZOMBIE, também de 1987.

Existe em DVD a versão STREET TRASH: SPECIAL TWO DISC MELTDOWN EDITION, com vários extras, incluindo um documentário de 02 horas chamado THE MELTDOWN MEMOIRS, e o curta em 16mm que deu origem ao longa, que também se chama STREET TRASH. Aliás, na capa deste DVD está escrito “ERASERHEAD encontra NIGHT OF THE LIVING DEAD no set de TEXAS CHAINSAW MASSACRE”; ignorem essa merda, quem escreveu isso não viu o filme.

OBS: Grande parte do começo do texto veio à minha mente quando percebi que, logo depois de assistir SUCKER PUNCH, fiquei com muita vontade de rever PINK FLAMINGOS.

Escrito por Renato Batarce.

FULL METAL YAKUZA (Takashi Miike – 1997)

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Voltamos a postar no blog, infelizmente nos encontramos no último dia do mês, e não conseguimos levar à frente a homenagem à Takashi Miike da forma como idealizamos, simplesmente não tivemos tempo para nos dedicar às resenhas, e ficamos devendo nossa opinião em uma porção de filmes. Fechamos então estes dois meses de postagens com apenas 08 resenhas novas sobre as obras do cineasta. Porém, como já foi citado anteriormente, há um forte boato de que teremos aqui em São Paulo uma mostra dedicada ao mestre, provavelmente em Setembro, e nesta ocasião falaremos mais sobre seus filmes.

Seguimos então com dois posts do Batata, sobre os filmes FULL METAL YAKUZA e CROWS ZERO, e um de minha autoria, sobre DEADLY OUTLAW REKKA. Confiram:

Se em ZEBRAMAN Takashi Miike fez uma comédia utilizando tokusatsus e um fã bitolado, em FULL METAL YAKUZA ele cria o perfeito tokusatsu para adultos.

FULL METAL YAKUZA mostra a história de Kensuke Hagane (Tsuyoshi Ujiki), um aspirante à Yakuza que não se mostra um capanga muito bom. Ele tem grande admiração por Tosa (Takeshi Caesar), um dos chefes da gangue. Tosa é preso por matar um chefe rival, e após sua saída da prisão, é morto por seus companheiros junto com Kensuke.

Mas de repente, Kensuke acorda no laboratório do cientista Genpaku Hiraga (Tomorowo Taguchi), que fundiu seu corpo ao de Tosa, complementando com partes cibernéticas. Kensuke agora é um ciborgue superpoderoso e quer buscar vingança contra seus antigos companheiros, apesar dos desejos de seu salvador, que queria que Kensuke se tornasse um super-herói defensor da justiça.

O filme é sensacional, feito com baixo orçamento, muito sangue, crueldade, depravação, e cenas de tortura com mulheres, que, apesar de não serem tão extremas quanto em IMPRINT, tinham um clima que chegava a me lembrar alguns momentos mais sádicos de BODYGUARD KIBA. Além disso, tanto os efeitos especiais quanto o corpo ciborgue de Kensuke são os grandes responsáveis pelo charme tokusatsu do filme, que citei anteriormente.

Apesar de tudo isso, o clima ainda tem momentos muito engraçados, como por exemplo o treinamento de Kensuke em seu novo corpo ciborgue, a maneira curiosa de ele se alimentar, e todas as piadas envolvendo o “instrumento” que ele herdou de Tosa.

O filme foi originalmente concebido para o mercado de V-Cinema, que é o nome dado às produções japonesas que são lançadas direto em vídeo; mas por sua história bizarra, e pela reputação crescente do diretor Takashi Miike, FULL METAL YAKUZA foi ganhando cada vez mais renome.

O ator Tsuyoshi Ujiki participou também dos filmes CURE, também de 1997, ROBOKON de 2003, e participou do seriado SUZURAN. Takeshi Caesar atuou em KAMIKASE TAXI de 1995 e FUDOH de Takashi Miike em 1996. Mas o ator mais clássico do elenco com certeza é Tomorowo Taguchi; só pra citar alguns filmes que ele participou: GUINEA PIG 5 – ANDROID OF NOTRE DAME, TETSUO 1 e 2, BULLET BALLET, TOKYO FIST (sendo os quatro últimos dirigidos por Shinya Tsukamoto), KAMIKASE TAXI, GAMERA 2, KAMEN RIDER – THE NEXT, GANTZ, DEAD OR ALIVE 1 e 2, e ANDROMEDIA, sendo os três últimos de Takashi Miike.

FULL METAL YAKUZA já pode ser considerado um clássico da filmografia de Miike, e contém todos os elementos que podem ser considerados marcas registradas do diretor: yakuzas, sangueira, humor negro, bizarrices e torturas.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

Cinema de Bordas – 3ª edição

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Começa hoje a 3ª edição da mostra Cinema de Bordas no Itaú Cultural, uma ótima oportunidade para os cinéfilos paulistas prestigiarem o trabalho de realizadores independentes brasileiros. Este ano teremos a exibição de 18 obras, entre curtas e médias, contando tanto com filmes recentes quanto com alguns mais antigos.

Na noite de abertura da mostra será apresentada uma prévia de A NOITE DO CHUPACABRAS, o tão aguardado novo filme de Rodrigo Aragão, diretor do já clássico MANGUE NEGRO (apresentado na 1ª edição da mostra, em 2009) e os novos curtas de Joel Caetano e Coffin Souza, ESTRANHA e A PAIXÃO DOS MORTOS, respectivamente; este último estrelado pela nova musa do underground nacional, Gisele Ferran.

Serão exibidos também EXTREMA UNÇÃO, novo curta de Felipe M. Guerra, e o mais recente  filme de Petter Baiestorf , O DOCE AVANÇO DA FACA. Como já é de costume, haverá palestra com os curadores Bernadette Lyra, Gelson Santana e Laura Cánepa no primeiro dia do evento, e também bate-papos com alguns dos diretores ao longo da mostra.

Destaco também na seleção os filmes ROQUÍ – O BOXEADOR DA AMAZÔNIA, de Renato Dib, estrelando Aldenir Coti, mais conhecido como “Rambo da Amazônia”, astro da série de filmes RAMBÚ, e os mais antigos MUSEU DE CERA, de Pedro Daldegan e O LOBISOMEM DA PEDRA BRANCA, de José Denísio Pereira, ambos da década de 80, que parecem muito interessantes.

Enfim, diversão garantida para quem gosta de fugir do lugar comum e aprecia o ótimo cinema independente brasileiro.

O Itaú Cultural fica situado na Av. Paulista, 149 (próximo à estação Brigadeiro do metrô). Entrada franca. Vejam a programação completa AQUI.

ZEBRAMAN (Takashi Miike – 2004)

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Vocês se lembram das séries de super-heróis vindas do Japão que passavam na TV alguns anos atrás? Ultraman, Jaspion, Changeman, Flashman, Jiraiya e tantos outros… Pois é, quem está perto da casa dos 30 anos com certeza se lembra. Estas séries fizeram a alegria da molecada no final da década de 80 e início da de 90, tendo sido exibidas à exaustão pela extinta TV Manchete, e posteriormente espalhando-se por outras emissoras.  Estes seriados, e uma porção de filmes também, são conhecidos como Tokusatsu, nome criado a partir da junção das duas palavras do termo japonês “tokushu satsuei”, que significa algo como “filmes de efeitos especiais”.

O gênero Tokusatsu é muito popular no Japão, e embora os primórdios deste tipo de produção apontem para os filmes de monstros gigantes (Kaiju Eiga, ou Daikaiju Eiga), como Godzilla, Mothra e Gamera, destinados ao público adulto em geral, hoje em dia o termo é largamente utilizado para se referir apenas às séries de super-heróis exibidas semanalmente no Japão, direcionadas estritamente ao público infantil e infanto-juvenil. Como todo bom gênero cinematográfico ou televisivo, o Tokusatsu possui alguns subgêneros: o de esquadrões de heróis multicoloridos que possuem um robô gigante (Super Sentai), guerreiros com armaduras metálicas (Metal Heroes), heróis gigantes intergalácticos (Kyodai Heroes) e aqueles que “apenas” sofrem algum tipo de mutação ou metamorfose e caem na porrada com os mais diferentes tipos de malfeitores (Henshin Heroes). Este nicho se mostrou muito rentável, e as duas maiores produtoras japonesas deste tipo de seriado, a Toei Company e a Tsuburaya Productions, responsáveis pela criação das franquias Kamen Rider e Ultraman, respectivamente, conseguiram consolidar seus personagens e produtos na cultura pop do país ao longo dos últimos 45 anos, tornando-os verdadeiros ícones da produção audiovisual nipônica.

ZEBRAMAN, realizado por Takashi Miike em 2004, é uma homenagem ao gênero Tokusatsu, e de certa forma, uma bem humorada paródia.

Sho Aikawa (excelente ator, e protagonista de diversos filmes de Miike) é Shinichi Ichikawa, um professor de escola primária que leva uma vida patética: não é respeitado por sua família nem por seus alunos, e como forma de escapar da realidade, vive assistindo séries de tokusatsu na TV. Seu herói preferido é Zebraman, que estrelou uma série que acabou sendo cancelada após 13 episódios, quando Ichikawa era jovem.

Como se não bastasse, o professor possui um estranho hobby: confecciona roupas idênticas ao figurino do herói, e passa horas em seu quarto fantasiado, treinando golpes e reproduzindo falas e trejeitos de seu ídolo. Paralelamente, a polícia japonesa começa a investigar a possível presença de alienígenas na terra, e tem também que se preocupar com uma onda de ataques a mulheres, efetuados por um louco que usa um capacete em formato de caranguejo (?).

Em meio a esse bizarro cenário, um aluno novo é transferido para a escola onde Ichikawa leciona, e após descobrir que o garoto conhece Zebraman através dos relatos de seu falecido pai, um vínculo forte começa a se formar entre os dois. Ichikawa também se aproxima da mãe de Asano, o novo aluno, e começa a sentir uma certa atração por ela.

Cada vez mais absorto em seu mundo imaginário, e contagiado pela empolgação do pequeno Asano que idolatra Zebraman, Ichikawa começa a sair na rua trajando sua fantasia, e é justamente em um desses passeios noturnos que ele se encontra com o maníaco que anda atacando mulheres na cidade. Como todo bom herói, o protagonista impede que mais um crime aconteça, mas um confronto entre os dois é inevitável. E é a partir daí que o filme começa a ficar cada vez melhor.

Ichikawa é um homem franzino, desajeitado e de meia-idade, e quando se vê frente a frente com um criminoso real não consegue esconder de si mesmo o fato de que não deveria estar nas ruas, fantasiado, procurando confusão. Mas para sua própria surpresa, o professor consegue desviar dos ataques do maníaco de forma espetacular, com reflexos sobre humanos e acrobacias incríveis. Ichikawa não só consegue se proteger como também revidar com um violento super golpe. Fica claro que o protagonista acreditou tanto em seus devaneios que os poderes e habilidades de Zebraman passaram a se manifestar em nosso mundo. Caberá a ele agora garantir a segurança dos cidadãos de sua cidade, em meio à crescente onda de violência e aos estanhos acontecimentos relacionados à invasão alienígena.

A produção é muito caprichada, e um fato interessante é que o herói aparece com três diferentes roupas durante o filme: a tosca fantasia feita pelo protagonista, a vestimenta original que o herói trajava na série exibida na TV e uma outra versão, já nos moldes atuais, quando o herói está no auge de sua força. Esta última, muito parecida com uma espécie de armadura, evolui sozinha a partir da versão antiga, numa cena muito interessante.

Para quem gosta de tokusatsu, o filme é diversão garantida. Já havia mencionado aqui que a obra é uma espécie de homenagem de Miike ao gênero, e isso pode ser visto com clareza na cena em que o professor descobre que seu novo aluno conhece Zebraman. Com uma narração em off do garoto, vemos o que seria a sequência de abertura da antiga série do personagem, gravada por Miike nos moldes das produções setentistas, com alguns “defeitos” especiais e uma música tema idêntica às que tocavam nestas produções. O ator escolhido para encarnar Zebraman na série de TV é o veterano Hiroshi Watari, protagonista de Sharivan e Spielvan, duas séries de muito sucesso no Japão, e é considerado por muitos um dos melhores atores de tokusatsu de todos os tempos.

Embora este não seja um trabalho “convencional” de Takashi Miike, muitas de suas características cinematográficas estão presentes: edição ágil, trilha sonora barulhenta, cenas violentas e temática absurda. Um presente para aqueles que assistiram este tipo de série na infância, mas também não deixa de ser um ótimo filme para quem procura por um pouco de ação e humor descompromissados.

JESUS CHRIST VAMPIRE HUNTER (Lee Demarbre – 2001)

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Para amenizar um pouco o clima das produções comentadas aqui no blog, nada melhor do que um ótimo filme trash cheio de idéias insanas, humor anárquico, porrada e vampiros.  Com a palavra, Batata:

Existem certas produções que nos deixam surpresos com até onde a imaginação e a ousadia humana podem chegar. Muitas vezes nos decepcionamos com idéias originais mal executadas, ou filmes pretensiosos que acham que podem se tornar cult apenas por serem bizarros. Felizmente não é o que acontece aqui.

JESUS CHRIST VAMPIRE HUNTER é daqueles filmes que funcionam tão bem numa tarde solitária, quanto numa noite com os amigos. É diversão certa pra quem não se importar com as (muitas vezes inspiradas) piadas religiosas, e preferir rir com elas. Um crítico da Variety observou que “o filme é muito bobo para ser ofensivo”.

A história é um delicioso absurdo. Aparentemente Jesus sempre esteve entre nós, morando em uma praia. Quando as lésbicas do mundo começam a desaparecer, alguns padres que conhecem seu segredo (entre eles um punk) resolvem pedir sua ajuda. Fica claro que as moças estão sendo vítimas de um grupo de vampiros, mas Jesus está pronto pra briga, utilizando suas habilidades em artes marciais, em criar estacas de madeira (afinal ele era carpinteiro), e inclusive sua onipresença.

E não para por aí. Para ficar mais com a cara do mundo atual, ele resolve aderir a uma imagem mais moderna (sem barba ou cabelo). Durante sua saga, ele vai enfrentar a descrença com dança e música, vai se confrontar com os ateus, receber conselhos dos seus pais (nas formas mais inusitadas), vai comer no Hooters, entre muitas outras bizarrices.

O filme é empolgante, engraçado, e Jesus se mostra um herói bastante carismático. A própria produção barata provoca risos, sem que isso a ridicularize a ponto de desmerecê-la. Não é um superfilmão épico nem nada, mas cenas e frases acabam grudando na memória (“se eu não voltar em 5 minutos, chame o Papa”).

Filme canadense de 2001, até hoje ele é o maior sucesso da Odessa Filmworks, uma pequena produtora de Ottawa, fundada por Lee Demarbre, o diretor do filme. Apesar disso, o grande símbolo da produtora é o personagem Harry Knuckles, com 04 filmes na produtora entre curtas e longas. O personagem é interpretado por Phil Caracas, o mesmo que encarna Jesus no filme.

Mas o filho de Deus não está sozinho no longa. Ele recebe ajuda da garota Mary Magnum (Maria Moulton), e do lutador mexicano El Santo.

Peraí, El Santo voltou dos mortos?

Na verdade, trata-se do ator Jeff Moffet, que assim como o ator turco Yavuz Selekman em 3 DEV ADAM (filme turco de 1973, onde El Santo e Capitão América enfrentam o criminoso Homem-Aranha), faz uma versão não autorizada do luchador como homenagem.

Pra quem não conhece, El Santo foi um lutador mexicano mascarado, que se tornou ícone. Além de lutador, já teve sua série de histórias em quadrinhos, atuou em 52 filmes, e em toda a sua carreira só mostrou seu rosto uma única vez na TV mexicana após sua aposentadoria. Seu nome era Rodolfo Guzmán Huerta, e faleceu em 1984 aos 66 anos. Um de seus filhos, Jorge Guzmán Rodríguez seguiu os passos do pai, utilizando o nome El Hijo del Santo. Em 2004, o Cartoon Network latino realizou uma série de 05 animações curtas em homenagem a El Santo.

Essa não foi a única vez que Jeff Moffet encarnou esse personagem. O El Santo canadense também pode ser encontrado nos filmes HARRY KNUCKLES AND THE TREASURE OF THE AZTEC MUMMY (1999), e HARRY KNUCKLES AND THE PEARL NECKLACE (2004), ambos, claro, da Odessa Filmworks.

Enfim, assistam ao filme com a mente aberta, e terão uma grande diversão. Sim, os efeitos são toscos, as atuações são ás vezes risíveis, ás vezes canastronas, e ás vezes até mesmo inexpressivas, mas na verdade, a própria tosquice contribui para o triunfo do filme. Estou certo de que há a possibilidade de que muitos não concordem com isso, e detestem o filme, mas oras bolas, isso acontece com praticamente todas as obras existentes (nem Jesus conseguiu agradar a todos, hahaha).

Por incrível que pareça, se pesquisarmos iremos encontrar produções muito mais bizarras que utilizam a figura de Jesus. Essa o transformou em um herói, um herói moderno, e se repararem, com idéias bem modernas sobre o cristianismo. Assistam, talvez esse filme faça com que você cresça espiritualmente, e sua alma pare de se atormentar com dúvidas como “haverá limonada o suficiente?”

Escrito por Renato Batarce.

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