Mostra “20 Anos de Takashi Miike”, de 17/08 a 28/08

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Começa hoje na cidade de São Paulo a mostra “20 Anos de Takashi Miike”, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a exibição de 20 obras do cineasta.

Oportunidade perfeita para quem deseja ver ou rever os filmes deste excelente diretor em cópias de 35mm (com exceção do média metragem IMPRINT, que será exibido em Beta Digital), a preços módicos.

Acessem o site da mostra e vejam a programação, não percam esta oportunidade de conferir os delírios visuais de Miike com a melhor imagem possível! Veja o site da mostra AQUI.

OBS: Dia 27 de Agosto ocorrerá a pré-estréia nacional do mais novo filme do cineasta, ICHIMEI, com exibição em 3D no Cinemark do Shopping Metrô Santa Cruz (somente esta sessão terá cobrança de ingresso convencional com a tabela de preços do local). Após a sessão, ocorrerá uma vídeo conferência via Skype com Miike.

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FULL METAL YAKUZA (Takashi Miike – 1997)

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Voltamos a postar no blog, infelizmente nos encontramos no último dia do mês, e não conseguimos levar à frente a homenagem à Takashi Miike da forma como idealizamos, simplesmente não tivemos tempo para nos dedicar às resenhas, e ficamos devendo nossa opinião em uma porção de filmes. Fechamos então estes dois meses de postagens com apenas 08 resenhas novas sobre as obras do cineasta. Porém, como já foi citado anteriormente, há um forte boato de que teremos aqui em São Paulo uma mostra dedicada ao mestre, provavelmente em Setembro, e nesta ocasião falaremos mais sobre seus filmes.

Seguimos então com dois posts do Batata, sobre os filmes FULL METAL YAKUZA e CROWS ZERO, e um de minha autoria, sobre DEADLY OUTLAW REKKA. Confiram:

Se em ZEBRAMAN Takashi Miike fez uma comédia utilizando tokusatsus e um fã bitolado, em FULL METAL YAKUZA ele cria o perfeito tokusatsu para adultos.

FULL METAL YAKUZA mostra a história de Kensuke Hagane (Tsuyoshi Ujiki), um aspirante à Yakuza que não se mostra um capanga muito bom. Ele tem grande admiração por Tosa (Takeshi Caesar), um dos chefes da gangue. Tosa é preso por matar um chefe rival, e após sua saída da prisão, é morto por seus companheiros junto com Kensuke.

Mas de repente, Kensuke acorda no laboratório do cientista Genpaku Hiraga (Tomorowo Taguchi), que fundiu seu corpo ao de Tosa, complementando com partes cibernéticas. Kensuke agora é um ciborgue superpoderoso e quer buscar vingança contra seus antigos companheiros, apesar dos desejos de seu salvador, que queria que Kensuke se tornasse um super-herói defensor da justiça.

O filme é sensacional, feito com baixo orçamento, muito sangue, crueldade, depravação, e cenas de tortura com mulheres, que, apesar de não serem tão extremas quanto em IMPRINT, tinham um clima que chegava a me lembrar alguns momentos mais sádicos de BODYGUARD KIBA. Além disso, tanto os efeitos especiais quanto o corpo ciborgue de Kensuke são os grandes responsáveis pelo charme tokusatsu do filme, que citei anteriormente.

Apesar de tudo isso, o clima ainda tem momentos muito engraçados, como por exemplo o treinamento de Kensuke em seu novo corpo ciborgue, a maneira curiosa de ele se alimentar, e todas as piadas envolvendo o “instrumento” que ele herdou de Tosa.

O filme foi originalmente concebido para o mercado de V-Cinema, que é o nome dado às produções japonesas que são lançadas direto em vídeo; mas por sua história bizarra, e pela reputação crescente do diretor Takashi Miike, FULL METAL YAKUZA foi ganhando cada vez mais renome.

O ator Tsuyoshi Ujiki participou também dos filmes CURE, também de 1997, ROBOKON de 2003, e participou do seriado SUZURAN. Takeshi Caesar atuou em KAMIKASE TAXI de 1995 e FUDOH de Takashi Miike em 1996. Mas o ator mais clássico do elenco com certeza é Tomorowo Taguchi; só pra citar alguns filmes que ele participou: GUINEA PIG 5 – ANDROID OF NOTRE DAME, TETSUO 1 e 2, BULLET BALLET, TOKYO FIST (sendo os quatro últimos dirigidos por Shinya Tsukamoto), KAMIKASE TAXI, GAMERA 2, KAMEN RIDER – THE NEXT, GANTZ, DEAD OR ALIVE 1 e 2, e ANDROMEDIA, sendo os três últimos de Takashi Miike.

FULL METAL YAKUZA já pode ser considerado um clássico da filmografia de Miike, e contém todos os elementos que podem ser considerados marcas registradas do diretor: yakuzas, sangueira, humor negro, bizarrices e torturas.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

Cinema de Bordas – 3ª edição

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Começa hoje a 3ª edição da mostra Cinema de Bordas no Itaú Cultural, uma ótima oportunidade para os cinéfilos paulistas prestigiarem o trabalho de realizadores independentes brasileiros. Este ano teremos a exibição de 18 obras, entre curtas e médias, contando tanto com filmes recentes quanto com alguns mais antigos.

Na noite de abertura da mostra será apresentada uma prévia de A NOITE DO CHUPACABRAS, o tão aguardado novo filme de Rodrigo Aragão, diretor do já clássico MANGUE NEGRO (apresentado na 1ª edição da mostra, em 2009) e os novos curtas de Joel Caetano e Coffin Souza, ESTRANHA e A PAIXÃO DOS MORTOS, respectivamente; este último estrelado pela nova musa do underground nacional, Gisele Ferran.

Serão exibidos também EXTREMA UNÇÃO, novo curta de Felipe M. Guerra, e o mais recente  filme de Petter Baiestorf , O DOCE AVANÇO DA FACA. Como já é de costume, haverá palestra com os curadores Bernadette Lyra, Gelson Santana e Laura Cánepa no primeiro dia do evento, e também bate-papos com alguns dos diretores ao longo da mostra.

Destaco também na seleção os filmes ROQUÍ – O BOXEADOR DA AMAZÔNIA, de Renato Dib, estrelando Aldenir Coti, mais conhecido como “Rambo da Amazônia”, astro da série de filmes RAMBÚ, e os mais antigos MUSEU DE CERA, de Pedro Daldegan e O LOBISOMEM DA PEDRA BRANCA, de José Denísio Pereira, ambos da década de 80, que parecem muito interessantes.

Enfim, diversão garantida para quem gosta de fugir do lugar comum e aprecia o ótimo cinema independente brasileiro.

O Itaú Cultural fica situado na Av. Paulista, 149 (próximo à estação Brigadeiro do metrô). Entrada franca. Vejam a programação completa AQUI.

Entrevista com Petter Baiestorf

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É com grande prazer que publico agora no blog nossa primeira entrevista, feita neste fim de semana com o gênio do cinema trash/exploitation nacional, o catarinense Petter Baiestorf. Apesar de muitos de seus filmes terem se tornado verdadeiros clássicos do cinema underground ao longo de quase duas décadas de trabalho na Canibal Filmes, suas obras até hoje são produzidas e distribuídas de forma totalmente independente.

Para os que ainda não conhecem o diretor, recomendo a leitura do blog Canibuk, atualizado por Baiestorf e Leyla Buk constantemente, com notícias sobre seus novos projetos e uma tonelada de informações sobre os mais diversos assuntos ligados à arte, música, literatura e cinema. Leiam também uma ótima matéria sobre a história da Canibal Filmes AQUI, e claro, comprem seus filmes no site da Bulhorgia Produções!

Agora vamos à entrevista:

Como você definiria seu trabalho como diretor?

Baiestorf: Nunca paro prá pensar nisso na verdade. Faço vários estilos de filmes porque não gosto de ficar preso em um único gênero na verdade. Faço vídeo poesia, filmes surrealistas, projetos experimentais, trash-movies, gore movies e filmes mais eróticos, quando não misturo tudo isso numa mesma produção! Sempre acredito em evoluir no que tu quer dizer ao público, então se pegar meus filmes de 18 anos atrás, tu vai ver que continuo desenvolvendo uma temática anarquista. É uma espécie de cinema autoral sem levar à sério a palavra autoral, porque quando cara começa a se levar à sério é o começo do fim!

Quais são suas maiores influências cinematográficas?

Baiestorf: Comecei a fazer por causa do cinema vagabundo mundial que me foi bombardeado na infância, produções brasileiras, mexicanas, italianas, chinesas e americanas. Dois filmes foram diretamente responsáveis por eu querer começar a fazer filmes: “The Incredible Melting Man” e “Ultimo Mondo Cannibale”. Um diretor também foi responsável por eu querer fazer filmes, isso já lá pelos 14 anos de idade, 1988, quando tomei conhecimento das idéias de John Waters. Logo depois que comecei a fazer filmes no ano de 1992, na seqüência, comecei a tomar contato com diretores interessantes como George Kuchar, Koji Wakamatsu, Dusan Makavejev, Jodorowsky. Não faço filmes na linha deles, mas suas idéias de cinema tem muita influência quando realizo minhas produções caseiras com amigos. Acho que cinema/vídeo não podem ser apenas diversão, tem que ser diversão mas também trazer alguma pergunta (trazer perguntas, não respostas) e fazer o expectador pensar. Tenho consigo isso com minhas produções.

Qual, dentre os filmes que você já fez, é o seu preferido? Em qual deles você acha que se saiu melhor como diretor?

Baiestorf: Não tenho filme preferido, todos os meus filmes representam uma pequena parte da minha vida, são coisas que tinham que sair de dentro de mim, depois que saiu é do mundo, ficam rodando por tudo que é lugar que aceite exibi-los. E as vezes me surpreende filmes que fiz lá por 1996, sendo exibidos ainda em mostras junto de filmes recentes, acho que são filmes caseiros que permaneceram na mente das pessoas, talvez justamente por serem filmes que fazem as pessoas pensarem. Filmo rápido demais, são tantos projetos por ano que nem rola tempo de me apegar à um filme!

Você diz que não gosta de ZOMBIO, pois ele não tem sua “marca”, porém este é justamente um dos filmes de maior repercussão da Canibal Filmes. A que você atribui isso?

Baiestorf: Porque “Zombio” é um dos únicos filme que fiz que é sessão livre e mais adolescente, ele não ofende e é fácil de ser compreendido. Por isso que 13 anos após ter sido lançado continua sendo visto, continua “popular” entre o pessoal que gosta de filmes de baixo orçamento. Em 2007 eu re-lancei “Zombio” em alguns cinemas aqui do sul prá fazer Double feature com o recém lançado “Arrombada” e pessoal continua curtindo ele. É gratificante um filme continuar sendo assistido, mas acho ele tão bobinho!

Fale um pouco de seus projetos futuros. Como serão estas filmagens com o Felipe M. Guerra na Páscoa?

Baiestorf: O projeto “Páscoa Sarnenta” é o seguinte: Felipe Guerra me procurou querendo fazer um documentário sobre “como fazer um filme de baixo orçamento filmado em 3 dias” e aceitei no ato. Só que como sou um sem noção completo, resolvi aumentar o desafio e fazer 4 filmes em 3 noites e 2 dias de filmagens, enquanto ele documenta todo esse processo de filmagens alucinantes, vou fazer 3 curtas, “Pampa’Migo”, “O Monstro Espacial” e “Filme Político Número Um” e num ato de metalinguagem total, vou fazer um documentário do Felipe Guerra documentando tudo, Se eu falhar estará tudo registrado num documentário para todos aprenderem como Não Fazer um filme de baixo orçamento.

Você escreveu em seu blog que tem vontade de refilmar alguns de seus trabalhos antigos. Dentre os filmes que você mencionou, NINGUÉM DEVE MORRER é o mais recente. O que você sente que precisa ser mudado nele?

Baiestorf: Pretendo sim refilmar de maneira profissional o “Ninguém Deve Morrer”. Quando comecei a escrever este filme eu tinha uma idéia prá um filme de longa-metragem, desenvolvendo melhor as personagens todas, era muito mais insano e surreal do que aquilo apresentado na tela. Minha idéia é refazê-lo com um orçamento maior, equipe técnica profissional e várias outras mudanças. Primeiro que nas minhas pesquisas musicais para a trilha sonora deste filme, encontrei muitas músicas que eu gostaria de ter usado nele e não foi possível quando comecei a cortar idéias para adequá-lo nos 30 minutos que ele e quero comprar essas músicas que usei para não ter problemas de direitos autorais, só com grana minha é impossível isso. Muita idéia boa ficou de fora, várias personagens que eu queria desenvolver ficaram de fora. Todo um bordel com putas dançarinas ficou de fora. Sem contar que eu tinha apenas 6 mil reais de orçamento e apenas 5 dias para filmá-lo. Foi insano as filmagens, filmar uma média de 8 seqüências completas por dia é tarefa ingrata, precisava de mais tempo para filmar tudo como deveria ter sido filmado, para mim o “Ninguém Deve Morrer” que fiz em 2009 é um esboço de um projeto muito maior. Mas não tinha dinheiro para manter a equipe reunida por mais do que 5 dias, então, por enquanto, é este o filme que consegui fazer com o material que tinha nas mãos.

(Assistam ao filme NINGUÉM DEVE MORRER completo no Youtube – Partes 01, 02 e 03)

A meu ver, ARROMBADA – VOU MIJAR NA PORRA DO SEU TÚMULO!!!!, VADIAS DO SEXO SANGRENTO e O DOCE AVANÇO DA FACA formam a mais nova trilogia do cinema de gênero no Brasil. Pretende continuar nesta veia Sexploitation com suas novas produções?

Baiestorf: Sim, eu faço sexploitations alternados por filmes experimentais desde 1996 (meus projetos entre 1992 e 1995 foram filmes que pertencem mais ao universo trash das Sci-Fi americanas) e esses 3 títulos que tu mencionou são parte de uma série que vai ter mais de 20 filmes carregados de violência e sexo que pretendo desenvolver nesta próxima década. Acredite, vários outros filmes extremamente exagerados estão por vir, tenho uns 8 filmes já escritos prá essa série e a cada novo título a coisa vai ficar mais divertida e insana.

Li em seu blog que ZOMBIO deveria ter sido um filme totalmente diferente (ainda mais insano do que é), ainda pretende levar o roteiro original às telas?

Baiestorf: Porra, “Zombio” eu vou refilmar também qualquer dia desses prá filmar a idéia original que eu tinha na época das filmagens. Ele foi uma sucessão de problemas de orçamento e de dias para filmar. “Zombio” a gente filmou todo ele em 4 dias e com menos de mil reais. Eu dormia 2 horas por dia, re-escrevia todo material que ia filmar poucas horas antes de filmar. Tive que cortar todas as ações que se passariam numa aldeia de pescadores porque nosso orçamento não permitiu construir a aldeia. Rolou várias discussões entre pessoal da equipe-técnica por causa do stress e cansaço, as condições de filmagem não eram as ideais. O interessante do “Zombio” é que saíram inúmeras produções de temática zumbis aqui no Brasil nos últimos anos e ele foi exibido em todas as mostras que exibiam essas novas produções. Achei isso bem legal!

Sente vontade de filmar novamente com VHS?  Desconsiderando o preço absurdo, já teve vontade de filmar com película?

Baiestorf: Não prá duas perguntas. Filmei em VHS porque quando comecei era o que tinha. E filmar em película não é viável para produtores independentes, não há essa necessidade.

O que você acha da censura em alguns de seus filmes para exibição em mostras e festivais?

Baiestorf: Quanto a censura, vejo que não preciso de ditadura militar prá ser censurado em quase tudo que é lugar. Nem quero falar sobre isso, mas ser censurado, ter cenas cortadas dos filmes para que possam ser exibidos em alguns lugares é algo deprimente. Acho que o público adulto deve escolher o que quer ver e que os filmes passem inteiros, sem cortes. Se o filme é uma merda o espectador abandona a sala de exibição, não precisa de censura!

Eu particularmente gosto muito de média-metragens. Qual o formato que você acredita que funciona melhor para seus filmes e para produções independentes/experimentais em geral?

Baiestorf: Acho que cada filme, cada produção, cada projeto acaba definindo seu tamanho. Gosto bastante de fazer curta-metragens e média-metragens (apesar de já ter feito 13 longas). Para a Canibal Filmes o formato que melhor funciona são os médias, filmes entre 30 e 50 minutos. O último longa que fiz foi em 2006, estou querendo voltar ao formato longa-metragem com algum projeto mais profissional e com orçamento maior. Se essas tentativas de filmar mais profissionais darem em nada vou trazer de volta umas idéias antigas prá um longa-metragem existencial que eu ia fazer nos anos 90 e acabei deixando de lado. Este longa existencial vai ser em ritmo lento, mais haver com filmes que fiz nos anos 90 do que os filmes que estou fazendo agora.

Você aceitaria trabalhar com um grande estúdio, sem restrições no orçamento, porém sem exageros na violência, gore e nudez, para poder se adequar a uma classificação etária mais branda?

Baiestorf: Não vou responder isso. É uma pergunta hipotética demais. Sei que vou filmar uma série de sexploitations com grana do meu bolso e temáticas ofensivas e exageradas. Isso é fato!

Qual a posição que você acredita que a Canibal Filmes possui em relação ao cenário cinematográfico nacional? Você sente que tem o reconhecimento que merece?

Baiestorf: Nunca pensei nisso, qual seria a posição da Canibal Filmes no cenário cinematográfico brasileiro. Acho que isso apenas o tempo vai responder, ainda é cedo demais prá pensar nisso. Eu tento dar continuidade ao tipo de cinema ofensivo que era feito na Boca do Lixo paulista misturando os anos 60 do cinema Marginal com os anos 80 do cinema mais pornográfico sem limites que se fazia lá. Talvez o papel da Canibal Filmes seja influenciar o surgimento de jovens cineastas independentes e desses jovens cineastas independentes pode surgir várias cabeças com idéias realmente novas. Talvez minha maior contribuição ao cinema nacional foi de acabar com essa idéia que cineasta brasileiro é um ser especial, intocável. Fodam-se os mitos, qualquer imbecil com uma filmadora faz um filme e sou um exemplo perfeito disso!

Qual o conselho que você daria para quem começa agora a fazer cinema independente?

Baiestorf: Seguinte: Menos teoria e mais filmes. Menos ego e mais apoio-mútuo. E sejam agressivos, façam filmes sujos, filmes que tenham o que dizer, filmes suados que desagradem, que causem estranheza no espectador, não tenham medo de ofender.

Deixe uma mensagem para quem acompanha seus filmes:

Baiestorf: Estudem prá caralho, estudem tudo que vocês conseguirem colocar as mãos. Precisamos de uma nova geração menos preguiçosa. Não tenham preguiça de aprender. Exercitem a mente e duvidem de tudo, Não existem mestres, não existem deuses, você é capaz de fazer tudo que quiser. Persiga seus sonhos!!!

Assistam abaixo ao trailer de ZOMBIO, e ao documentário BAIESTORF: FILMES DE SANGUEIRA E MULHER PELADA de 2004, filmado em Porto Alegre por Christian Caselli, durante o festival CineEsquemaNovo:

964 PINOCCHIO (Shozin Fukui – 1991)

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E o Batata continua voltado para o cinema oriental, agora falando sobre um clássico do Cyberpunk, o bizarro 964 PINOCCHIO:

Capa do DVD

O cyberpunk japonês é um gênero para poucos. Enquanto que no ocidente o estilo é mais relacionado ao cyberespaço, à junção do homem e/ou sua mente ao mundo virtual, o oriente optou pela junção entre o metal e a carne.

O estilo é caracterizado por cenários urbanos, personagens marginais, sujos, perturbados, música e som altos, agudos e até irritantes. Sim, a confusão é intencional, porque normalmente são filmes que tentam retirar a barreira entre ser humano e máquina, o que pode ser uma experiência desconcertante; mas para quem aprecia o gênero, isso não deixa de ser maravilhoso.

Todos esses elementos são encontrados em 964 PINOCCHIO de 1991 (escrito e dirigido por Shozin Fukui, creditado como Shôjin Fukui). O filme narra a história do personagem título (vivido pelo ator Haji Suzuki), que é um andróide criado por uma empresa, com a finalidade de ser uma ferramenta sexual. Porém, o “produto” é descartado por suas donas e jogado na sarjeta, pois aparentemente ele era incapaz de ter uma ereção.

Perdido, Pinocchio acaba encontrando nas ruas Himiko (Onn-Chan), uma mulher com um passado misterioso, que o ajuda a sobreviver nas ruas. Aparentemente os dois sentem uma estranha conexão entre eles.

Mas a empresa que criou Pinocchio não quer saber dele andando pelas ruas, pois os serviços prestados por ela são secretos, então agentes são enviados para capturá-lo. Nisso, a relação entre Pinocchio e Himiko atinge um ponto onde ele finalmente consegue realizar aquilo para que fora criado. Mas aí meu amigo, as coisas passam a ficar realmente estranhas.

Após a relação entre os dois (não, não estou contando o final, isso acontece bem antes da metade), o ritmo muda totalmente. Cenas com cortes rápidos como um videoclipe, reviravoltas surpreendentes e a sempre presente sensação de pesadelo e loucura como se fosse a batalha interna de homem contra máquina. Mas como é um cyberpunk japonês, os efeitos dessa batalha são sentidos no corpo, através de ferimentos, fluidos liberados, e vômito (sim, o filme é nojento, nem pensem em assisti-lo durante as refeições). É uma experiência visceral e inesquecível, fusão e rejeição caminhando lado a lado.

As atuações são extremas e muito exageradas, mas é isso que o filme pede. Loucura, sofrimento, dor, prazer, tudo é representado pelos atores por movimentos e expressões intensas.

Um detalhe que pode passar despercebido por muitos, é que o diretor teve êxito em criar um verdadeiro clássico do cyberpunk, de uma maneira que, para a época, era quase impensável: em cores. Antes de Pinocchio, a fotografia preta e branca (como, por exemplo, em TETSUO), era praticamente uma marca inalterável do estilo.

Os atores do filme são praticamente desconhecidos, sendo que para a grande maioria (incluindo os protagonistas), esse foi seu único trabalho no cinema. Mesmo o diretor Shozin Fukui possui uma filmografia curta; antes de 964 PINOCCHIO, dirigiu, roteirizou, editou e compôs a música de um curta chamado GERORISUTO (1990), e em 1996 dirigiu RUBBER’S LOVER, outro clássico do cyberpunk que funciona como uma espécie de pré-sequência para 964 PINOCCHIO.

É uma completa viagem, e com um final aberto a várias leituras. Precisa ser um admirador do gênero para realmente apreciar a experiência; mas qualquer que seja o sentimento pelo filme (amor, ódio, ou apenas pura e simples estranheza), pode ter certeza que vai ser intenso, pois não é uma obra que possa simplesmente passar batida.

Escrito por Renato Batarce.

Mostra “Satoshi Kon – O Mestre dos Sonhos”, de 25/01 a 30/01

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Satoshi Kon

Em 24 de Agosto de 2010 o mundo perdeu um dos maiores artistas da indústria de animação japonesa contemporânea, Satoshi Kon, vítima de um câncer no pâncreas aos 46 anos de idade. O visionário diretor deixou uma obra pequena em quantidade, mas imensa no que se refere à qualidade, competência e relevância artística.

Tendo dirigido apenas 04 longas e uma série de TV com 13 episódios ao longo dos últimos 12 anos, Satoshi Kon conseguiu atrair a atenção do público e da crítica, ao criar belas histórias que se valiam de tramas muito bem engendradas e inteligentes, tendo predileção por roteiros de apelo fantástico e onírico, contendo críticas à sociedade japonesa atual, com personagens complexos, dotados de fraquezas e defeitos.

Começa a partir de amanhã no Centro Cultural São Paulo a Mostra “Satoshi Kon – O Mestre dos Sonhos”, que conta com a exibição de todos os filmes do diretor e a série Paranoia Agent na íntegra, assim como o média metragem MAGNETIC ROSE, escrito por Satoshi Kon em conjunto com Katsuhiro Otomo (o gênio por trás da obra-prima AKIRA) e ROUJIN Z, no qual ele foi responsável pela animação.

Não percam a oportunidade de prestar homenagem à memória do mestre Satoshi Kon, assistindo na telona obras máximas como PAPRIKA e TOKYO GODFATHERS!

Segue abaixo a relação de filmes e suas sinopses, a programação no site do Centro Cultural São Paulo pode ser vista AQUI. Recado dado!

Mestre Satoshi (1963 - 2010)

 

PERFECT BLUE

(Pafekuto Buru, Japão, 1998, 80min)
direção: Satoshi Kon
Mimi deixou sua carreira de cantora para se tornar atriz, mas seus fervorosos fãs não gostam da mudança. Estressada e em dúvida, ela começa a ter lapsos de memória e, além disso, seus amigos começam a ser assassinados.

Perfect Blue

MILLENIUM ACTRESS

(Sennen Joyu, Japão, 2001, 87min)
direção: Satoshi Kon
Vida e carreira da atriz Chiyoko Fujiwara. O filme revela a partir de flashbacks dos filmes que estrelou o verdadeiro motivo que levou a artista a seguir carreira nos cinemas.

Millenium Actress

TOKYO GODFATHERS

(idem, Japão, 2003, 92min)
direção: Satoshi Kon
As vidas de três mendigos são transformadas para sempre quando eles encontram um bebê abandonado no lixo na véspera de Natal em Tóquio. Com o Ano Novo se aproximando, os três se unem para desvendar o mistério.

 

PAPRIKA

(Papurika, Japão, 2006, 90min)
direção: Satoshi Kon
Num futuro próximo, Dr. Tokita inventa um poderoso aparelho chamado DC-Mini, que torna possível o acesso aos sonhos das pessoas. Antes de seu uso ser sancionado pelo governo, o aparelho é roubado.

Paprika

MAGNETIC ROSE

(idem, Japão, 1995, 45min)
direção: Koji Morimoto
Curta-metragem escrito por Satoshi Kon que faz parte do longa-metragem MEMORIES. Na animação, três astronautas vão parar em uma nave abandonada no espaço que contém um mundo inteiro dentro dela, criado pelas memórias de uma mulher.

 

ROUJIN Z

(Rojin Zetto, Japão, 1991, 80min)
direção: Hiroyuki Kitakubo
A população do Japão está envelhecendo rapidamente e o governo propõe uma solução para diminuir os gastos com saúde: uma cama eletrônica que forneça ao paciente o mesmo que uma enfermeira de verdade possa oferecer. O senhor Takazawa é escolhido como cobaia, mas uma enfermeira, ao perceber seu sofrimento, tenta salvá-lo. Escrito por Katsuhiro Otomo. Satoshi Kon foi responsável pela animação.

 

PARANOIA AGENT

(idem, Japão, 2004, 120min)
direção: Satoshi Kon
Série de 13 capítulos, criada pelo diretor Satoshi Kon. Produzido pelo famoso estúdio de animação japonesa MadHouse, a série é centrada num assassino serial e no fenômeno social causado pela agressividade de seus ataques. Casa episódio é centrado em personagens diferentes e em como esses eventos influem em suas vidas.

THE UNTOLD STORY (Herman Yau – 1993)

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Deve fazer uns 10 anos que assisti THE UNTOLD STORY pela primeira vez. Na época, assim que acabou de rodar, rebobinei o VHS e vi de novo. Sempre que revejo este filme, tenho a mesma sensação: é um dos filmes mais insanos e divertidos que já vi. Hong Kong realmente não costuma decepcionar.

Os primeiros dois ou três minutos do filme são preenchidos com o passado do protagonista Wong Chi Hang, interpretado de forma brilhante por Anthony Wong, que inclusive recebeu o prêmio de Melhor Ator no Hong Kong Film Awards de 1993 por esta atuação. Na cena vemos uma briga ocorrida em Hong Kong por razão de uma dívida criada em um jogo de Mahjong, e ao ser informado de que não receberá mais dinheiro emprestado de seu amigo, Wong Chi Hang se enfurece, e não só agride seu credor como começa a destruir a casa do pobre homem, que espancado e subjugado, é queimado vivo por ele.

Foragido, Wong Chi Hang se muda para Macau (é nesta ocasião que ele tira outros documentos e troca sua identidade para a atual), e passa a viver aparentemente de forma tranqüila nos próximos anos.

Em uma calma manhã, duas crianças brincam na praia e encontram um saco com membros humanos dentro. A polícia é chamada, e o que parecia ser um filme de gênero policial sério, descamba para um pastelão com humor típico chinês. Os policiais encarregados da investigação são os maiores fanfarrões, preguiçosos e burros que a polícia poderia dispor, e o chefe deles, o oficial Lee, é um superior displicente, que se preocupa mais com as prostitutas que vive contratando e exibindo na delegacia do que com o rumo das investigações.

O foco retorna para Wong Chi Hang, agora gerenciando seu recém adquirido restaurante, especializado em tradicionais bolinhos chineses de carne de porco. Nesse ponto alguns espectadores podem achar que foram enganados pela premissa do filme, mas aí começa a loucura. Como disse antes, Anthony Wong é um ótimo ator, e ele se esforça para convencer o espectador de que é um verdadeiro demente, tamanha é a expressão de insanidade no rosto do personagem.

Wong Chi Hang maltrata os empregados e clientes do restaurante, e passa a maior parte do tempo na cozinha desossando porcos para fazer os bolinhos. Algumas cartas chegam para o antigo dono do restaurante, que desapareceu misteriosamente com toda sua família, e são recebidas pela recepcionista, que começa a desconfiar desta situação.

Mesmo com toda a incompetência dos policiais (que são uma diversão à parte no longa, cada um mais imbecil que o outro), algumas cartas reportando o desaparecimento da família são recebidas na delegacia, e após uma breve averiguação no restaurante, o protagonista passa a ser suspeito de tê-los assassinado, e não demora muito para ligarem o saco com os membros humanos ao desaparecimento da família.

Dito isso, vamos ao que interessa. Este é um dos filmes mais violentos que já vi, com cenas que apesar de simples, e até mesmo toscas, impressionam pela morbidez das ações e pela forma crua como são filmadas e interpretadas. Há uma quantidade enorme de sangue espirrando, tripas sendo arrancadas, carne dilacerada e desmembramentos durante o filme. Esqueçam estes filmecos de hoje em dia, em que a cada 05 minutos uma cabeça explode, ou uma colegial seminua é esfaqueada, ou algum tipo de tortura “super criativa” é executada em alguém, sem que ninguém atente para o fato de que é necessário o mínimo de história para que o espectador de fato fique chocado com o que é mostrado na tela. A falta de cérebro, os orçamentos gigantescos e o CGI estão matando o cinema!

Os efeitos do filme são em sua maioria muito bem feitos, apenas um braço ou uma perna eventualmente filmados em close-up tem uma aparência emborrachada e tosca, mas estamos falando de uma produção de Hong Kong… O que mais chama atenção é a cor do sangue usado nas cenas de mutilação ao longo do filme, que é de um vermelho-tinto muito vivo; embora eu não ficasse surpreso se descobrisse que foi usado sangue de porco na produção, uma vez que boa parte do filme se passa no açougue do restaurante de Wong Chi Hang, e aparentemente as tripas usadas durante a evisceração de uma das vítimas sejam realmente miúdos de porco.

A figura do protagonista é perturbadora nas cenas de assassinato, estupro e chacina que permeiam a história. A violência vem em doses cavalares, e é sadicamente criativa: olhos perfurados, mãos queimadas em água fervente, decapitações, garrafadas, automutilação, agulhadas, penetração com chopsticks e tortura psicológica.

Uma das cenas mais tensas envolve algumas crianças pequenas, e do jeito que a molecada chora, deviam estar acreditando que iam realmente virar picadinho… Anthony Wong até esbofeteia um dos moleques (esse tipo de sacanagem parece que era meio comum no cinema italiano e asiático da década de 70 e 80, vide FEIOS, SUJOS E MALVADOS e O IMPÉRIO DOS SENTIDOS).

Notáveis também são as seqüências que se passam na prisão, em que um grupo de presos surra e tortura repetidamente Wong Chi Hang. Quem está acostumado com os filmes de ação asiáticos, especialmente os de Hong Kong (desde as comédias de Kung Fu que marcaram o início da carreira de Jackie Chan até os truculentos filmes policiais dirigidos por John Woo na década de 80 e 90), sabe que em matéria de pancadaria eles são insuperáveis. Os dublês não economizam esforços para passar a idéia de que realmente estão moendo o infeliz na base da porrada.

Enfim, THE UNTOLD STORY é um filme que agrada em cheio aos fãs de bizarrices asiáticas, com sua inusitada mistura de comédia, perseguição policial e filme gore. Talvez seja mais indicado aos iniciados em cinema extremo, pois não é um filme que poupa o espectador ao mostrar as atrocidades praticadas pelo protagonista. Como diria um amigo meu: “Este é um dos maiores filhos da puta que o cinema teve o trabalho de retratar”.

Infelizmente, o filme é baseado em crimes reais que ocorreram em Macau em 1985, e na medida do possível, os fatos parecem ter sido retratados de forma bem fiel ao que realmente aconteceu, tendo sido mantido até mesmo o nome do assassino real, Wong Chi Hang. Talvez por isso o filme tenha recebido uma classificação etária equivalente ao nosso “Não recomendado para menores de 18 anos” ao ser exibido nos cinemas da China, e tanto o VHS distribuído em Hong Kong quanto o Laser Disc lançado no Japão, foram censurados em várias seqüências (para maiores detalhes da censura, dêem uma olhada AQUI). No entanto, o DVD disponível do filme possui a obra na íntegra, sem cortes.

PS: Os bolinhos chineses de carne de porco são chamados nos países de língua inglesa de pork chop buns, e um dos nomes pelo qual o filme é conhecido é HUMAN PORK CHOP. Acho que dá para imaginar o que tinha no recheio dos saborosos bolinhos…

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