I DRINK YOUR BLOOD (David E. Durston – 1970)

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Mais uma pedrada que o Batata coloca aqui no blog! A década de 70 foi realmente uma maravilha!

I DRINK YOUR BLOOD é um horror exploitation daqueles que nos deixa felizes pelos anos 70 terem existido. Sangue, satanismo, sexo, drogas, sadismo, tudo bem explícito e da maneira mais chocante que os responsáveis conseguiram exibir na época.

Sem piadinhas ou humor negro, I DRINK YOUR BLOOD foi planejado pra chocar e incomodar, principalmente na época em que foi feito, com temas que incomodavam muitos americanos.

Lançado em 1970, o filme mostra uma caravana de hippies satanistas, cujo líder se autoproclamava filho do Demo. Eles chegam nas proximidades da pequena cidade de Valley Hills, com apenas 40 habitantes e, durante um de seus cultos, são observados por uma garota local. Quando se dão conta da presença da menina, ela é perseguida, espancada e violentada (apesar de não falarem diretamente em estupro, fica claro que foi isso que ocorreu).

Quando o grupo chega à cidade, ocupam uma das muitas casas abandonadas. Em uma cidade quase abandonada, claro que um grupo de pessoas de fora chama atenção, principalmente por seu comportamento incomum. O avô da garota atacada vai tirar satisfações com o bando, e os encontra torturando um de seus membros. O velho é subjugado e dopado com LSD, e seu neto de 10 anos observa tudo.

O filme já prende a atenção desde o começo, mas a partir desse ponto que ele realmente começa. Decidido a se vingar, o garoto injeta sangue de um cão raivoso que ele matou em tortas de carne da padaria local. Ele vende as tortas para o grupo de hippies, e começa uma epidemia incontrolável.

Não são zumbis, são pessoas com o vírus da raiva. Nervos descontrolados, ataques de violência, boca espumante e hidrofobia. Essa doença age de formas e intensidades distintas em cada um do grupo. A raiva é praticamente incurável, com um pequeno número de casos resolvidos. O infectado se torna cada vez mais hostil, mas está consciente de todo o processo. Ao aparecer a hidrofobia, medo intenso de líquidos (e uma das principais armas contra os infectados no filme), a morte é praticamente certa. A raiva mata em cerca de 04 dias.

Claro que o filme tenta explorar a doença da forma mais exagerada possível. Mas é uma ótima desculpa para jogar de forma intensa na tela variadas formas de violência e sadismo. A música que é repetida em vários momentos do filme contribui também para o clima perturbador e enlouquecedor.

O filme foi dirigido por David Edward Durston, e foi seu filme de maior expressão. Ele também atua no filme em participação não creditada, como Dr. Oakes. Não conheço praticamente nenhum trabalho do resto do elenco, mas o grande destaque vai para o líder hippie satanista Horace Bones, interpretado pelo ator indiano Bhaskar Roy Chowdhury, que faleceu em agosto de 2003.

I DRINK YOUR BLOOD se tornou um sucesso em sessões Grindhouse, principalmente ao lado do filme I EAT YOUR SKIN (do diretor Del Tenney), filme de 1964 lançado apenas em 1970. O distribuidor Jerry Gross juntou os dois filmes e deu o nome de I EAT YOUR SKIN ao segundo, que originalmente se chamava apenas ZOMBIES, e também já chegou a ter títulos como ZOMBIE BLOODBATH e VOODOO BLOOD BATH.

I DRINK YOUR BLOOD é um filme para aqueles que gostam da boa e velha ultraviolência dos anos 70, aquela violência que não é apenas tripas e gore (apesar de ter muito disso também), mas é algo feito pra incomodar e mostrar o tanto que o cinema pode ser cruel e divertido.

OBS: apesar de o trailer abaixo citar I EAT YOUR SKIN, ele contém apenas cenas de I DRINK YOUR BLOOD.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

Mostra “Mojica 24 horas – Zé do Caixão”, Virada Cultural 2011

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O grande mestre do horror nacional, José Mojica Marins, será homenageado na Virada Cultural 2011 (que acontece em São Paulo nos dias 16 e 17/04), com a exibição ininterrupta de algumas de suas principais obras ao longo de 24 horas no Cine Windsor, situado na Av. Ipiranga, 9740.

É uma boa oportunidade de ver na telona a trilogia formada por À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER e finalizada por sua produção mais recente, ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Além da trilogia, serão exibidos 03 curtas na primeira sessão (ainda não obtive informação de quais serão as obras, quando confirmar adicionarei ao post), assim como os clássicos absolutos O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS), O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO e DELÍRIOS DE UM ANORMAL.

Serão exibidas 14 obras no total, e além dos trabalhos realizados pelo diretor, haverá a exibição de O PROFETA DA FOME, dirigido por Maurice Capovilla e protagonizado por Mojica, no qual ele vive o papel de Ali Khan, personagem inspirado no faquir Silk, seu amigo na vida real e A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, que apesar de ter sido dirigido por Mojica, foi inicialmente creditado a Marcelo Motta, um de seus alunos na escola de cinema e interpretação, como forma de tentar alavancar a carreira cinematográfica de seu discípulo, segundo o próprio.

Claramente, a mostra não se limita a exibir filmes somente com o personagem do coveiro Zé do Caixão, mas como já ocorreu tantas outras vezes, o nome da criação mais famosa de José Mojica Marins foi usado para garantir a presença do público, que por vezes confunde criatura com criador, evidenciando a força deste mítico personagem que já faz parte da cultura popular brasileira.

Meu primeiro encontro com o Mestre!

Segue a programação da mostra:

Mojica 24 Horas – Mostra Zé do Caixão:

18h – Sessão de curtas (03 Filmes)

20h – A SINA DO AVENTUREIRO

22h – O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS)

00h – À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA

02h – ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER

04h – O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO

06h – FINIS HOMINIS

08h – DELÍRIOS DE UM ANORMAL

10h – ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

14h – INFERNO CARNAL

16h – A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES

(16/04/2011: Os curtas que integram a primeira sessão são O UNIVERSO DE MOJICA MARINS, documentário de Ivan Cardoso filmado em 1978, A LASANHA ASSASSINA de Ale McHaddo, 2002 e PESADELO MACABRO, dirigido por Mojica em 1968, um dos episódios do longa TRILOGIA DE TERROR, que também conta com Ozualdo Candeias e Luís Sérgio Person na direção.)

O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA (Jimmy Wang Yu – 1975)

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O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA é um daqueles filmes que só vendo para crer. Saído da mente do outrora astro chinês Jimmy Wang Yu (diretor, produtor, ator e roteirista de várias pérolas da pancadaria), este filme é um clássico das produções picaretas de Kung Fu que se alastravam na Ásia em meados da década de 70.

Wang Yu já fazia sucesso em sua terra natal desde 1967, quando estrelou THE ONE-ARMED SWORDSMAN, clássico do gênero Wuxia (filmes que narram as aventuras de lutadores e personagens míticos da história da China, assemelhando-se aos romances de cavalaria ocidentais) produzido pelo Shaw Brothers Studios. Muitos atribuem a ele o primeiro boom dos filmes de luta sem armas na China, com o filme THE CHINESE BOXER de 1970, também conhecido como HAMMER OF THE GODS, e muito pouco tempo depois um certo rapaz chamado Bruce Lee iria revolucionar e solidificar o gênero dentro e fora da China, tornando-o uma verdadeira epidemia mundo afora.

Na verdade, O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA é uma sequência direta do filme ONE ARMED BOXER de 1973, também dirigido e estrelado por Wang Yu. No primeiro filme, o protagonista Liu Ti Lung faz parte de uma escola de artes marciais que entra em conflito com uma escola rival. Os inimigos, na impossibilidade de ganharem em uma competição justa, armam uma emboscada, contratando vários assassinos de aluguel, promovendo assim um massacre em que todos da escola de Liu Ti Lung são mortos, restando apenas ele como sobrevivente, que acaba perdendo um braço. Após um treino árduo, o agora “lutador de um braço só” inicia sua sangrenta vingança contra o clã inimigo.

Este é o ponto de partida desta sequência. Dois lutadores que foram derrotados no filme anterior (que estranhamente se disfarçavam de monges tibetanos) eram, na verdade, discípulos de um velho mestre de Kung Fu, Fung Sheng Wu Chi, que havia sido contratado pelo Imperador Yung Cheng para encontrar e matar rebeldes avessos à nova Dinastia Manchu Ching, utilizando-se de uma nova e poderosa arma, a Guilhotina Voadora. Essa engenhoca é digna de uma explicação mais detalhada: basicamente consiste em uma espécie de leque circular, algo como a armação de um pequeno guarda-chuva revestido por um tecido e uma rede, presos a uma corrente, com inúmeras lâminas no interior. Ao ser lançada, soa como o disparo de uma arma de fogo, e a armação envolve a cabeça do oponente, que tem a mesma decepada no momento em que a corrente é puxada de volta. Loucura pouca é bobagem…

Ao receber a notícia da morte de seus discípulos através de um pombo-correio, o velho mestre, que é cego, decide vingá-los lançando mão desta insólita arma. Após destruir a casa onde vivia disfarçado nas montanhas, Fung Sheng Wu Chi parte em peregrinação à procura de Liu Ti Lung, trajando uma espalhafatosa vestimenta vermelha e amarela, com uma enorme suástica estampada em seu peito (?).

Liu Ti Lung agora possuí uma escola de artes marciais famosa, e seu nome se tornou bem conhecido no país. Ele recebe a notícia de que haverá um torneio de lutas promovido por uma grande escola, e mesmo não tendo intenção de participar, é convencido por seus alunos a comparecer e levá-los para o evento, para que possam conhecer novos mestres e novos estilos de luta.

A partir daí a bizarrice rola solta, o torneio é uma sucessão de lutas toscamente coreografadas com personagens absurdamente caricatos e hilários, quase uma versão pré-histórica da franquia de jogos Street Fighter (por falar em Street Fighter, um dos personagens do filme, um indiano chamado Yoga Tro La Seng, serviu claramente de inspiração para o personagem Dhalsim, tendo inclusive o poder de esticar seus braços como o personagem do jogo).

Yoga Tro La Seng

É exatamente isso que mais gosto nos filmes de artes marciais chineses: se alguém sabe lutar Kung Fu, então não há motivos para que essa pessoa não possa sair por aí voando, flutuando, escalando paredes, sumindo em meio às sombras, tenha superforça ou até mesmo que libere energia pela palma das mãos quando luta. Neste caso, a cegueira do Mestre da Guilhotina Voadora não o impede de caçar Liu Ti Lung, matando todo e qualquer maneta em seu caminho (acreditem, existem ao menos dois outros lutadores sem um dos braços neste filme).

Mas não se enganem pelo roteiro mirabolante… Ao contrário do que parece, esse filme passa longe de ser ruim. A pancadaria só aumenta, e alguns dos competidores do torneio resolvem ajudar Fung Sheng Wu Chi a matar Liu Ti Lung, que reconhecendo não ter chance contra o velho mestre e sua poderosa arma, cria uma estratégia para derrotar seus perseguidores. Vale a pena conferir o desfecho história, e como é de praxe em bons filmes de Kung Fu, a batalha final é longuíssima: algo em torno de 10 minutos ininterruptos de ação!

Clássico absoluto, O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA é lembrado por muitos como um dos melhores e mais emblemáticos filmes de Kung Fu da década de 70, e já foi apontado por gente do calibre de Quentin Tarantino como um dos 20 melhores filmes dentro do cinema exploitation.

Fung Sheng Wu Chi