Mostra “20 Anos de Takashi Miike”, de 17/08 a 28/08

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Começa hoje na cidade de São Paulo a mostra “20 Anos de Takashi Miike”, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a exibição de 20 obras do cineasta.

Oportunidade perfeita para quem deseja ver ou rever os filmes deste excelente diretor em cópias de 35mm (com exceção do média metragem IMPRINT, que será exibido em Beta Digital), a preços módicos.

Acessem o site da mostra e vejam a programação, não percam esta oportunidade de conferir os delírios visuais de Miike com a melhor imagem possível! Veja o site da mostra AQUI.

OBS: Dia 27 de Agosto ocorrerá a pré-estréia nacional do mais novo filme do cineasta, ICHIMEI, com exibição em 3D no Cinemark do Shopping Metrô Santa Cruz (somente esta sessão terá cobrança de ingresso convencional com a tabela de preços do local). Após a sessão, ocorrerá uma vídeo conferência via Skype com Miike.

CROWS ZERO (Takashi miike – 2007)

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Mais uma resenha do Batata:

CROWS ZERO é baseado no mangá Crows, escrito por Hiroshi Takahashi, mas na verdade o filme é um prequel da história.

A trama se passa na Escola Suzuran, onde estudam apenas rapazes arruaceiros e briguentos, que querem dominar a escola através dos punhos. O aluno com mais chances de chegar ao topo da liderança é Tamao Serizawa (Takayuki Yamada), do terceiro ano; mas eis que aparece um aluno transferido chamado Takiya Genji (Shun Oguri), disposto a superar Serizawa e dominar Suzuran. Genji acaba tendo a ajuda de um yakuza chamado Ken Katagiri (Kyosuke Yabe), que fica impressionado com suas habilidades e tem alguns problemas com Serizawa. Esse por sua vez, tem como maior aliado Tokio Tatsukawa (Kenta Kiritani), que era amigo de infância de Genji.

A própria escola acaba por se tornar um personagem da trama, e nela encontram-se várias subdivisões, cada uma com seu líder próprio, e Genji e Serizawa trabalham para recrutar esses pequenos grupos para que se tornem cada vez mais fortes para a luta final. Destaque para Hideto Bandou (Hiroshi Watanabe), do segundo ano, que lidera uma gangue de motociclistas; para o persistente Takashi Makise (Tsutomu Takahashi) e para o misterioso Rindaman.

O filme é cheio de lutas a todo o momento, mas não são lutas ao estilo filmes de Kung Fu: na verdade elas parecem mais brigas de rua bem coreografadas. O que pode faltar em técnica, sobra em brutalidade e hematomas nos personagens. Apesar disso, Genji tem que aprender novos métodos para recrutar alunos além da força bruta, ele tem que aprender a merecer lealdade. Cabe dizer que boa parte da vontade de Genji comandar Suzuran vem do fato de ele ser filho de um chefe da Yakuza.

Apesar da brutalidade, nota-se que Takashi Miike produziu um filme para adolescentes, sendo assim, tem aquele toque de romance chato e aquela música melosa obrigatória que faz você pensar “por que transformar o filme em um videoclipe?”. O clima anime e mangá também está presente a todo o momento, desde a caracterização e movimentos dos personagens, até aquela velha história daquele que apanha mas não desiste nunca. Pra vocês terem uma idéia, o filme tem até uma abertura, como se fosse um seriado!

Apesar de jovens, os atores são bastante experientes. Entre outros, Shun Oguri interpretou o personagem Akira em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Nachi em AZUMI, Ginkaku em AZUMI 2 e Kazuya em ALMAS REENCARNADAS. Takayuki Yamada interpreta Shinrouko em 13 ASSASSINS, também de Takashi Miike, e está na versão Live Action do mangá e anime Gantz.

O filme ainda rendeu uma continuação, CROWS ZERO II, com o mesmo elenco, também de Takashi Miike. Existe o anime Crows One, uma série spin-off chamada Worst, e também rumores de um possível CROWS ZERO III, que não deve ser difícil, considerando que o segundo filme ficou várias semanas nos Top 10 de mais vistos no Japão. Se por acaso o terceiro filme vier a ser feito, provavelmente o elenco não será mantido, já que os alunos se formaram em Suzuran no segundo filme.

Escrito por Renato Ramos Batarce.

DEADLY OUTLAW REKKA (Takashi Miike – 2002)

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Takashi Miike começou sua carreira como diretor filmando histórias sobre a Yakuza, a máfia japonesa. Com filmes de baixo orçamento, Miike fez sua fama no mercado japonês com produções lançadas diretamente para o vídeo, contando pequenas histórias sobre o cotidiano dos membros da organização criminosa: traição, vingança e brutalidade se misturam à visão singular de ética e companheirismo dos truculentos protagonistas destas obras.

Filmes sobre a vida destes fora-da-lei constituem um verdadeiro gênero na cinematografia nipônica, dentre estas obras podemos destacar clássicos de diretores renomados, como GRAVEYARD OF HONOR e a cine série THE YAKUZA PAPERS de Kinji Fukasaku, TOKYO DRIFTER e BRANDED TO KILL de Seijun Suzuki, e tantos outros…

Cada vez mais, Miike foi desenvolvendo um estilo próprio ao contar estas histórias, afastando-se do lugar comum destas produções, rompendo barreiras estéticas e narrativas.

Sou suspeito para falar destas qualidades em Miike, há quem ache suas inovações pura apelação, fogos de artifício para ludibriar uma suposta falta de conteúdo ou coerência em seus roteiros, e há aqueles que, como eu, enxergam verdadeiras obras de arte em seus devaneios cinematográficos.

O filme começa com a excelente trilha sonora da banda japonesa Flower Travelling Band, intercalando cenas de ação com takes em que o protagonista, um jovem mafioso chamado Kunisada (Riki Takeuchi, um dos atores mais utilizados por Miike em seus filmes), está sendo interrogado em uma delegacia. Nesta montagem inicial o líder do clã de Kunisada, Sanada, é morto em uma emboscada, e mesmo estando em locais diferentes , pupilo e mestre parecem partilhar de um forte vínculo psíquico, uma vez que Kunisada enlouquece ao sentir a morte de seu chefe, que considera como um pai.

Após ser liberado da delegacia, Kunisada reúne seus homens de confiança e planeja vingança contra quem matou seu chefe. É claro que se tratando de uma história sobre a Yakuza, ocorrerão reviravoltas até que se encontre o verdadeiro culpado pela morte de Sanada.

Destaco a atuação de Riki Takeuchi, que embora seja propositalmente over nesse filme (com caretas medonhas), sempre cai como uma luva nos papéis oferecidos por Miike em seus filmes. Takeuchi não é propriamente um estereótipo de cara durão: é meio bochechudo, vesgo e usa um topete que o faz parecer com um daqueles imitadores de Elvis que abundam no Japão. É até estranho que se saia bem atuando como hitman da Yakuza, mas a minha opinião é que ele sempre acaba sendo convincente na pele de um assassino frio e ensandecido. Outras duas figurinhas carimbadas das produções de Miike dão as caras em papéis de apoio: Kenichi Endo (protagonista de VISITOR Q), como melhor amigo de Kunisada e Renji Ishibashi, que mais uma vez interpreta um chefe veterano da organização criminosa. Sonny Chiba (o eterno Takuma Tsurugi da trilogia THE STREET FIGHTER) também faz uma ponta na produção. Em tempo: Sanada é interpretado por Yuya Uchida, veterano cantor e produtor musical, que já trabalhou com a banda responsável pela excelente trilha sonora do filme, a já citada Flower Travelling Band.

Em meio às investigações, Kunisada e seu melhor amigo se apaixonam por duas garotas coreanas, e passam a ser caçados por dois outros assassinos contratados pelas famílias rivais.

O filme não é tão violento quanto alguns trabalhos anteriores de Miike, como ICHI THE KILLER e o primeiro filme da trilogia DEAD OR ALIVE, nem tão surreal quanto FULL METAL YAKUZA ou GOZU, mas estamos falando de um diretor que não tem o menor pudor em colocar um lança mísseis nas mãos de um de seus personagens no centro comercial de Tokyo, como se essa fosse uma alternativa comum na hora de matar seus desafetos em público.

O embate final entre a dupla que busca vingança e os assassinos contratados para dar cabo deles é impressionante: a quantidade de tiros e a locação do duelo me fizeram lembrar imediatamente do final de ROBOCOP, de Paul Verhoeven, uma das influências confessas de Miike. Sem contar que um dos personagens empunha a metralhadora mais insana que já vi.

O desfecho é surpreendente, seguido de uma emocionante canção durante os créditos, enquanto o destino dos personagens é mostrado ao espectador, resultando na mais bela sequência do filme.

DEADLY OUTLAW REKKA não é uma das obras mais comentadas de Miike, mas com certeza é  uma de minhas preferidas.

THE CITY OF LOST SOULS (Takashi Miike – 2000)

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E o Batata abre o mês de Maio dando continuidade à nossa homenagem ao cineasta Takashi Miike, com uma resenha sobre THE CITY OF LOST SOULS:

Em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Miike optou por fazer um filme com atores japoneses todo falado em inglês, em um sotaque muito evidente. Em THE CITY OF LOST SOULS é a vez dos brasileiros experimentarem o sotaque oriental falando nossa língua oficial.

THE CITY OF LOST SOULS é um filme de ação, que conta a história do brasileiro Mário (Teah), e da chinesa Kei (Michelle Reis), que vivem no Japão. Com toda essa mistura, quase metade do filme é falado em português, metade falado em japonês, e um pouquinho de chinês (isso sem contar o personagem russo), o que torna a obra uma celebração à convivência de culturas e à miscigenação.

O caso é que o português falado por atores estrangeiros (posso estar enganado, mas ao que parece são apenas dois brasileiros de verdade no filme) é realmente muito ruim, tanto que precisei assistir aos diálogos com legendas. Se isso é um problema ou não, depende mais da pessoa que está assistindo, mas se dermos uma boa olhada no histórico de Takashi Miike, é de se presumir que esse defeito tenha sido proposital. Ironicamente, a atriz chinesa Michelle Reis, que nasceu em Macau, uma colônia portuguesa, tem pai português e mãe chinesa, não diz uma palavra em português no filme.

Algumas pessoas podem não gostar da visão do bairro brasileiro de Miike, podem achar estereotipado, com o povo sambando, bebendo e chamando as mulheres de gostosas (além de em certo momento ter uma cena de luta com capoeira), mas sejamos francos, existem diretores brasileiros que exibem cenas como essa de forma bem mais evidente. Vejamos o lado bom, pelo menos os brasileiros no filme não falam espanhol.

O início do filme é bombástico. Em nenhum momento Miike se preocupa em mostrar como o casal de protagonistas se conheceu, ou algo do seu passado; ele preferiu começar do meio da história, com Mário resgatando Kei de ser deportada do Japão, em uma cena de ação energética e exagerada, bem ao estilo John Woo. Após o resgate, o casal é encontrado por Ko, um gangster chinês apaixonado por Kei, que tem negócios no Japão envolvendo drogas. A trama toma seu rumo quando Mário, Kei, Carlos (Atsushi Okuno) e Ricardo (Sebastian DeVicente) resolvem se intrometer nesses negócios.

A trama é bem básica, mas é conduzida de forma energética, e possui personagens interessantes que vão sendo introduzidos calmamente e se encaixando na história. O filme pode estar no meio e ainda não foram apresentados todos os principais personagens. Além disso, o filme conta com vários toques “Miikeanos”, que dão aquele toque especial, como cabeças em chamas, personagens que saltam de enormes alturas sem se ferir, e a famosa briga de galos porcamente computadorizados à la MATRIX.

Hora de dar nome aos bois: o brasileiro Mário é interpretado pelo ator japonês Teah (que foi abrasileirado no filme, ficando com pele morena e cabelos encaracolados e mullets), e participou dos filmes IZO, DEAD OR ALIVE 2: TOBOSHA, e também do prequel de ICHI THE KILLER, o filme 1 ICHI. Michelle Reis começou a carreira como modelo, mas depois se tornou uma atriz famosa na China, atuando em filmes como SWORDMAN 2 (1991), DRUNKEN MASTER 3 (1994) e FALLEN ANGELS (1995). O elenco conta também com o ator chinês Terence Yin, famoso por diversos filmes como BLACK MASK 2: CITY OF MASKS (2002), DEAD OR ALIVE: FINAL (2002) e NEW POLICE STORY (2004). Os atores brasileiros são Sebastian DeVicente, que interpreta Ricardo, e Márcio Rosario (que já fez diversos trabalhos em séries, novelas e filmes, tanto nacionais quanto internacionais), que interpreta Sanchez, o apresentador da TV Piranha. Por último, Lúcia, a prostituta e ex-caso amoroso de Mário é interpretada pela atriz mexicana Patrícia Manterola.

Ah, não deixem de assistir às cenas que passam durante os créditos do filme, pois elas mostram o destino de dois personagens coadjuvantes.

Escrito por Renato Batarce.

Cinema de Bordas – 3ª edição

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Começa hoje a 3ª edição da mostra Cinema de Bordas no Itaú Cultural, uma ótima oportunidade para os cinéfilos paulistas prestigiarem o trabalho de realizadores independentes brasileiros. Este ano teremos a exibição de 18 obras, entre curtas e médias, contando tanto com filmes recentes quanto com alguns mais antigos.

Na noite de abertura da mostra será apresentada uma prévia de A NOITE DO CHUPACABRAS, o tão aguardado novo filme de Rodrigo Aragão, diretor do já clássico MANGUE NEGRO (apresentado na 1ª edição da mostra, em 2009) e os novos curtas de Joel Caetano e Coffin Souza, ESTRANHA e A PAIXÃO DOS MORTOS, respectivamente; este último estrelado pela nova musa do underground nacional, Gisele Ferran.

Serão exibidos também EXTREMA UNÇÃO, novo curta de Felipe M. Guerra, e o mais recente  filme de Petter Baiestorf , O DOCE AVANÇO DA FACA. Como já é de costume, haverá palestra com os curadores Bernadette Lyra, Gelson Santana e Laura Cánepa no primeiro dia do evento, e também bate-papos com alguns dos diretores ao longo da mostra.

Destaco também na seleção os filmes ROQUÍ – O BOXEADOR DA AMAZÔNIA, de Renato Dib, estrelando Aldenir Coti, mais conhecido como “Rambo da Amazônia”, astro da série de filmes RAMBÚ, e os mais antigos MUSEU DE CERA, de Pedro Daldegan e O LOBISOMEM DA PEDRA BRANCA, de José Denísio Pereira, ambos da década de 80, que parecem muito interessantes.

Enfim, diversão garantida para quem gosta de fugir do lugar comum e aprecia o ótimo cinema independente brasileiro.

O Itaú Cultural fica situado na Av. Paulista, 149 (próximo à estação Brigadeiro do metrô). Entrada franca. Vejam a programação completa AQUI.

Entrevista com Petter Baiestorf

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É com grande prazer que publico agora no blog nossa primeira entrevista, feita neste fim de semana com o gênio do cinema trash/exploitation nacional, o catarinense Petter Baiestorf. Apesar de muitos de seus filmes terem se tornado verdadeiros clássicos do cinema underground ao longo de quase duas décadas de trabalho na Canibal Filmes, suas obras até hoje são produzidas e distribuídas de forma totalmente independente.

Para os que ainda não conhecem o diretor, recomendo a leitura do blog Canibuk, atualizado por Baiestorf e Leyla Buk constantemente, com notícias sobre seus novos projetos e uma tonelada de informações sobre os mais diversos assuntos ligados à arte, música, literatura e cinema. Leiam também uma ótima matéria sobre a história da Canibal Filmes AQUI, e claro, comprem seus filmes no site da Bulhorgia Produções!

Agora vamos à entrevista:

Como você definiria seu trabalho como diretor?

Baiestorf: Nunca paro prá pensar nisso na verdade. Faço vários estilos de filmes porque não gosto de ficar preso em um único gênero na verdade. Faço vídeo poesia, filmes surrealistas, projetos experimentais, trash-movies, gore movies e filmes mais eróticos, quando não misturo tudo isso numa mesma produção! Sempre acredito em evoluir no que tu quer dizer ao público, então se pegar meus filmes de 18 anos atrás, tu vai ver que continuo desenvolvendo uma temática anarquista. É uma espécie de cinema autoral sem levar à sério a palavra autoral, porque quando cara começa a se levar à sério é o começo do fim!

Quais são suas maiores influências cinematográficas?

Baiestorf: Comecei a fazer por causa do cinema vagabundo mundial que me foi bombardeado na infância, produções brasileiras, mexicanas, italianas, chinesas e americanas. Dois filmes foram diretamente responsáveis por eu querer começar a fazer filmes: “The Incredible Melting Man” e “Ultimo Mondo Cannibale”. Um diretor também foi responsável por eu querer fazer filmes, isso já lá pelos 14 anos de idade, 1988, quando tomei conhecimento das idéias de John Waters. Logo depois que comecei a fazer filmes no ano de 1992, na seqüência, comecei a tomar contato com diretores interessantes como George Kuchar, Koji Wakamatsu, Dusan Makavejev, Jodorowsky. Não faço filmes na linha deles, mas suas idéias de cinema tem muita influência quando realizo minhas produções caseiras com amigos. Acho que cinema/vídeo não podem ser apenas diversão, tem que ser diversão mas também trazer alguma pergunta (trazer perguntas, não respostas) e fazer o expectador pensar. Tenho consigo isso com minhas produções.

Qual, dentre os filmes que você já fez, é o seu preferido? Em qual deles você acha que se saiu melhor como diretor?

Baiestorf: Não tenho filme preferido, todos os meus filmes representam uma pequena parte da minha vida, são coisas que tinham que sair de dentro de mim, depois que saiu é do mundo, ficam rodando por tudo que é lugar que aceite exibi-los. E as vezes me surpreende filmes que fiz lá por 1996, sendo exibidos ainda em mostras junto de filmes recentes, acho que são filmes caseiros que permaneceram na mente das pessoas, talvez justamente por serem filmes que fazem as pessoas pensarem. Filmo rápido demais, são tantos projetos por ano que nem rola tempo de me apegar à um filme!

Você diz que não gosta de ZOMBIO, pois ele não tem sua “marca”, porém este é justamente um dos filmes de maior repercussão da Canibal Filmes. A que você atribui isso?

Baiestorf: Porque “Zombio” é um dos únicos filme que fiz que é sessão livre e mais adolescente, ele não ofende e é fácil de ser compreendido. Por isso que 13 anos após ter sido lançado continua sendo visto, continua “popular” entre o pessoal que gosta de filmes de baixo orçamento. Em 2007 eu re-lancei “Zombio” em alguns cinemas aqui do sul prá fazer Double feature com o recém lançado “Arrombada” e pessoal continua curtindo ele. É gratificante um filme continuar sendo assistido, mas acho ele tão bobinho!

Fale um pouco de seus projetos futuros. Como serão estas filmagens com o Felipe M. Guerra na Páscoa?

Baiestorf: O projeto “Páscoa Sarnenta” é o seguinte: Felipe Guerra me procurou querendo fazer um documentário sobre “como fazer um filme de baixo orçamento filmado em 3 dias” e aceitei no ato. Só que como sou um sem noção completo, resolvi aumentar o desafio e fazer 4 filmes em 3 noites e 2 dias de filmagens, enquanto ele documenta todo esse processo de filmagens alucinantes, vou fazer 3 curtas, “Pampa’Migo”, “O Monstro Espacial” e “Filme Político Número Um” e num ato de metalinguagem total, vou fazer um documentário do Felipe Guerra documentando tudo, Se eu falhar estará tudo registrado num documentário para todos aprenderem como Não Fazer um filme de baixo orçamento.

Você escreveu em seu blog que tem vontade de refilmar alguns de seus trabalhos antigos. Dentre os filmes que você mencionou, NINGUÉM DEVE MORRER é o mais recente. O que você sente que precisa ser mudado nele?

Baiestorf: Pretendo sim refilmar de maneira profissional o “Ninguém Deve Morrer”. Quando comecei a escrever este filme eu tinha uma idéia prá um filme de longa-metragem, desenvolvendo melhor as personagens todas, era muito mais insano e surreal do que aquilo apresentado na tela. Minha idéia é refazê-lo com um orçamento maior, equipe técnica profissional e várias outras mudanças. Primeiro que nas minhas pesquisas musicais para a trilha sonora deste filme, encontrei muitas músicas que eu gostaria de ter usado nele e não foi possível quando comecei a cortar idéias para adequá-lo nos 30 minutos que ele e quero comprar essas músicas que usei para não ter problemas de direitos autorais, só com grana minha é impossível isso. Muita idéia boa ficou de fora, várias personagens que eu queria desenvolver ficaram de fora. Todo um bordel com putas dançarinas ficou de fora. Sem contar que eu tinha apenas 6 mil reais de orçamento e apenas 5 dias para filmá-lo. Foi insano as filmagens, filmar uma média de 8 seqüências completas por dia é tarefa ingrata, precisava de mais tempo para filmar tudo como deveria ter sido filmado, para mim o “Ninguém Deve Morrer” que fiz em 2009 é um esboço de um projeto muito maior. Mas não tinha dinheiro para manter a equipe reunida por mais do que 5 dias, então, por enquanto, é este o filme que consegui fazer com o material que tinha nas mãos.

(Assistam ao filme NINGUÉM DEVE MORRER completo no Youtube – Partes 01, 02 e 03)

A meu ver, ARROMBADA – VOU MIJAR NA PORRA DO SEU TÚMULO!!!!, VADIAS DO SEXO SANGRENTO e O DOCE AVANÇO DA FACA formam a mais nova trilogia do cinema de gênero no Brasil. Pretende continuar nesta veia Sexploitation com suas novas produções?

Baiestorf: Sim, eu faço sexploitations alternados por filmes experimentais desde 1996 (meus projetos entre 1992 e 1995 foram filmes que pertencem mais ao universo trash das Sci-Fi americanas) e esses 3 títulos que tu mencionou são parte de uma série que vai ter mais de 20 filmes carregados de violência e sexo que pretendo desenvolver nesta próxima década. Acredite, vários outros filmes extremamente exagerados estão por vir, tenho uns 8 filmes já escritos prá essa série e a cada novo título a coisa vai ficar mais divertida e insana.

Li em seu blog que ZOMBIO deveria ter sido um filme totalmente diferente (ainda mais insano do que é), ainda pretende levar o roteiro original às telas?

Baiestorf: Porra, “Zombio” eu vou refilmar também qualquer dia desses prá filmar a idéia original que eu tinha na época das filmagens. Ele foi uma sucessão de problemas de orçamento e de dias para filmar. “Zombio” a gente filmou todo ele em 4 dias e com menos de mil reais. Eu dormia 2 horas por dia, re-escrevia todo material que ia filmar poucas horas antes de filmar. Tive que cortar todas as ações que se passariam numa aldeia de pescadores porque nosso orçamento não permitiu construir a aldeia. Rolou várias discussões entre pessoal da equipe-técnica por causa do stress e cansaço, as condições de filmagem não eram as ideais. O interessante do “Zombio” é que saíram inúmeras produções de temática zumbis aqui no Brasil nos últimos anos e ele foi exibido em todas as mostras que exibiam essas novas produções. Achei isso bem legal!

Sente vontade de filmar novamente com VHS?  Desconsiderando o preço absurdo, já teve vontade de filmar com película?

Baiestorf: Não prá duas perguntas. Filmei em VHS porque quando comecei era o que tinha. E filmar em película não é viável para produtores independentes, não há essa necessidade.

O que você acha da censura em alguns de seus filmes para exibição em mostras e festivais?

Baiestorf: Quanto a censura, vejo que não preciso de ditadura militar prá ser censurado em quase tudo que é lugar. Nem quero falar sobre isso, mas ser censurado, ter cenas cortadas dos filmes para que possam ser exibidos em alguns lugares é algo deprimente. Acho que o público adulto deve escolher o que quer ver e que os filmes passem inteiros, sem cortes. Se o filme é uma merda o espectador abandona a sala de exibição, não precisa de censura!

Eu particularmente gosto muito de média-metragens. Qual o formato que você acredita que funciona melhor para seus filmes e para produções independentes/experimentais em geral?

Baiestorf: Acho que cada filme, cada produção, cada projeto acaba definindo seu tamanho. Gosto bastante de fazer curta-metragens e média-metragens (apesar de já ter feito 13 longas). Para a Canibal Filmes o formato que melhor funciona são os médias, filmes entre 30 e 50 minutos. O último longa que fiz foi em 2006, estou querendo voltar ao formato longa-metragem com algum projeto mais profissional e com orçamento maior. Se essas tentativas de filmar mais profissionais darem em nada vou trazer de volta umas idéias antigas prá um longa-metragem existencial que eu ia fazer nos anos 90 e acabei deixando de lado. Este longa existencial vai ser em ritmo lento, mais haver com filmes que fiz nos anos 90 do que os filmes que estou fazendo agora.

Você aceitaria trabalhar com um grande estúdio, sem restrições no orçamento, porém sem exageros na violência, gore e nudez, para poder se adequar a uma classificação etária mais branda?

Baiestorf: Não vou responder isso. É uma pergunta hipotética demais. Sei que vou filmar uma série de sexploitations com grana do meu bolso e temáticas ofensivas e exageradas. Isso é fato!

Qual a posição que você acredita que a Canibal Filmes possui em relação ao cenário cinematográfico nacional? Você sente que tem o reconhecimento que merece?

Baiestorf: Nunca pensei nisso, qual seria a posição da Canibal Filmes no cenário cinematográfico brasileiro. Acho que isso apenas o tempo vai responder, ainda é cedo demais prá pensar nisso. Eu tento dar continuidade ao tipo de cinema ofensivo que era feito na Boca do Lixo paulista misturando os anos 60 do cinema Marginal com os anos 80 do cinema mais pornográfico sem limites que se fazia lá. Talvez o papel da Canibal Filmes seja influenciar o surgimento de jovens cineastas independentes e desses jovens cineastas independentes pode surgir várias cabeças com idéias realmente novas. Talvez minha maior contribuição ao cinema nacional foi de acabar com essa idéia que cineasta brasileiro é um ser especial, intocável. Fodam-se os mitos, qualquer imbecil com uma filmadora faz um filme e sou um exemplo perfeito disso!

Qual o conselho que você daria para quem começa agora a fazer cinema independente?

Baiestorf: Seguinte: Menos teoria e mais filmes. Menos ego e mais apoio-mútuo. E sejam agressivos, façam filmes sujos, filmes que tenham o que dizer, filmes suados que desagradem, que causem estranheza no espectador, não tenham medo de ofender.

Deixe uma mensagem para quem acompanha seus filmes:

Baiestorf: Estudem prá caralho, estudem tudo que vocês conseguirem colocar as mãos. Precisamos de uma nova geração menos preguiçosa. Não tenham preguiça de aprender. Exercitem a mente e duvidem de tudo, Não existem mestres, não existem deuses, você é capaz de fazer tudo que quiser. Persiga seus sonhos!!!

Assistam abaixo ao trailer de ZOMBIO, e ao documentário BAIESTORF: FILMES DE SANGUEIRA E MULHER PELADA de 2004, filmado em Porto Alegre por Christian Caselli, durante o festival CineEsquemaNovo:

IZO (Takashi Miike – 2004)

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Para os leitores do blog e fãs de Takashi Miike, segue um texto do Batata sobre um dos mais densos e impressionantes filmes do mestre, o belo e sanguinário IZO:

IZO é uma experiência cinematográfica totalmente surreal e experimental.

O protagonista é baseado no personagem histórico real Okada Izo, um samurai assassino do período do Bakumatsu. Já apareceu em várias outras obras de diferentes mídias, como por exemplo, o assassino Udo Jun-ei do mangá Rurouni Kenshin foi baseado em Okada Izo.

A história do filme começa com a morte de Izo. Ele é crucificado (no primeiro de vários simbolismos religiosos) após anos de assassinato sob as ordens de um senhor feudal. Como toda a vida de Izo foi baseada em morte e violência extrema, seu espírito não consegue entrar nem no inferno, nem tampouco no céu, então começa a vagar e matar quem estiver no seu caminho, perturbando a ordem da existência.

Enquanto Izo prossegue seu caminho de matança, existe um grupo de pessoas que sabe de cada um de seus passos e se preocupa com os danos que o espírito vem causando. Esse grupo é divido entre sacerdotes (Religião), e políticos (Estado). Durante toda a história, as pessoas têm seguido as regras ditadas por essas duas instituições e sido governadas por elas, por isso que, independente da época que Izo se encontra, eles sempre estão sabendo de suas ações, já que o poder deles é atemporal. O filme reflete sobre o poder exercido sobre o indíviduo, como por exemplo, na frase dita por crianças na escola: “nação é um delírio maléfico só existente nas mentes humanas; uma noção imaginária de falsidade que existe apenas para controlar e governar pessoas que instintivamente se aglomeram em bandos.”

Izo é a representação da violência e da marginalização, por isso não segue nenhuma das regras políticas, religiosas ou morais. Sendo assim, não importa se são sacerdotes, polícia, gangues, assassinos, inocentes ou crianças, todos são abatidos sem piedade. Como espírito, Izo é aquilo que se tornou e nada mais, é a representação de tudo que conheceu em suas experiências em vida. Izo é o espírito do caos, contra qualquer tipo de ordem. Seu caminho é nada mais nada menos que violência cíclica e sem fim, mas em determinado momento ele se opõe até mesmo a isso, se negando a aceitar seu carma.

Os atos de crueldade de um indivíduo causam grandes deformações ao espírito, então quanto mais destruição é causada por Izo, mais seu corpo se modifica, até que ele se transforma em uma figura praticamente demoníaca.

Cada cena possui reflexões próprias, com frases existencialistas, filosóficas, políticas e poéticas muito inspiradas, ditas pelos diversos personagens. Além dos adversários, um espírito feminino acompanha Izo em parte de sua jornada, mas quem causa mais impacto é o homem com violão que de repente surge em muitas cenas, cantando poesias belíssimas, cheias de sentimento, metendo a mão no instrumento. Miike valoriza essas performances do músico Kazuki Tomokawa (também conhecido como “O Filósofo Gritante”), reservando para ele momentos algumas vezes bem longos até, para que o mesmo se expresse, aumentando o impacto emocional do filme.

Além do músico, o elenco de Izo ainda conta com o artista plástico Kazuya Nakayama como o personagem título, Kaori Momoi (de SUKIYAKI WESTERN DJANGO), o sensacional Takeshi Kitano (ZATOICHI, BATTLE ROYALE 1 e 2 e JHONNY MNEMONIC, só pra citar alguns), e a participação especial do lutador Bob Sapp (tomando um coro, como sempre).

Takashi Miike produz um filme pesado, de difícil absorção ao grande público devido à sua trama sem linearidade, e matança atrás de matança em seus 128 minutos. O diretor mostra grande habilidade ao conduzir essa trama de forma ágil, mesclando também várias imagens de arquivo sobre violência e guerra durante a história. Como uma trama surreal, o principal não é encontrar sentido, mas deixar-se levar pelos pensamentos e sentimentos que as frases, sons e imagens causam a cada um.

Diz a lenda, que esse projeto surgiu da frustração de Miike perante a baixa aceitação de Gozu por público e crítica. Sendo isso verdade ou não, esse filme é praticamente uma poesia em movimento, e deve ser visto por quem acha que Takashi Miike não passa de um diretor maluco que apenas produz filmes de ultraviolência estilizada (como Robert Rodriguez). Mesmo grandes fãs do diretor podem se surpreender, eu me surpreendi.

Escrito por Renato Batarce.

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