Takashi Miike começou sua carreira como diretor filmando histórias sobre a Yakuza, a máfia japonesa. Com filmes de baixo orçamento, Miike fez sua fama no mercado japonês com produções lançadas diretamente para o vídeo, contando pequenas histórias sobre o cotidiano dos membros da organização criminosa: traição, vingança e brutalidade se misturam à visão singular de ética e companheirismo dos truculentos protagonistas destas obras.

Filmes sobre a vida destes fora-da-lei constituem um verdadeiro gênero na cinematografia nipônica, dentre estas obras podemos destacar clássicos de diretores renomados, como GRAVEYARD OF HONOR e a cine série THE YAKUZA PAPERS de Kinji Fukasaku, TOKYO DRIFTER e BRANDED TO KILL de Seijun Suzuki, e tantos outros…

Cada vez mais, Miike foi desenvolvendo um estilo próprio ao contar estas histórias, afastando-se do lugar comum destas produções, rompendo barreiras estéticas e narrativas.

Sou suspeito para falar destas qualidades em Miike, há quem ache suas inovações pura apelação, fogos de artifício para ludibriar uma suposta falta de conteúdo ou coerência em seus roteiros, e há aqueles que, como eu, enxergam verdadeiras obras de arte em seus devaneios cinematográficos.

O filme começa com a excelente trilha sonora da banda japonesa Flower Travelling Band, intercalando cenas de ação com takes em que o protagonista, um jovem mafioso chamado Kunisada (Riki Takeuchi, um dos atores mais utilizados por Miike em seus filmes), está sendo interrogado em uma delegacia. Nesta montagem inicial o líder do clã de Kunisada, Sanada, é morto em uma emboscada, e mesmo estando em locais diferentes , pupilo e mestre parecem partilhar de um forte vínculo psíquico, uma vez que Kunisada enlouquece ao sentir a morte de seu chefe, que considera como um pai.

Após ser liberado da delegacia, Kunisada reúne seus homens de confiança e planeja vingança contra quem matou seu chefe. É claro que se tratando de uma história sobre a Yakuza, ocorrerão reviravoltas até que se encontre o verdadeiro culpado pela morte de Sanada.

Destaco a atuação de Riki Takeuchi, que embora seja propositalmente over nesse filme (com caretas medonhas), sempre cai como uma luva nos papéis oferecidos por Miike em seus filmes. Takeuchi não é propriamente um estereótipo de cara durão: é meio bochechudo, vesgo e usa um topete que o faz parecer com um daqueles imitadores de Elvis que abundam no Japão. É até estranho que se saia bem atuando como hitman da Yakuza, mas a minha opinião é que ele sempre acaba sendo convincente na pele de um assassino frio e ensandecido. Outras duas figurinhas carimbadas das produções de Miike dão as caras em papéis de apoio: Kenichi Endo (protagonista de VISITOR Q), como melhor amigo de Kunisada e Renji Ishibashi, que mais uma vez interpreta um chefe veterano da organização criminosa. Sonny Chiba (o eterno Takuma Tsurugi da trilogia THE STREET FIGHTER) também faz uma ponta na produção. Em tempo: Sanada é interpretado por Yuya Uchida, veterano cantor e produtor musical, que já trabalhou com a banda responsável pela excelente trilha sonora do filme, a já citada Flower Travelling Band.

Em meio às investigações, Kunisada e seu melhor amigo se apaixonam por duas garotas coreanas, e passam a ser caçados por dois outros assassinos contratados pelas famílias rivais.

O filme não é tão violento quanto alguns trabalhos anteriores de Miike, como ICHI THE KILLER e o primeiro filme da trilogia DEAD OR ALIVE, nem tão surreal quanto FULL METAL YAKUZA ou GOZU, mas estamos falando de um diretor que não tem o menor pudor em colocar um lança mísseis nas mãos de um de seus personagens no centro comercial de Tokyo, como se essa fosse uma alternativa comum na hora de matar seus desafetos em público.

O embate final entre a dupla que busca vingança e os assassinos contratados para dar cabo deles é impressionante: a quantidade de tiros e a locação do duelo me fizeram lembrar imediatamente do final de ROBOCOP, de Paul Verhoeven, uma das influências confessas de Miike. Sem contar que um dos personagens empunha a metralhadora mais insana que já vi.

O desfecho é surpreendente, seguido de uma emocionante canção durante os créditos, enquanto o destino dos personagens é mostrado ao espectador, resultando na mais bela sequência do filme.

DEADLY OUTLAW REKKA não é uma das obras mais comentadas de Miike, mas com certeza é  uma de minhas preferidas.