E o Batata abre o mês de Maio dando continuidade à nossa homenagem ao cineasta Takashi Miike, com uma resenha sobre THE CITY OF LOST SOULS:

Em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Miike optou por fazer um filme com atores japoneses todo falado em inglês, em um sotaque muito evidente. Em THE CITY OF LOST SOULS é a vez dos brasileiros experimentarem o sotaque oriental falando nossa língua oficial.

THE CITY OF LOST SOULS é um filme de ação, que conta a história do brasileiro Mário (Teah), e da chinesa Kei (Michelle Reis), que vivem no Japão. Com toda essa mistura, quase metade do filme é falado em português, metade falado em japonês, e um pouquinho de chinês (isso sem contar o personagem russo), o que torna a obra uma celebração à convivência de culturas e à miscigenação.

O caso é que o português falado por atores estrangeiros (posso estar enganado, mas ao que parece são apenas dois brasileiros de verdade no filme) é realmente muito ruim, tanto que precisei assistir aos diálogos com legendas. Se isso é um problema ou não, depende mais da pessoa que está assistindo, mas se dermos uma boa olhada no histórico de Takashi Miike, é de se presumir que esse defeito tenha sido proposital. Ironicamente, a atriz chinesa Michelle Reis, que nasceu em Macau, uma colônia portuguesa, tem pai português e mãe chinesa, não diz uma palavra em português no filme.

Algumas pessoas podem não gostar da visão do bairro brasileiro de Miike, podem achar estereotipado, com o povo sambando, bebendo e chamando as mulheres de gostosas (além de em certo momento ter uma cena de luta com capoeira), mas sejamos francos, existem diretores brasileiros que exibem cenas como essa de forma bem mais evidente. Vejamos o lado bom, pelo menos os brasileiros no filme não falam espanhol.

O início do filme é bombástico. Em nenhum momento Miike se preocupa em mostrar como o casal de protagonistas se conheceu, ou algo do seu passado; ele preferiu começar do meio da história, com Mário resgatando Kei de ser deportada do Japão, em uma cena de ação energética e exagerada, bem ao estilo John Woo. Após o resgate, o casal é encontrado por Ko, um gangster chinês apaixonado por Kei, que tem negócios no Japão envolvendo drogas. A trama toma seu rumo quando Mário, Kei, Carlos (Atsushi Okuno) e Ricardo (Sebastian DeVicente) resolvem se intrometer nesses negócios.

A trama é bem básica, mas é conduzida de forma energética, e possui personagens interessantes que vão sendo introduzidos calmamente e se encaixando na história. O filme pode estar no meio e ainda não foram apresentados todos os principais personagens. Além disso, o filme conta com vários toques “Miikeanos”, que dão aquele toque especial, como cabeças em chamas, personagens que saltam de enormes alturas sem se ferir, e a famosa briga de galos porcamente computadorizados à la MATRIX.

Hora de dar nome aos bois: o brasileiro Mário é interpretado pelo ator japonês Teah (que foi abrasileirado no filme, ficando com pele morena e cabelos encaracolados e mullets), e participou dos filmes IZO, DEAD OR ALIVE 2: TOBOSHA, e também do prequel de ICHI THE KILLER, o filme 1 ICHI. Michelle Reis começou a carreira como modelo, mas depois se tornou uma atriz famosa na China, atuando em filmes como SWORDMAN 2 (1991), DRUNKEN MASTER 3 (1994) e FALLEN ANGELS (1995). O elenco conta também com o ator chinês Terence Yin, famoso por diversos filmes como BLACK MASK 2: CITY OF MASKS (2002), DEAD OR ALIVE: FINAL (2002) e NEW POLICE STORY (2004). Os atores brasileiros são Sebastian DeVicente, que interpreta Ricardo, e Márcio Rosario (que já fez diversos trabalhos em séries, novelas e filmes, tanto nacionais quanto internacionais), que interpreta Sanchez, o apresentador da TV Piranha. Por último, Lúcia, a prostituta e ex-caso amoroso de Mário é interpretada pela atriz mexicana Patrícia Manterola.

Ah, não deixem de assistir às cenas que passam durante os créditos do filme, pois elas mostram o destino de dois personagens coadjuvantes.

Escrito por Renato Batarce.