É com grande prazer que publico agora no blog nossa primeira entrevista, feita neste fim de semana com o gênio do cinema trash/exploitation nacional, o catarinense Petter Baiestorf. Apesar de muitos de seus filmes terem se tornado verdadeiros clássicos do cinema underground ao longo de quase duas décadas de trabalho na Canibal Filmes, suas obras até hoje são produzidas e distribuídas de forma totalmente independente.

Para os que ainda não conhecem o diretor, recomendo a leitura do blog Canibuk, atualizado por Baiestorf e Leyla Buk constantemente, com notícias sobre seus novos projetos e uma tonelada de informações sobre os mais diversos assuntos ligados à arte, música, literatura e cinema. Leiam também uma ótima matéria sobre a história da Canibal Filmes AQUI, e claro, comprem seus filmes no site da Bulhorgia Produções!

Agora vamos à entrevista:

Como você definiria seu trabalho como diretor?

Baiestorf: Nunca paro prá pensar nisso na verdade. Faço vários estilos de filmes porque não gosto de ficar preso em um único gênero na verdade. Faço vídeo poesia, filmes surrealistas, projetos experimentais, trash-movies, gore movies e filmes mais eróticos, quando não misturo tudo isso numa mesma produção! Sempre acredito em evoluir no que tu quer dizer ao público, então se pegar meus filmes de 18 anos atrás, tu vai ver que continuo desenvolvendo uma temática anarquista. É uma espécie de cinema autoral sem levar à sério a palavra autoral, porque quando cara começa a se levar à sério é o começo do fim!

Quais são suas maiores influências cinematográficas?

Baiestorf: Comecei a fazer por causa do cinema vagabundo mundial que me foi bombardeado na infância, produções brasileiras, mexicanas, italianas, chinesas e americanas. Dois filmes foram diretamente responsáveis por eu querer começar a fazer filmes: “The Incredible Melting Man” e “Ultimo Mondo Cannibale”. Um diretor também foi responsável por eu querer fazer filmes, isso já lá pelos 14 anos de idade, 1988, quando tomei conhecimento das idéias de John Waters. Logo depois que comecei a fazer filmes no ano de 1992, na seqüência, comecei a tomar contato com diretores interessantes como George Kuchar, Koji Wakamatsu, Dusan Makavejev, Jodorowsky. Não faço filmes na linha deles, mas suas idéias de cinema tem muita influência quando realizo minhas produções caseiras com amigos. Acho que cinema/vídeo não podem ser apenas diversão, tem que ser diversão mas também trazer alguma pergunta (trazer perguntas, não respostas) e fazer o expectador pensar. Tenho consigo isso com minhas produções.

Qual, dentre os filmes que você já fez, é o seu preferido? Em qual deles você acha que se saiu melhor como diretor?

Baiestorf: Não tenho filme preferido, todos os meus filmes representam uma pequena parte da minha vida, são coisas que tinham que sair de dentro de mim, depois que saiu é do mundo, ficam rodando por tudo que é lugar que aceite exibi-los. E as vezes me surpreende filmes que fiz lá por 1996, sendo exibidos ainda em mostras junto de filmes recentes, acho que são filmes caseiros que permaneceram na mente das pessoas, talvez justamente por serem filmes que fazem as pessoas pensarem. Filmo rápido demais, são tantos projetos por ano que nem rola tempo de me apegar à um filme!

Você diz que não gosta de ZOMBIO, pois ele não tem sua “marca”, porém este é justamente um dos filmes de maior repercussão da Canibal Filmes. A que você atribui isso?

Baiestorf: Porque “Zombio” é um dos únicos filme que fiz que é sessão livre e mais adolescente, ele não ofende e é fácil de ser compreendido. Por isso que 13 anos após ter sido lançado continua sendo visto, continua “popular” entre o pessoal que gosta de filmes de baixo orçamento. Em 2007 eu re-lancei “Zombio” em alguns cinemas aqui do sul prá fazer Double feature com o recém lançado “Arrombada” e pessoal continua curtindo ele. É gratificante um filme continuar sendo assistido, mas acho ele tão bobinho!

Fale um pouco de seus projetos futuros. Como serão estas filmagens com o Felipe M. Guerra na Páscoa?

Baiestorf: O projeto “Páscoa Sarnenta” é o seguinte: Felipe Guerra me procurou querendo fazer um documentário sobre “como fazer um filme de baixo orçamento filmado em 3 dias” e aceitei no ato. Só que como sou um sem noção completo, resolvi aumentar o desafio e fazer 4 filmes em 3 noites e 2 dias de filmagens, enquanto ele documenta todo esse processo de filmagens alucinantes, vou fazer 3 curtas, “Pampa’Migo”, “O Monstro Espacial” e “Filme Político Número Um” e num ato de metalinguagem total, vou fazer um documentário do Felipe Guerra documentando tudo, Se eu falhar estará tudo registrado num documentário para todos aprenderem como Não Fazer um filme de baixo orçamento.

Você escreveu em seu blog que tem vontade de refilmar alguns de seus trabalhos antigos. Dentre os filmes que você mencionou, NINGUÉM DEVE MORRER é o mais recente. O que você sente que precisa ser mudado nele?

Baiestorf: Pretendo sim refilmar de maneira profissional o “Ninguém Deve Morrer”. Quando comecei a escrever este filme eu tinha uma idéia prá um filme de longa-metragem, desenvolvendo melhor as personagens todas, era muito mais insano e surreal do que aquilo apresentado na tela. Minha idéia é refazê-lo com um orçamento maior, equipe técnica profissional e várias outras mudanças. Primeiro que nas minhas pesquisas musicais para a trilha sonora deste filme, encontrei muitas músicas que eu gostaria de ter usado nele e não foi possível quando comecei a cortar idéias para adequá-lo nos 30 minutos que ele e quero comprar essas músicas que usei para não ter problemas de direitos autorais, só com grana minha é impossível isso. Muita idéia boa ficou de fora, várias personagens que eu queria desenvolver ficaram de fora. Todo um bordel com putas dançarinas ficou de fora. Sem contar que eu tinha apenas 6 mil reais de orçamento e apenas 5 dias para filmá-lo. Foi insano as filmagens, filmar uma média de 8 seqüências completas por dia é tarefa ingrata, precisava de mais tempo para filmar tudo como deveria ter sido filmado, para mim o “Ninguém Deve Morrer” que fiz em 2009 é um esboço de um projeto muito maior. Mas não tinha dinheiro para manter a equipe reunida por mais do que 5 dias, então, por enquanto, é este o filme que consegui fazer com o material que tinha nas mãos.

(Assistam ao filme NINGUÉM DEVE MORRER completo no Youtube – Partes 01, 02 e 03)

A meu ver, ARROMBADA – VOU MIJAR NA PORRA DO SEU TÚMULO!!!!, VADIAS DO SEXO SANGRENTO e O DOCE AVANÇO DA FACA formam a mais nova trilogia do cinema de gênero no Brasil. Pretende continuar nesta veia Sexploitation com suas novas produções?

Baiestorf: Sim, eu faço sexploitations alternados por filmes experimentais desde 1996 (meus projetos entre 1992 e 1995 foram filmes que pertencem mais ao universo trash das Sci-Fi americanas) e esses 3 títulos que tu mencionou são parte de uma série que vai ter mais de 20 filmes carregados de violência e sexo que pretendo desenvolver nesta próxima década. Acredite, vários outros filmes extremamente exagerados estão por vir, tenho uns 8 filmes já escritos prá essa série e a cada novo título a coisa vai ficar mais divertida e insana.

Li em seu blog que ZOMBIO deveria ter sido um filme totalmente diferente (ainda mais insano do que é), ainda pretende levar o roteiro original às telas?

Baiestorf: Porra, “Zombio” eu vou refilmar também qualquer dia desses prá filmar a idéia original que eu tinha na época das filmagens. Ele foi uma sucessão de problemas de orçamento e de dias para filmar. “Zombio” a gente filmou todo ele em 4 dias e com menos de mil reais. Eu dormia 2 horas por dia, re-escrevia todo material que ia filmar poucas horas antes de filmar. Tive que cortar todas as ações que se passariam numa aldeia de pescadores porque nosso orçamento não permitiu construir a aldeia. Rolou várias discussões entre pessoal da equipe-técnica por causa do stress e cansaço, as condições de filmagem não eram as ideais. O interessante do “Zombio” é que saíram inúmeras produções de temática zumbis aqui no Brasil nos últimos anos e ele foi exibido em todas as mostras que exibiam essas novas produções. Achei isso bem legal!

Sente vontade de filmar novamente com VHS?  Desconsiderando o preço absurdo, já teve vontade de filmar com película?

Baiestorf: Não prá duas perguntas. Filmei em VHS porque quando comecei era o que tinha. E filmar em película não é viável para produtores independentes, não há essa necessidade.

O que você acha da censura em alguns de seus filmes para exibição em mostras e festivais?

Baiestorf: Quanto a censura, vejo que não preciso de ditadura militar prá ser censurado em quase tudo que é lugar. Nem quero falar sobre isso, mas ser censurado, ter cenas cortadas dos filmes para que possam ser exibidos em alguns lugares é algo deprimente. Acho que o público adulto deve escolher o que quer ver e que os filmes passem inteiros, sem cortes. Se o filme é uma merda o espectador abandona a sala de exibição, não precisa de censura!

Eu particularmente gosto muito de média-metragens. Qual o formato que você acredita que funciona melhor para seus filmes e para produções independentes/experimentais em geral?

Baiestorf: Acho que cada filme, cada produção, cada projeto acaba definindo seu tamanho. Gosto bastante de fazer curta-metragens e média-metragens (apesar de já ter feito 13 longas). Para a Canibal Filmes o formato que melhor funciona são os médias, filmes entre 30 e 50 minutos. O último longa que fiz foi em 2006, estou querendo voltar ao formato longa-metragem com algum projeto mais profissional e com orçamento maior. Se essas tentativas de filmar mais profissionais darem em nada vou trazer de volta umas idéias antigas prá um longa-metragem existencial que eu ia fazer nos anos 90 e acabei deixando de lado. Este longa existencial vai ser em ritmo lento, mais haver com filmes que fiz nos anos 90 do que os filmes que estou fazendo agora.

Você aceitaria trabalhar com um grande estúdio, sem restrições no orçamento, porém sem exageros na violência, gore e nudez, para poder se adequar a uma classificação etária mais branda?

Baiestorf: Não vou responder isso. É uma pergunta hipotética demais. Sei que vou filmar uma série de sexploitations com grana do meu bolso e temáticas ofensivas e exageradas. Isso é fato!

Qual a posição que você acredita que a Canibal Filmes possui em relação ao cenário cinematográfico nacional? Você sente que tem o reconhecimento que merece?

Baiestorf: Nunca pensei nisso, qual seria a posição da Canibal Filmes no cenário cinematográfico brasileiro. Acho que isso apenas o tempo vai responder, ainda é cedo demais prá pensar nisso. Eu tento dar continuidade ao tipo de cinema ofensivo que era feito na Boca do Lixo paulista misturando os anos 60 do cinema Marginal com os anos 80 do cinema mais pornográfico sem limites que se fazia lá. Talvez o papel da Canibal Filmes seja influenciar o surgimento de jovens cineastas independentes e desses jovens cineastas independentes pode surgir várias cabeças com idéias realmente novas. Talvez minha maior contribuição ao cinema nacional foi de acabar com essa idéia que cineasta brasileiro é um ser especial, intocável. Fodam-se os mitos, qualquer imbecil com uma filmadora faz um filme e sou um exemplo perfeito disso!

Qual o conselho que você daria para quem começa agora a fazer cinema independente?

Baiestorf: Seguinte: Menos teoria e mais filmes. Menos ego e mais apoio-mútuo. E sejam agressivos, façam filmes sujos, filmes que tenham o que dizer, filmes suados que desagradem, que causem estranheza no espectador, não tenham medo de ofender.

Deixe uma mensagem para quem acompanha seus filmes:

Baiestorf: Estudem prá caralho, estudem tudo que vocês conseguirem colocar as mãos. Precisamos de uma nova geração menos preguiçosa. Não tenham preguiça de aprender. Exercitem a mente e duvidem de tudo, Não existem mestres, não existem deuses, você é capaz de fazer tudo que quiser. Persiga seus sonhos!!!

Assistam abaixo ao trailer de ZOMBIO, e ao documentário BAIESTORF: FILMES DE SANGUEIRA E MULHER PELADA de 2004, filmado em Porto Alegre por Christian Caselli, durante o festival CineEsquemaNovo: