Quando li a primeira notícia sobre A SERBIAN FILM na internet, fiquei com um pé atrás. Anos de experiência assistindo todo tipo de bizarrice cinematográfica já me ensinaram que a maioria dos filmes que causam polêmica na mídia não me agradam muito. Na minha opinião, polêmica em excesso é sinal de picaretagem. Mas isso não é unanimidade, pois sempre existem exceções para qualquer regra. Foi assim com o excelente IRRÉVERSIBLE, dirigido por Gaspar Noé em 2002. Um dos filmes mais tensos e brutais que já tive notícia, contendo uma longuíssima cena em que a protagonista (interpretada de forma visceral pela musa Monica Bellucci) é estuprada e espancada dentro de um túnel em Paris por aproximadamente 10 minutos, em um plano-sequência angustiante, feito com a intenção de chocar o mais sádico dos espectadores. IRRÉVERSIBLE ganhou notoriedade na mídia após ter sido um dos filmes integrantes da seleção oficial do Festival de Cannes de 2002, esvaziando as sessões em que foi exibido (algumas pessoas inclusive paravam de ver o filme bem antes, durante a cena com o extintor de incêndio na casa noturna).

Tendo isto em mente, comecei a buscar mais informações sobre o filme, e vi que o roteiro tinha algo a ver com filmes snuff, pornografia e até pedofilia. E é tratando sobre estes singelos assuntos que o diretor sérvio Srdjan Spasojevic fez barulho na mídia, arrebatando uma legião de fãs ao redor do mundo, assim como opositores enfurecidos.

O filme mostra a vida do ex-astro pornô Milos (Srdjan Todorovic, mediano), que já estando com certa idade, tenta levar uma vida pacata com sua esposa e seu filho pequeno. Após se encontrar com uma antiga amiga, recebe uma proposta para trabalhar novamente em um filme pornográfico, que promete ser um projeto diferente de tudo que ele havia feito anteriormente. O protagonista se encontra com o diretor do filme, Vukmir (Sergej Trifunovic, em atuação inspirada), aparentemente um excêntrico milionário fissurado pela figura de Milos. A quantia oferecida ao ex-ator é muito alta, fazendo com que ele resolva estrelar o filme. Vukmir faz apenas duas ressalvas a Milos: informa que ele não ficará sabendo do roteiro do filme até o exato momento das filmagens e pede para que o mesmo aja sempre naturalmente, como se as situações encenadas pelo resto do elenco estivessem ocorrendo na vida real.

Como vocês podem ver, o roteiro é simples, mas interessante. E poderia ter sido bem melhor aproveitado pelo diretor. Digo isso porque a partir do momento que o protagonista visita o primeiro set de filmagem, começa a se dissipar o clima de suspense da película, e a inaptidão de Spasojevic começa a ficar aparente.

Uma coisa precisa ficar clara neste momento: não sou de forma alguma defensor dos bons costumes e da moral quando o assunto é cinema. Posso citar inúmeras obras que considero verdadeiros clássicos, mas que possuem cenas repulsivas, imorais, pornográficas e afins. Que fã de cinema extremo não gosta de CANNIBAL HOLOCAUST, obra-prima de Ruggero Deodato, que possui cenas reais de animais sendo mortos? Ou PINK FLAMINGOS, de John Waters, em que a drag queen Divine saboreia um petisco que acaba de ser “servido” por um cachorro na calçada? Poderia citar diversos filmes aqui, cada qual com seu quinhão de nojeiras, violência, nudez e sexo gratuitos, porém o que salva estas obras, e em muitos casos até as torna indispensáveis, é a habilidade do diretor ao conduzir a história, seja ela qual for.

E é isso que acabei sentindo falta em A SERBIAN FILM. Com uma premissa dessas, Srdjan Spasojevic poderia ter realizado um filme excelente, mesclando suspense, tensão e violência na trama, e mesmo que o intuito fosse chocar o espectador, não faltariam oportunidades de fazê-lo. Porém me parece que o diretor simplesmente se limitou a imaginar o que seria a coisa mais ofensiva que poderia colocar na tela, e depois tentar superá-la com algo ainda mais infame.

Muito da polêmica que acompanha o filme mundo afora se deve ao uso de crianças em algumas cenas mais pesadas, de caráter sexual. A cargo disso, o diretor vem recebendo acusações de promover a pedofilia com sua obra.

Não concordo com estas acusações, pois em momento nenhum o filme se presta a enaltecer este tipo de crime hediondo; muito pelo contrário, o protagonista desde o princípio da trama se mostra avesso às imagens de uma pré-adolescente exibidas em um telão durante uma das cenas pornográficas que ele grava, mesmo que nas imagens a jovem não faça nada mais do que se maquiar e chupar um picolé. O desconforto gerado pelas imagens é grande, pois apesar de mostrarem ações inocentes por parte da garota, ganham uma conotação erótica ao serem exibidas no momento em que Milos está em ação.

Uma das idéias mais interessantes de A SERBIAN FILM é a forma como trabalha o diretor que contrata Milos. O protagonista sempre é chamado para sua mansão momentos antes do início das gravações, é escoltado de olhos vendados por seguranças até as locações e ganha um ponto eletrônico para receber instruções de Vukmir sobre como proceder durante as cenas nas quais atuará. Todo o elenco já se encontra no local, encarnando seus personagens, e vários operadores de câmera estão devidamente posicionados nas dependências. Tudo para que Milos possa ter a reação mais natural possível ao que irá ocorrer.

A partir daí Milos é colocado em situações cada vez mais desagradáveis durante as gravações, que envolvem mulheres sendo espancadas, sexo violento e a presença da suposta filha de uma das atrizes durante as cenas, a mesma garota dos vídeos exibidos no telão. E no momento em que o ator, atormentado por sua consciência, decide sair da produção, seu mundo se torna um verdadeiro inferno. É chegada a hora da cena mais polêmica do longa, que envolve o abuso de um recém nascido (é preciso dizer que, apesar de ser uma cena de extremo mau gosto, o diretor teve a decência de utilizar um boneco animatrônico para executá-la, e que o abuso não é mostrado explicitamente, tendo sido filmada de um ângulo indireto).

A violência cresce exponencialmente nos próximos minutos do longa, e a meu ver é banalizada a ponto de tirar o interesse do espectador na trama. Mutilações, torturas e estupros acontecem em meio à confusão mental de Milos, que acaba drogado e desorientado, tentando solucionar um mistério do qual ele agora faz parte.

Por mais apelativo que seja, o final do filme reserva uma surpresa ao espectador. Não sei como foi feita a última sequência, mas esta sim me pareceu a única cena a utilizar a imagem de uma criança de forma inapropriada. Um verdadeiro soco no estômago dos que não estão acostumados a assistir filmes com violência extrema como este.

Recomendo àqueles que quiserem assistir ao filme, que procurem pela cópia feita a partir do arquivo de divulgação (screener copy) disponível para download na rede, que embora tenha marcas d’água constantes na imagem, e outra ainda maior que aparece de vez em quando durante o filme, tem uma boa imagem e não possuí cortes ou qualquer tipo de censura. AQUI vocês podem ter uma idéia da censura imposta no filme para o lançamento do DVD no Reino Unido.

Srdjan Spasojevic já vem enfrentando grandes problemas com o governo da Sérvia, que o acusou de uso imoral de crianças num filme, e também em outros países onde A SERBIAN FILM tem sido exibido, pois embora o filme tenha ganhado o Prêmio Especial do Júri no Fantasporto 2011, acabou sendo retirado de alguns festivais como o British Horror Film Festival e a mostra Film 4 Frightfest. Agora pesa sobre o tradicional Festival de Sitges e seu diretor, Angel Sala, a acusação de promoção à pornografia infantil, após a exibição do filme.

Na última Sessão do Comodoro, que ocorreu nesta quarta-feira dia 09/03 no CineSESC, como sempre capitaneada pelo cineasta Carlos Reichenbach, houve o anúncio de que talvez o filme seja exibido na próxima edição do evento, que acontecerá em Maio.

A SERBIAN FILM é apenas mais um exemplar de shock film, que se utiliza de cenas extremamente repulsivas ou violentas para chamar a atenção do público e mídia. Pelo visto a fórmula ainda funciona. Só espero que o diretor estreante Srdjan Spasojevic realize obras mais relevantes do que os igualmente superestimados O ALBERGUE e CABANA DO INFERNO, ambos do picareta de mão cheia Eli Roth, pois tudo o que menos precisamos é de um clone dele fazendo filmes nos Balcãs.