Mais uma resenha do Batata aqui no blog, desta vez sobre MAD DETECTIVE, uma parceria entre os diretores Wai Ka-Fai e Johnnie To, um dos mais respeitados realizadores do gênero policial no oriente. Divirtam-se!

Esse filme chinês mostra a história do detetive Chan Kwai Bun (Ching Wan Lau, excelente), um ex-detetive que, em sua época, já foi considerado gênio por suas resoluções rápidas e precisas dos casos mais complicados. Porém, seus métodos eram pouco ortodoxos, pois consistiam em representações dos crimes feitas por ele mesmo. Isso, aliado ao seu comportamento, digamos, “excêntrico”, acabou acarretando em seu afastamento da polícia, que alegava que o mesmo possuía problemas mentais.

Alguns anos depois, Bun é procurado pelo agente Ho Ka On (Andy On), que já havia trabalhado com ele anteriormente e o admirava. Ho investigava o caso de um detetive desaparecido, e depois de meses sem provas, resolve pedir a ajuda de quem ele considera como a um mestre.

Logo é revelado o segredo do ex-detetive Bun: ele consegue enxergar as personalidades interiores das pessoas, como seres de carne e osso; e ainda conversar com elas. Claro que não é algo fácil de engolir, e apesar de seus esforços, Ho começa a se questionar se está trabalhando com um gênio, ou com um ser humano cada vez mais consumido pela loucura.

Logo no início do filme, somos tomados pelo clima de estranheza e comicidade, sendo levados a pensar que se trata de mais um filme bizarro que não deve ser levado a sério. Mas conforme a história se desenvolve, acabamos nos acostumando com o dom e as peculiaridades de Bun, e somos tomados pela trama policial bem conduzida, e pelos toques dramáticos que humanizam e ajudam a tornar os personagens (principalmente o protagonista) mais tridimensionais.

Apesar de tratar-se de um filme de investigação, a identidade do criminoso fica clara desde o início (como não poderia deixar de ser, devido aos talentos de Bun), mas mesmo assim, ficamos presos à história. Mais do que o desejo de descobrir aonde seremos levados, é o desejo de descobrir como seremos levados. E ainda conta com um ótimo clímax.

Mas o toque sobrenatural do filme o concede um charme todo especial. Não dá pra assistir e não se questionar sobre a função das personalidades sobre os seres humanos. Interessante é imaginar na prática, uma pessoa que, apesar de ser totalmente diferente de você, pode ser o seu eu verdadeiro. Imagine então se forem várias pessoas diferentes tentando tomar o controle de nossas decisões?

No geral as interpretações são muito boas, com destaque para Ching Wan Lau, com um detetive Bun interessante, misterioso e carismático (que vontade de ver a representação da sua personalidade – ou personalidades – interior); para Ka Tung Lam e seu personagem Ko Chi Wai, que consegue nos mostrar suas múltiplas personalidades com pequenas mudanças de expressões; e Kelly Lin, com a dualidade de May Cheung. A interpretação de Andy On chega a ser um pouco apagada e apática perto dos outros, mas talvez seja porque seu personagem pede justamente isso.

A direção é ágil e competente, com vários momentos inspirados como, por exemplo, sete personalidades caminhando em sincronia assobiando a trilha sonora, e uma sequência de cenas utilizando personagens, personalidades e espelhos (não pude deixar de lembrar de PERFECT BLUE e CISNE NEGRO). Os diretores do filme são Wai Ka-Fai e Johnnie To, sendo esse último talvez mais conhecido no Brasil, por ter dirigido o filme HAK SE WUI (ELEIÇÃO – O SUBMUNDO DO PODER, de 2005). Em 2008 o filme ganhou o prêmio Black Dragon na 10ª edição do Far East Film Festival (FEFF).

Não se engane, apesar de conter doses de sangue e uma trama sobrenatural, o que impera na película é o gênero policial. Cabe a cada espectador decidir se isso é um aspecto benéfico ou não do filme, mas particularmente, achei que foi de grande habilidade utilizar um dom paranormal como complemento de uma trama, e não fazer com que o filme dependa única e exclusivamente disso, como tantos outros diretores fazem.

Escrito por Renato Batarce.