Mostra “Mojica 24 horas – Zé do Caixão”, Virada Cultural 2011

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O grande mestre do horror nacional, José Mojica Marins, será homenageado na Virada Cultural 2011 (que acontece em São Paulo nos dias 16 e 17/04), com a exibição ininterrupta de algumas de suas principais obras ao longo de 24 horas no Cine Windsor, situado na Av. Ipiranga, 9740.

É uma boa oportunidade de ver na telona a trilogia formada por À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER e finalizada por sua produção mais recente, ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Além da trilogia, serão exibidos 03 curtas na primeira sessão (ainda não obtive informação de quais serão as obras, quando confirmar adicionarei ao post), assim como os clássicos absolutos O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS), O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO e DELÍRIOS DE UM ANORMAL.

Serão exibidas 14 obras no total, e além dos trabalhos realizados pelo diretor, haverá a exibição de O PROFETA DA FOME, dirigido por Maurice Capovilla e protagonizado por Mojica, no qual ele vive o papel de Ali Khan, personagem inspirado no faquir Silk, seu amigo na vida real e A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, que apesar de ter sido dirigido por Mojica, foi inicialmente creditado a Marcelo Motta, um de seus alunos na escola de cinema e interpretação, como forma de tentar alavancar a carreira cinematográfica de seu discípulo, segundo o próprio.

Claramente, a mostra não se limita a exibir filmes somente com o personagem do coveiro Zé do Caixão, mas como já ocorreu tantas outras vezes, o nome da criação mais famosa de José Mojica Marins foi usado para garantir a presença do público, que por vezes confunde criatura com criador, evidenciando a força deste mítico personagem que já faz parte da cultura popular brasileira.

Meu primeiro encontro com o Mestre!

Segue a programação da mostra:

Mojica 24 Horas – Mostra Zé do Caixão:

18h – Sessão de curtas (03 Filmes)

20h – A SINA DO AVENTUREIRO

22h – O DESPERTAR DA BESTA (RITUAL DOS SÁDICOS)

00h – À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA

02h – ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER

04h – O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO

06h – FINIS HOMINIS

08h – DELÍRIOS DE UM ANORMAL

10h – ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

14h – INFERNO CARNAL

16h – A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES

(16/04/2011: Os curtas que integram a primeira sessão são O UNIVERSO DE MOJICA MARINS, documentário de Ivan Cardoso filmado em 1978, A LASANHA ASSASSINA de Ale McHaddo, 2002 e PESADELO MACABRO, dirigido por Mojica em 1968, um dos episódios do longa TRILOGIA DE TERROR, que também conta com Ozualdo Candeias e Luís Sérgio Person na direção.)

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JESUS CHRIST VAMPIRE HUNTER (Lee Demarbre – 2001)

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Para amenizar um pouco o clima das produções comentadas aqui no blog, nada melhor do que um ótimo filme trash cheio de idéias insanas, humor anárquico, porrada e vampiros.  Com a palavra, Batata:

Existem certas produções que nos deixam surpresos com até onde a imaginação e a ousadia humana podem chegar. Muitas vezes nos decepcionamos com idéias originais mal executadas, ou filmes pretensiosos que acham que podem se tornar cult apenas por serem bizarros. Felizmente não é o que acontece aqui.

JESUS CHRIST VAMPIRE HUNTER é daqueles filmes que funcionam tão bem numa tarde solitária, quanto numa noite com os amigos. É diversão certa pra quem não se importar com as (muitas vezes inspiradas) piadas religiosas, e preferir rir com elas. Um crítico da Variety observou que “o filme é muito bobo para ser ofensivo”.

A história é um delicioso absurdo. Aparentemente Jesus sempre esteve entre nós, morando em uma praia. Quando as lésbicas do mundo começam a desaparecer, alguns padres que conhecem seu segredo (entre eles um punk) resolvem pedir sua ajuda. Fica claro que as moças estão sendo vítimas de um grupo de vampiros, mas Jesus está pronto pra briga, utilizando suas habilidades em artes marciais, em criar estacas de madeira (afinal ele era carpinteiro), e inclusive sua onipresença.

E não para por aí. Para ficar mais com a cara do mundo atual, ele resolve aderir a uma imagem mais moderna (sem barba ou cabelo). Durante sua saga, ele vai enfrentar a descrença com dança e música, vai se confrontar com os ateus, receber conselhos dos seus pais (nas formas mais inusitadas), vai comer no Hooters, entre muitas outras bizarrices.

O filme é empolgante, engraçado, e Jesus se mostra um herói bastante carismático. A própria produção barata provoca risos, sem que isso a ridicularize a ponto de desmerecê-la. Não é um superfilmão épico nem nada, mas cenas e frases acabam grudando na memória (“se eu não voltar em 5 minutos, chame o Papa”).

Filme canadense de 2001, até hoje ele é o maior sucesso da Odessa Filmworks, uma pequena produtora de Ottawa, fundada por Lee Demarbre, o diretor do filme. Apesar disso, o grande símbolo da produtora é o personagem Harry Knuckles, com 04 filmes na produtora entre curtas e longas. O personagem é interpretado por Phil Caracas, o mesmo que encarna Jesus no filme.

Mas o filho de Deus não está sozinho no longa. Ele recebe ajuda da garota Mary Magnum (Maria Moulton), e do lutador mexicano El Santo.

Peraí, El Santo voltou dos mortos?

Na verdade, trata-se do ator Jeff Moffet, que assim como o ator turco Yavuz Selekman em 3 DEV ADAM (filme turco de 1973, onde El Santo e Capitão América enfrentam o criminoso Homem-Aranha), faz uma versão não autorizada do luchador como homenagem.

Pra quem não conhece, El Santo foi um lutador mexicano mascarado, que se tornou ícone. Além de lutador, já teve sua série de histórias em quadrinhos, atuou em 52 filmes, e em toda a sua carreira só mostrou seu rosto uma única vez na TV mexicana após sua aposentadoria. Seu nome era Rodolfo Guzmán Huerta, e faleceu em 1984 aos 66 anos. Um de seus filhos, Jorge Guzmán Rodríguez seguiu os passos do pai, utilizando o nome El Hijo del Santo. Em 2004, o Cartoon Network latino realizou uma série de 05 animações curtas em homenagem a El Santo.

Essa não foi a única vez que Jeff Moffet encarnou esse personagem. O El Santo canadense também pode ser encontrado nos filmes HARRY KNUCKLES AND THE TREASURE OF THE AZTEC MUMMY (1999), e HARRY KNUCKLES AND THE PEARL NECKLACE (2004), ambos, claro, da Odessa Filmworks.

Enfim, assistam ao filme com a mente aberta, e terão uma grande diversão. Sim, os efeitos são toscos, as atuações são ás vezes risíveis, ás vezes canastronas, e ás vezes até mesmo inexpressivas, mas na verdade, a própria tosquice contribui para o triunfo do filme. Estou certo de que há a possibilidade de que muitos não concordem com isso, e detestem o filme, mas oras bolas, isso acontece com praticamente todas as obras existentes (nem Jesus conseguiu agradar a todos, hahaha).

Por incrível que pareça, se pesquisarmos iremos encontrar produções muito mais bizarras que utilizam a figura de Jesus. Essa o transformou em um herói, um herói moderno, e se repararem, com idéias bem modernas sobre o cristianismo. Assistam, talvez esse filme faça com que você cresça espiritualmente, e sua alma pare de se atormentar com dúvidas como “haverá limonada o suficiente?”

Escrito por Renato Batarce.

A SERBIAN FILM (Srdjan Spasojevic – 2010)

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Quando li a primeira notícia sobre A SERBIAN FILM na internet, fiquei com um pé atrás. Anos de experiência assistindo todo tipo de bizarrice cinematográfica já me ensinaram que a maioria dos filmes que causam polêmica na mídia não me agradam muito. Na minha opinião, polêmica em excesso é sinal de picaretagem. Mas isso não é unanimidade, pois sempre existem exceções para qualquer regra. Foi assim com o excelente IRRÉVERSIBLE, dirigido por Gaspar Noé em 2002. Um dos filmes mais tensos e brutais que já tive notícia, contendo uma longuíssima cena em que a protagonista (interpretada de forma visceral pela musa Monica Bellucci) é estuprada e espancada dentro de um túnel em Paris por aproximadamente 10 minutos, em um plano-sequência angustiante, feito com a intenção de chocar o mais sádico dos espectadores. IRRÉVERSIBLE ganhou notoriedade na mídia após ter sido um dos filmes integrantes da seleção oficial do Festival de Cannes de 2002, esvaziando as sessões em que foi exibido (algumas pessoas inclusive paravam de ver o filme bem antes, durante a cena com o extintor de incêndio na casa noturna).

Tendo isto em mente, comecei a buscar mais informações sobre o filme, e vi que o roteiro tinha algo a ver com filmes snuff, pornografia e até pedofilia. E é tratando sobre estes singelos assuntos que o diretor sérvio Srdjan Spasojevic fez barulho na mídia, arrebatando uma legião de fãs ao redor do mundo, assim como opositores enfurecidos.

O filme mostra a vida do ex-astro pornô Milos (Srdjan Todorovic, mediano), que já estando com certa idade, tenta levar uma vida pacata com sua esposa e seu filho pequeno. Após se encontrar com uma antiga amiga, recebe uma proposta para trabalhar novamente em um filme pornográfico, que promete ser um projeto diferente de tudo que ele havia feito anteriormente. O protagonista se encontra com o diretor do filme, Vukmir (Sergej Trifunovic, em atuação inspirada), aparentemente um excêntrico milionário fissurado pela figura de Milos. A quantia oferecida ao ex-ator é muito alta, fazendo com que ele resolva estrelar o filme. Vukmir faz apenas duas ressalvas a Milos: informa que ele não ficará sabendo do roteiro do filme até o exato momento das filmagens e pede para que o mesmo aja sempre naturalmente, como se as situações encenadas pelo resto do elenco estivessem ocorrendo na vida real.

Como vocês podem ver, o roteiro é simples, mas interessante. E poderia ter sido bem melhor aproveitado pelo diretor. Digo isso porque a partir do momento que o protagonista visita o primeiro set de filmagem, começa a se dissipar o clima de suspense da película, e a inaptidão de Spasojevic começa a ficar aparente.

Uma coisa precisa ficar clara neste momento: não sou de forma alguma defensor dos bons costumes e da moral quando o assunto é cinema. Posso citar inúmeras obras que considero verdadeiros clássicos, mas que possuem cenas repulsivas, imorais, pornográficas e afins. Que fã de cinema extremo não gosta de CANNIBAL HOLOCAUST, obra-prima de Ruggero Deodato, que possui cenas reais de animais sendo mortos? Ou PINK FLAMINGOS, de John Waters, em que a drag queen Divine saboreia um petisco que acaba de ser “servido” por um cachorro na calçada? Poderia citar diversos filmes aqui, cada qual com seu quinhão de nojeiras, violência, nudez e sexo gratuitos, porém o que salva estas obras, e em muitos casos até as torna indispensáveis, é a habilidade do diretor ao conduzir a história, seja ela qual for.

E é isso que acabei sentindo falta em A SERBIAN FILM. Com uma premissa dessas, Srdjan Spasojevic poderia ter realizado um filme excelente, mesclando suspense, tensão e violência na trama, e mesmo que o intuito fosse chocar o espectador, não faltariam oportunidades de fazê-lo. Porém me parece que o diretor simplesmente se limitou a imaginar o que seria a coisa mais ofensiva que poderia colocar na tela, e depois tentar superá-la com algo ainda mais infame.

Muito da polêmica que acompanha o filme mundo afora se deve ao uso de crianças em algumas cenas mais pesadas, de caráter sexual. A cargo disso, o diretor vem recebendo acusações de promover a pedofilia com sua obra.

Não concordo com estas acusações, pois em momento nenhum o filme se presta a enaltecer este tipo de crime hediondo; muito pelo contrário, o protagonista desde o princípio da trama se mostra avesso às imagens de uma pré-adolescente exibidas em um telão durante uma das cenas pornográficas que ele grava, mesmo que nas imagens a jovem não faça nada mais do que se maquiar e chupar um picolé. O desconforto gerado pelas imagens é grande, pois apesar de mostrarem ações inocentes por parte da garota, ganham uma conotação erótica ao serem exibidas no momento em que Milos está em ação.

Uma das idéias mais interessantes de A SERBIAN FILM é a forma como trabalha o diretor que contrata Milos. O protagonista sempre é chamado para sua mansão momentos antes do início das gravações, é escoltado de olhos vendados por seguranças até as locações e ganha um ponto eletrônico para receber instruções de Vukmir sobre como proceder durante as cenas nas quais atuará. Todo o elenco já se encontra no local, encarnando seus personagens, e vários operadores de câmera estão devidamente posicionados nas dependências. Tudo para que Milos possa ter a reação mais natural possível ao que irá ocorrer.

A partir daí Milos é colocado em situações cada vez mais desagradáveis durante as gravações, que envolvem mulheres sendo espancadas, sexo violento e a presença da suposta filha de uma das atrizes durante as cenas, a mesma garota dos vídeos exibidos no telão. E no momento em que o ator, atormentado por sua consciência, decide sair da produção, seu mundo se torna um verdadeiro inferno. É chegada a hora da cena mais polêmica do longa, que envolve o abuso de um recém nascido (é preciso dizer que, apesar de ser uma cena de extremo mau gosto, o diretor teve a decência de utilizar um boneco animatrônico para executá-la, e que o abuso não é mostrado explicitamente, tendo sido filmada de um ângulo indireto).

A violência cresce exponencialmente nos próximos minutos do longa, e a meu ver é banalizada a ponto de tirar o interesse do espectador na trama. Mutilações, torturas e estupros acontecem em meio à confusão mental de Milos, que acaba drogado e desorientado, tentando solucionar um mistério do qual ele agora faz parte.

Por mais apelativo que seja, o final do filme reserva uma surpresa ao espectador. Não sei como foi feita a última sequência, mas esta sim me pareceu a única cena a utilizar a imagem de uma criança de forma inapropriada. Um verdadeiro soco no estômago dos que não estão acostumados a assistir filmes com violência extrema como este.

Recomendo àqueles que quiserem assistir ao filme, que procurem pela cópia feita a partir do arquivo de divulgação (screener copy) disponível para download na rede, que embora tenha marcas d’água constantes na imagem, e outra ainda maior que aparece de vez em quando durante o filme, tem uma boa imagem e não possuí cortes ou qualquer tipo de censura. AQUI vocês podem ter uma idéia da censura imposta no filme para o lançamento do DVD no Reino Unido.

Srdjan Spasojevic já vem enfrentando grandes problemas com o governo da Sérvia, que o acusou de uso imoral de crianças num filme, e também em outros países onde A SERBIAN FILM tem sido exibido, pois embora o filme tenha ganhado o Prêmio Especial do Júri no Fantasporto 2011, acabou sendo retirado de alguns festivais como o British Horror Film Festival e a mostra Film 4 Frightfest. Agora pesa sobre o tradicional Festival de Sitges e seu diretor, Angel Sala, a acusação de promoção à pornografia infantil, após a exibição do filme.

Na última Sessão do Comodoro, que ocorreu nesta quarta-feira dia 09/03 no CineSESC, como sempre capitaneada pelo cineasta Carlos Reichenbach, houve o anúncio de que talvez o filme seja exibido na próxima edição do evento, que acontecerá em Maio.

A SERBIAN FILM é apenas mais um exemplar de shock film, que se utiliza de cenas extremamente repulsivas ou violentas para chamar a atenção do público e mídia. Pelo visto a fórmula ainda funciona. Só espero que o diretor estreante Srdjan Spasojevic realize obras mais relevantes do que os igualmente superestimados O ALBERGUE e CABANA DO INFERNO, ambos do picareta de mão cheia Eli Roth, pois tudo o que menos precisamos é de um clone dele fazendo filmes nos Balcãs.

964 PINOCCHIO (Shozin Fukui – 1991)

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E o Batata continua voltado para o cinema oriental, agora falando sobre um clássico do Cyberpunk, o bizarro 964 PINOCCHIO:

Capa do DVD

O cyberpunk japonês é um gênero para poucos. Enquanto que no ocidente o estilo é mais relacionado ao cyberespaço, à junção do homem e/ou sua mente ao mundo virtual, o oriente optou pela junção entre o metal e a carne.

O estilo é caracterizado por cenários urbanos, personagens marginais, sujos, perturbados, música e som altos, agudos e até irritantes. Sim, a confusão é intencional, porque normalmente são filmes que tentam retirar a barreira entre ser humano e máquina, o que pode ser uma experiência desconcertante; mas para quem aprecia o gênero, isso não deixa de ser maravilhoso.

Todos esses elementos são encontrados em 964 PINOCCHIO de 1991 (escrito e dirigido por Shozin Fukui, creditado como Shôjin Fukui). O filme narra a história do personagem título (vivido pelo ator Haji Suzuki), que é um andróide criado por uma empresa, com a finalidade de ser uma ferramenta sexual. Porém, o “produto” é descartado por suas donas e jogado na sarjeta, pois aparentemente ele era incapaz de ter uma ereção.

Perdido, Pinocchio acaba encontrando nas ruas Himiko (Onn-Chan), uma mulher com um passado misterioso, que o ajuda a sobreviver nas ruas. Aparentemente os dois sentem uma estranha conexão entre eles.

Mas a empresa que criou Pinocchio não quer saber dele andando pelas ruas, pois os serviços prestados por ela são secretos, então agentes são enviados para capturá-lo. Nisso, a relação entre Pinocchio e Himiko atinge um ponto onde ele finalmente consegue realizar aquilo para que fora criado. Mas aí meu amigo, as coisas passam a ficar realmente estranhas.

Após a relação entre os dois (não, não estou contando o final, isso acontece bem antes da metade), o ritmo muda totalmente. Cenas com cortes rápidos como um videoclipe, reviravoltas surpreendentes e a sempre presente sensação de pesadelo e loucura como se fosse a batalha interna de homem contra máquina. Mas como é um cyberpunk japonês, os efeitos dessa batalha são sentidos no corpo, através de ferimentos, fluidos liberados, e vômito (sim, o filme é nojento, nem pensem em assisti-lo durante as refeições). É uma experiência visceral e inesquecível, fusão e rejeição caminhando lado a lado.

As atuações são extremas e muito exageradas, mas é isso que o filme pede. Loucura, sofrimento, dor, prazer, tudo é representado pelos atores por movimentos e expressões intensas.

Um detalhe que pode passar despercebido por muitos, é que o diretor teve êxito em criar um verdadeiro clássico do cyberpunk, de uma maneira que, para a época, era quase impensável: em cores. Antes de Pinocchio, a fotografia preta e branca (como, por exemplo, em TETSUO), era praticamente uma marca inalterável do estilo.

Os atores do filme são praticamente desconhecidos, sendo que para a grande maioria (incluindo os protagonistas), esse foi seu único trabalho no cinema. Mesmo o diretor Shozin Fukui possui uma filmografia curta; antes de 964 PINOCCHIO, dirigiu, roteirizou, editou e compôs a música de um curta chamado GERORISUTO (1990), e em 1996 dirigiu RUBBER’S LOVER, outro clássico do cyberpunk que funciona como uma espécie de pré-sequência para 964 PINOCCHIO.

É uma completa viagem, e com um final aberto a várias leituras. Precisa ser um admirador do gênero para realmente apreciar a experiência; mas qualquer que seja o sentimento pelo filme (amor, ódio, ou apenas pura e simples estranheza), pode ter certeza que vai ser intenso, pois não é uma obra que possa simplesmente passar batida.

Escrito por Renato Batarce.

MAD DETECTIVE (Johnnie To, Wai Ka-Fai – 2007)

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Mais uma resenha do Batata aqui no blog, desta vez sobre MAD DETECTIVE, uma parceria entre os diretores Wai Ka-Fai e Johnnie To, um dos mais respeitados realizadores do gênero policial no oriente. Divirtam-se!

Esse filme chinês mostra a história do detetive Chan Kwai Bun (Ching Wan Lau, excelente), um ex-detetive que, em sua época, já foi considerado gênio por suas resoluções rápidas e precisas dos casos mais complicados. Porém, seus métodos eram pouco ortodoxos, pois consistiam em representações dos crimes feitas por ele mesmo. Isso, aliado ao seu comportamento, digamos, “excêntrico”, acabou acarretando em seu afastamento da polícia, que alegava que o mesmo possuía problemas mentais.

Alguns anos depois, Bun é procurado pelo agente Ho Ka On (Andy On), que já havia trabalhado com ele anteriormente e o admirava. Ho investigava o caso de um detetive desaparecido, e depois de meses sem provas, resolve pedir a ajuda de quem ele considera como a um mestre.

Logo é revelado o segredo do ex-detetive Bun: ele consegue enxergar as personalidades interiores das pessoas, como seres de carne e osso; e ainda conversar com elas. Claro que não é algo fácil de engolir, e apesar de seus esforços, Ho começa a se questionar se está trabalhando com um gênio, ou com um ser humano cada vez mais consumido pela loucura.

Logo no início do filme, somos tomados pelo clima de estranheza e comicidade, sendo levados a pensar que se trata de mais um filme bizarro que não deve ser levado a sério. Mas conforme a história se desenvolve, acabamos nos acostumando com o dom e as peculiaridades de Bun, e somos tomados pela trama policial bem conduzida, e pelos toques dramáticos que humanizam e ajudam a tornar os personagens (principalmente o protagonista) mais tridimensionais.

Apesar de tratar-se de um filme de investigação, a identidade do criminoso fica clara desde o início (como não poderia deixar de ser, devido aos talentos de Bun), mas mesmo assim, ficamos presos à história. Mais do que o desejo de descobrir aonde seremos levados, é o desejo de descobrir como seremos levados. E ainda conta com um ótimo clímax.

Mas o toque sobrenatural do filme o concede um charme todo especial. Não dá pra assistir e não se questionar sobre a função das personalidades sobre os seres humanos. Interessante é imaginar na prática, uma pessoa que, apesar de ser totalmente diferente de você, pode ser o seu eu verdadeiro. Imagine então se forem várias pessoas diferentes tentando tomar o controle de nossas decisões?

No geral as interpretações são muito boas, com destaque para Ching Wan Lau, com um detetive Bun interessante, misterioso e carismático (que vontade de ver a representação da sua personalidade – ou personalidades – interior); para Ka Tung Lam e seu personagem Ko Chi Wai, que consegue nos mostrar suas múltiplas personalidades com pequenas mudanças de expressões; e Kelly Lin, com a dualidade de May Cheung. A interpretação de Andy On chega a ser um pouco apagada e apática perto dos outros, mas talvez seja porque seu personagem pede justamente isso.

A direção é ágil e competente, com vários momentos inspirados como, por exemplo, sete personalidades caminhando em sincronia assobiando a trilha sonora, e uma sequência de cenas utilizando personagens, personalidades e espelhos (não pude deixar de lembrar de PERFECT BLUE e CISNE NEGRO). Os diretores do filme são Wai Ka-Fai e Johnnie To, sendo esse último talvez mais conhecido no Brasil, por ter dirigido o filme HAK SE WUI (ELEIÇÃO – O SUBMUNDO DO PODER, de 2005). Em 2008 o filme ganhou o prêmio Black Dragon na 10ª edição do Far East Film Festival (FEFF).

Não se engane, apesar de conter doses de sangue e uma trama sobrenatural, o que impera na película é o gênero policial. Cabe a cada espectador decidir se isso é um aspecto benéfico ou não do filme, mas particularmente, achei que foi de grande habilidade utilizar um dom paranormal como complemento de uma trama, e não fazer com que o filme dependa única e exclusivamente disso, como tantos outros diretores fazem.

Escrito por Renato Batarce.

ELECTRIC DRAGON 80.000V (Sogo Ishii – 2001)

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O Batata está de volta para escrever sobre um ótimo média metragem japonês, estrelado pelo ator mais citado aqui no blog (e aposto que continuará sendo), Tadanobu Asano, dono de uma filmografia invejável! Procurem esse filme para assistir, porque é realmente uma obra de arte. Divirtam-se!

Dragões. Seres fascinantes que aparecem na mitologia das mais diversas civilizações, ocidentais e orientais, podendo ser símbolo do sobrenatural, de sabedoria, ou apenas terríveis bestas destruidoras.

ELECTRIC DRAGON 80.000V (dirigido por Sogo Ishii, 2001), trata sobre o último tipo.

Os dragões existem, adormecidos dentro do coração de cada ser humano. Porém, ao receber uma descarga elétrica na infância, o dragão no coração de um garoto acorda. Sua personalidade muda, conforme vai crescendo, o garoto se torna mais forte, violento, e as terapias de choque já não são mais o suficiente, pois o garoto é um condutor de eletricidade ambulante. A única coisa que consegue acalmar a eletricidade dentro dele é a guitarra elétrica. Ele é “Dragon Eye Morrison” (acreditem, a empolgação do narrador – o lutador de MMA Masakatsu Funaki – é um dos grandes destaques do filme).

Com um poder semelhante, surge um desafiante, cujo objetivo é apenas confrontar o protagonista. Ele é “Thunderbolt Buddha” (que apesar de ser um ser superpoderoso, meio homem meio Buda, tem que trabalhar na indústria elétrica para sobreviver. Grande sacada).

Sim, a história é essa, simples e efetiva. Dois seres atormentados e poderosos destinados a se confrontar. Nada demais, não vai mudar a vida de ninguém; mas que filmão legal!

Com um ritmo dinâmico, e uma trilha sonora certeira e desconcertante, o diretor Sogo Ishii (que também é o roteirista) consegue criar um clima urbano e sujo que, surpreendentemente, cai como uma luva nas belas tomadas, enquadramentos e na fotografia preta e branca.

Thunderbolt Buddha

O filme pode ser considerado uma graphic novel, já que utiliza muito da linguagem dos quadrinhos numa história simples e fechada, incluindo até mesmo letras estilizadas no estilo mangá, que cobrem a tela nas frases de efeito.

Mas a grande força da película está em seus protagonistas, interpretados por dois grandes astros do Japão.

Dragon Eye Morrison é interpretado por Tadanobu Asano (que inclusive é o responsável pelas ilustrações do filme), que possui entre seus trabalhos mais famosos, ICHI THE KILLER (Takashi Miike, 2001), ZATOICHI (Takeshi Kitano, 2003), SURVIVE STYLE 5+ (Gen Sekiguchi, 2004). Sua próxima aparição será interpretando Hogun em THOR (Kenneth Branagh, 2011).

Já o Thunderbolt Buddha é interpretado por Masatoshi Nagase, que possui no currículo MISTERY TRAIN (Jim Jarmusch, 1989), SUICIDE CLUB (Shion Sono, 2001), e vários outros títulos (infelizmente, apesar de ser uma estrela no Japão, não conheço muitos filmes com esse ator, por isso não coloquei mais destaques. Mas acreditem, o cara já trabalhou muito).

Concluindo, assistam a esse filme naqueles dias em que não tiverem nada pra fazer, e quiserem uma diversão empolgante e rápida (55 minutos pra ser exato), pois a história do filme pode não ser nada demais, mas ele é dotado de um estilo único e original.

Escrito por Renato Batarce.

Dragon Eye Morrison