Aproximadamente um mês atrás, o Batata, que escreve aqui no blog também, mandou pelo Facebook o link de um vídeo de cenas do filme que está sendo chamado por muitos de INDIAN TERMINATOR. Bom, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que um filme trash indiano que se propõe a copiar O EXTERMINADOR DO FUTURO deveria ser no mínimo interessante. Qual não foi minha surpresa ao ver que os efeitos especiais do longa são bem caprichados, e que não se trata de um filme de orçamento baixo, e sim de uma superprodução.

Mas minha alegria durou pouco. Corri para baixar o filme, e depois de assisti-lo, posso dizer que não chega nem perto de ser aquilo que o apelido dado pelos entusiastas da internet promete.

Antes de tratar sobre o enredo do filme, existem alguns detalhes relevantes sobre a produção: até o presente momento, este é o filme mais caro já feito na Índia, contando também com o maior salário já pago a uma atriz indiana, a bela protagonista Aishwarya Rai; algumas cenas de song-and-dance do longa foram filmadas aqui no Brasil, assim como no Peru, Estados Unidos, Goa e até no Vietnã (quem já assistiu a filmes indianos se lembra das famosas pausas para que o elenco cante músicas inteiras entre as cenas, geralmente reunindo dezenas de pessoas em coreografias estranhas e figurinos espalhafatosos); o filme é uma produção de Kollywood, ou seja, foi realizado pelos estúdios do estado de Tamil Nadu e é falado em idioma tamil, diferentemente dos filmes produzidos na gigantesca Bollywood, no estado de Maharashtra, onde é falado o idioma hindi (mais informações sobre a prolífica indústria e pólos cinematográficos indianos podem ser vistas AQUI).

Dito isso, vamos ao filme. O protagonista, o cientista Dr. Vaseegaran, acaba de concluir um projeto que lhe custou muitos anos de trabalho, um robô dotado de inteligência e habilidades extraordinárias, o mais avançado até então (ENDHIRAN significa robô, em tamil). Já nesta cena inicial o espectador é presenteado com as toscas atuações dos dois ajudantes do Dr. Vaseegaran, que parecem ter saído de um filme dos Trapalhões. Os últimos ajustes são feitos no robô, e assim que ele é acionado pela primeira vez, faz uma pequena demonstração de suas impressionantes habilidades motoras: o robô se põe a dançar balé. É nesse ponto que o espectador começa a suspeitar que foi enganado (ao menos neste lado do globo… Na Índia o público deve ter adorado).

O robô é construído com aparência idêntica ao seu criador, e coube ao astro indiano Rajnikanth fazer o papel duplo no longa, tanto como Dr. Vaseegaran quanto Chitti, nome pelo qual o robô passa a ser chamado por todos. A escolha de Rajnikanth como protagonista pode ser analisada de duas formas diferentes: boa estratégia de marketing ou tiro no pé. Digo isso porque Rajnikanth é um astro na Índia, sendo assim uma ótima opção para formar par romântico com Aishwarya Rai, garantindo uma gorda bilheteria para o filme; porém ele não convence as platéias fora de seu país nas cenas de ação, com seu porte nada atlético, pose de canastrão, barriga protuberante e cara de cachaceiro (vamos dar um desconto, pois Rajnikanth tem 61 anos de idade, e já estrelou muitos filmes de ação nas décadas de 70,80 e 90).

Em contrapartida, temos como vilão do filme o ambicioso Dr. Bohra, que tenta a todo custo descobrir quais as propriedades do “Neural Scheme” de Chitti, uma espécie de programa que comanda todas as ações e capacidades cognitivas do super robô. Conseguindo se apossar dos segredos do programa, nada poderá impedi-lo de construir uma legião de robôs igualmente poderosos para serem usados na indústria bélica, conseguindo assim fortuna, poder e influência sem precedentes.

Mas como estamos falando de um filme indiano, não poderia faltar romance na história. Sana, a noiva do Dr. Vaseegaran, é constantemente negligenciada pelo cientista, que vive imerso em sua pesquisa, e quando o mesmo tem a “brilhante” idéia de criar e instalar um chip capaz de emular sentimentos humanos em Chitti, a coisa toda se complica. É óbvio que o robô vai se apaixonar pela carente e frágil personalidade de Sana, e começará a disputar a atenção da moça com seu criador. Daí para frente a trama fica um pouco mais movimentada e interessante, mas sofre com o excesso de clichês e idéias mirabolantes.

Apenas para citar duas façanhas esdrúxulas de Chitti: após aprender sobre o ciclo de reprodução humano, ele acaba fazendo as vezes de parteira em um hospital, quando todas as esperanças de salvar um bebê já haviam desaparecido, com direito a exibição do parto ao vivo em uma rede de TV; em outra ocasião, persegue um pernilongo pela cidade, para obrigá-lo a se desculpar (?) por ter picado Sana, com direito a um inacreditável diálogo entre o robô e o mosquito…

Outra característica marcante dos filmes indianos é a presença de várias cenas de song-and-dance, que funcionam como videoclipes das músicas da trilha sonora do filme. A dinâmica é diferente dos musicais tradicionais, em que os personagens começam a cantar e dançar durante a cena, muitas vezes travando diálogos ou contando histórias. Estas intervenções musicais são feitas entre uma cena e outra, por vezes apresentando os personagens em diferentes locações e trajando outros figurinos, com letras que geralmente expressam as emoções que estão sentindo naquele momento da trama. Como tudo por lá tende a ser exagerado, muitas vezes estas cenas são verdadeiras superproduções, como a que foi gravada em Machu Picchu, presente em ENDHIRAN. Para quem não está acostumado, estas pausas são um balde de água fria no ritmo da história.

E o filme vai se arrastando em meio aos tropeços do roteiro, que não consegue em momento algum seguir uma mesma linha, deixando-o extremamente cansativo e repetitivo. Para se ter uma idéia, as situações vividas pelos personagens são uma mistura indigesta de cenas de ação, comédia pastelão, romance, momentos de tensão e os já citados números musicais. Quando você pensa que o ciclo chegou ao fim, começa tudo outra vez. Ou seja, é difícil aguentar as quase 03 horas do filme sem desistir no meio da jornada.

Mas para àqueles que se dispuserem a enfrentar tamanho suplício, o final do filme é uma grande recompensa. Os últimos 30 minutos do longa são repletos de ação, e tem uma sequência inacreditável de cenas de perseguição e destruição, protagonizadas por um exército de robôs ensandecidos. Vocês entenderão melhor minha empolgação quando assistirem ao vídeo no fim do post, editado com as melhores cenas de ação da produção.

Resumindo: embora eu não tenha gostado de ENDHIRAN, eu não cometeria a injustiça de rotulá-lo como um filme ruim, pois ele possui todas as peculiaridades cinematográficas que seu público alvo admira, e as executa com maestria. Creio que este é apenas um filme feito para um público específico, sem pretensão alguma de se tornar um produto de exportação, ou de ser compreendido fora de seu país. Quem gosta, ótimo. Quem não gosta, que faça seu próprio cinema.