Como vocês já notaram, o blog passou por um certo período sem atualizações, pois tanto eu quanto o Batata não estávamos com muito tempo para escrever as resenhas. Mas voltamos, e como reparei que tenho escrito muito sobre cinema asiático, hoje é dia de filme norte-americano aqui no Película Raivosa! Aguardem os novos textos do Batata, tenho certeza que serão bem interessantes! Boa leitura e até a próxima atualização!

Um presidiário negro é executado, após ter sido condenado pelo estupro e assassinato de 15 mulheres brancas. No mesmo momento da execução, uma jovem entediada brinca inocentemente com um tabuleiro ouija em sua casa. O espírito maligno do presidiário é atraído pelo tabuleiro e após fazer contato com a moça, incorpora em um de seus bonecos. Será esse mais um blockbuster de terror acéfalo, oriundo da terra do Tio Sam? Mais uma dessas regravações de algum filme de sucesso do fim dos anos 80, que estão tão em moda hoje em dia, onde se altera vários detalhes do roteiro original para mascarar a completa falta de originalidade da turma financiada pelos grandes estúdios de Hollywood? Será então uma nova roupagem para o cultuado BRINQUEDO ASSASSINO, de Tom Holland? Não leitor… Para nossa sorte, o buraco é mais embaixo.

O filme BLACK DEVIL DOLL pode ser considerado uma evolução de outro longa do qual é quase homônimo, o tosco BLACK DEVIL DOLL FROM HELL. Em 1984, o aspirante a cineasta Chester Novell Turner levou às telas (ao vídeo, para ser mais exato) a história de um boneco possuído por uma entidade maligna, que tinha o poder de realizar o desejo mais íntimo da pessoa que o possuísse. Bem, como estamos falando de um filme trash amador da década de 80, não é de se espantar que o desejo da dona do boneco, uma fanática religiosa na casa dos 35 anos, era exatamente ser possuída por um homem.

Não sei qual foi a intenção de Chester Novell Turner ao fazer BLACK DEVIL DOLL FROM HELL, mas a impressão que ficou, ao menos para mim, é de que ele fracassou de forma retumbante. Poucas vezes em minha vida fiz tanta força para assistir um filme na íntegra, e acreditem, estou acostumado a porcarias cinematográficas de todo tipo. Nada funciona neste longa: o boneco demoníaco usa roupa de presidiário e tem trancinhas, ninguém em sã consciência compraria um boneco escroto como esse em uma loja de artigos para magia; a protagonista não pode sequer ser chamada de atriz, tamanha é sua inaptidão em atuar; o ritmo do filme é lento ao extremo, e nem as cenas em que o boneco está fazendo das suas melhoram o andamento desta porcaria; a trilha sonora é horrível, chega a ser torturante de tão alta e dissonante, basicamente um músico ruim mexendo em um teclado ou sintetizador, criando melodias absurdamente simples e fora de compasso, com uns apitos tão altos que chegam a atrapalhar o entendimento dos diálogos; a cenografia e fotografia são bem pobres, até mesmo porque os equipamentos utilizados na produção não foram dos melhores (geralmente utilizado em programas de TV, o videotape tem uma imagem bem fosca e sem contraste, se comparado à películas usadas em produções profissionais).

Mas apesar de tantos pontos negativos, BLACK DEVIL DOLL FROM HELL tem status de filme cult para alguns, e como eu já havia mencionado, serviu de inspiração para que Jonathan Lewis realizasse seu BLACK DEVIL DOLL em 2007. O filme de Jonathan Lewis não é de forma alguma uma obra-prima, mas é infinitamente melhor e mais divertido que seu predecessor.

O filme copia a estética dos sexploitations feitos na década de 70, mas não utiliza efeitos digitais na imagem para emular falhas comuns em películas antigas, como foi feito em PLANETA TERROR de Robert Rodriguez, DEATH PROOF de Quentin Tarantino e mais recentemente nos primeiros minutos de MACHETE, outro filme de Rodriguez. É digna de destaque também a trilha sonora funkeada, muito bem encaixada e executada, completando a atmosfera setentista da produção.

O roteiro é simples e não esconde do espectador a verdadeira intenção do diretor: fazer um filme cômico, anárquico, repleto de sangue e mulheres nuas. Falando no elenco feminino do longa, temos cinco garotas de formas bem avantajadas e com pinta de atrizes pornográficas, trajando pouca ou nenhuma roupa, fingindo que estão atuando. Prato cheio para os onanistas de plantão.

Deixando de lado os pormenores (ou “pormaiores” – assistam ao filme e entendam o porquê deste trocadilho infame), voltemos à trama do filme: após ter incorporado no boneco que estava no sofá da garota que brincava com o tabuleiro ouija, numa cena bizarra em que o boneco muda de cor e ganha um penteado afro e uma boina, ele logo ganha sua confiança e se torna seu namorado (?), para desespero de seu ex, que fica indignado com o novo relacionamento da garota.

A personalidade do boneco é o estereótipo do homem negro presente nos filmes de gênero Blacksploitation: marginal, garanhão, boca-suja e agressor de mulheres. A dublagem do boneco é sensacional, lembra muito a voz e a entonação de Samuel L. Jackson em filmes como PULP FICTION, JACKIE BROWN e SHAFT. Cada frase proferida por ele é permeada por preconceito, sexismo e palavrões. E é exatamente por ser tão caricato que este personagem se torna hilário.

Depois de um breve espaço de tempo aproveitando o novo relacionamento, o boneco exige que sua namorada traga algumas amigas para sua casa, alegando estar entediado de fazer sexo com apenas uma mulher… Ele então arma uma emboscada para elas, pois sente novamente vontade de violentar e matar.

E o filme segue em frente, em meio a strip-teases, diálogos risíveis, muita nudez gratuita, sexo softcore entre as mulheres e o boneco, atuações pobres e violência de todo tipo: facadas, pauladas, eletrocução, estupros e necrofilia. Garantia de diversão para os amantes do cinema trash e extremo.

Quando foi exibido em 2009 no 4º CineFantasy – Festival Curta Fantástico em São Paulo, integrando a mostra não-competitiva de longas do festival, a diversão começou antes mesmo do início da sessão: a diretora da Biblioteca Viriato Corrêa, espaço que estava exibindo o longa, compareceu à fila fora da sala e pediu que todos ali apresentassem o RG para provar que eram maiores de idade. A risadaria foi geral, mas de fato ninguém entrou sem apresentar o documento a ela… Não era para tanto, mas valeu para aumentar a expectativa antes da exibição desta pérola do cinema politicamente incorreto.

Vale a pena dar uma olhada no site que a produtora Lowest Common Denominator fez para o filme, e se vocês não possuem conta no Youtube, só mesmo dessa forma para poderem assistir aos trailers da produção, clicando AQUI.

Enfim, BLACK DEVIL DOLL é indicado para pessoas que não se ofendem com este tipo de humor, para amantes de sexploitation, fãs de cinema trash e claro, para homens safados em geral.

(Edit em 21/02/2011: Como eu disse acima, no Youtube é preciso acessar sua conta e confirmar que tem ao menos 18 anos para ver o trailer do filme, mas pelo jeito ele rola aqui no blog sem frescura…)