Imaginem uma cidade que começa a ser assombrada por espirais. Isso mesmo, espirais. Pois foi essa idéia louca que surgiu da cabeça de Junji Ito, criador do mangá Uzumaki, grande sucesso de vendas no Japão. Esta história insólita foi adaptada para a telona por Higuchinsky, pseudônimo do cineasta Akihiro Higuchi, nascido na Ucrânia.

A trama é simples: Kirie Goshima mora em Kurozu-cho, aparentemente uma pacata cidadezinha japonesa, e leva uma vida como a de qualquer adolescente. Ela possuí um amigo de infância chamado Shuichi Saito, pelo qual nutre uma silenciosa paixão. Em meio à calmaria em que os personagens vivem, algo inusitado começa a ocorrer. Shuichi repara que seu pai desenvolve um profundo fascínio por espirais, e que este fascínio logo vira obsessão.

O pai de Shuichi começa a colecionar qualquer objeto que tenha forma de espiral, ou que ao menos tenha uma espiral desenhada, e até larga seu emprego para passar todo o seu tempo em casa observando os objetos, em transe. A loucura do pai de Shuichi é tanta que, ao ser questionado por sua mulher e filho sobre sua estranha conduta, torna-se violento, e passa cada vez mais tempo isolado com sua coleção, murmurando sobre como espirais são perfeitas.

Outros bizarros acontecimentos se desenrolam na cidade: alunos que passam a se mover cada vez mais lentamente, liberando uma éspécie de gosma através da pele; suícidios e mortes acidentais em locais que estão ligados à objetos circulares; nuvens que se comportam de forma não natural, formando padrões em espiral no céu e por aí vai…

O roteiro explora bem a loucura dos personagens e a atmosfera de suspense sobrenatural que permeia a história, mas fiquei com a sensação de que alguns pontos da trama não foram elucidados, o que infelizmente é bem comum quando falamos de uma adaptação de outras mídias para o cinema.

O mangá é ainda mais estranho...

Higuchinsky mostra competência técnica no que se refere aos aspectos visuais do filme; é notório o cuidado do diretor com a utilização das cores (o filme todo tem um aspecto frio, esverdeado) e é curioso o fato de que, em uma ou outra cena, existam espirais surgindo na tela, quase imperceptíveis, como pequenas mensagens subliminares. O andamento do longa me lembrou um pouco outras obras de horror japonês do mesmo período, como os conhecidos JU-ON (de Takashi Shimizu, 2002) e RINGU (de Hideo Nakata, 1998), embora este filme não seja calcado em sustos repentinos e atmosfera opressiva como estes outros dois.

Falando na atmosfera do filme, é interessante reparar que o diretor escolheu uma roupagem leve para a obra, contando com alguns momentos cômicos, focando nos jovens protagonistas.  Em alguns momentos chega a lembrar a dinâmica de um telefilme, talvez porque no mesmo ano em que trabalhava em UZUMAKI, Higuchinsky tenha dirigido LONG DREAM, um filme feito para a TV japonesa, que está entre a linha do média e do longa metragem, com apenas 58 minutos de duração (adaptação de outro mangá de Junji Ito).

Apesar do mangá Uzumaki ser considerado obra-prima por muitos, as opiniões costumam se dividir quando o assunto é o filme; há quem ache esta adaptação desprezível, assim como não é difícil ver boas críticas do longa por aí. Isso ocorre principalmente porque o final do filme é inconclusivo e difere do desfecho da obra original, uma vez que o mangá ainda não havia sido finalizado pelo autor quando a história foi levada às telas.

Em resumo, UZUMAKI é um filme que agrada aos fãs de horror, embora seja um filme de suspense surreal, e as suas poucas deficiências são compensadas pelo visual caprichado e roteiro imprevisível. Vale a pena dar uma olhada com mais cuidado nesta obra.

PS: Para os que se interessaram, o mangá escrito por Junji Ito foi lançado no Brasil pela Conrad Editora em três volumes.