Este filme que o Batata recomendou parece ser bem tenso… Ia assistir o americano, pois não sabia que se tratava de regravação, mas com certeza esse deve ser mais interessante. Leiam a resenha dele, assistam e tirem suas conclusões!

Em grande parte, o cinema alemão foi marcado pelas duas grandes guerras. Com o fim da primeira guerra mundial, surge o cinema expressionista alemão; filmes de temática pessimista, fotografia sombreada, e personagens sofridos, deprimidos, em uma realidade desesperadora de cenários distorcidos como pesadelos, que era o clima pós-guerra. Grandes obras desse gênero são DAS KABINETT VON DR. CALIGARI (1920 – Robert Wiene), SCHLOß VOGELÖD (1921 – F.W. Murnau), NOSFERATU (1922 – F.W. Murnau), FAUST – EINE DEUTSCHE VOLKSSAGE (1926 – F.W. Murnau), METROPOLIS (1926 – Fritz Lang), entre outras. Mas maior ainda foi o impacto da segunda guerra mundial.

Se o cinema de horror alemão antes era simbolizado pelo expressionismo, atualmente seu grande forte é o horror psicológico que, direta ou indiretamente, quase sempre aborda o nazismo.  Não é raro assistir a um filme alemão que tenha a frase “Seu maldito nazista”.

E é com essa introdução que começo a falar sobre esse filme, DAS EXPERIMENT, lançado no Brasil pela Europa Filmes com o nome de A EXPERIÊNCIA (por favor não confundir com o outro filme A EXPERIÊNCIA, THE SPECIES de 1995), e baseado no romance Black Box de Mario Giordano; um dos roteiristas do filme, e dirigido por Oliver Hirschbiegel.

DAS EXPERIMENT trata de uma experiência de duas semanas em um presídio, com voluntários escolhidos aleatoriamente através de um anúncio no jornal. As únicas informações que possuem, além da quantia que irão receber, é que alguns serão guardas, alguns serão prisioneiros, serão monitorados 24 horas, e poderão passar por situações extremas.

Os papéis de cada um são definidos através de entrevistas, daí o jogo começa. Os guardas são informados que devem manter a ordem, porém sem usar de violência. Os prisioneiros são levados até suas celas, tudo num clima de brincadeira, pois sabem que tudo não passa de um jogo. Entre os prisioneiros, encontra-se Tarek Fahd (Moritz Bleibtreu), um taxista, ex-jornalista, que vê na experiência uma oportunidade de escrever a matéria que poderá representar seu retorno à antiga profissão.

Basta um dos prisioneiros recusar-se a tomar leite para que a bomba relógio seja ligada. Os guardas tentam se impor, os prisioneiros se tornam insubordinados e provocam caos na prisão. Após um breve momento de desnorteio, os guardas passam a utilizar a arma da qual eles dispõe já que não podem ser violentos: humilhação.

A partir daí, o filme torna-se cada vez mais tenso, agressivo, o clima no presídio torna-se de desespero e medo, e tudo acontece tão rápido e de forma tão intensa, que até mesmo alguns dos cientistas passam a se questionar sobre a experiência. Tarek, com sede de escrever uma grande história, provoca os guardas como pode, o que poderia para alguns soar até heróico, mas na minha opinião são atos totalmente egoístas que apenas prejudicam seu próprio grupo. Justamente devido a esse comportamento, os cientistas consideram Tarek uma das peças chave da experiência, juntamente com Berus (Justus Von Dohnányi), que se torna uma espécie de líder dos guardas megalomaníacos.

O filme prende a atenção, mas confesso que acho totalmente desnecessária a presença da personagem Dora (Margen Eggert), o interesse amoroso (não sei por que, já que se viram apenas uma noite e ela é realmente chata) do protagonista. As cenas em que ela aparece são extremamente excessivas e quebram totalmente o ritmo do filme. Pra falar a verdade, se ela tivesse apenas uma cena já seria um excesso. Mesmo ao final, ela não faz diferença nenhuma no filme.

Tarek

 Um detalhe um pouco exagerado (que, diga-se de passagem, não existe no livro) são os óculos de espião que Tarek usa. Quando ele vai até um amigo que os entrega, parecia James Bond recebendo um acessório, e achei que não combinava muito com o clima mais realista que o filme tentava levar. Apesar disso, até que os óculos proporcionam momentos interessantes. Reparem que, sempre que Tarek tenta ter uma conversa mais amigável com alguém, ele tira os óculos, como que para proteger sua intimidade.

Como eu havia comentado anteriormente, as referências ao nazismo são praticamente explícitas, com guardas tratando da forma que entendem os prisioneiros, se sentindo a própria raça superior. E como eu havia citado antes, não falta o grito de “nazista nojento!”.

O ator Moritz Bleibtreu é um dos maiores astros da Alemanha, e como pode ser visto no filme, o cara realmente não é nada mal na atuação. No Brasil ele é mais conhecido por seu papel como o namorado de Lola em CORRA LOLA CORRA (LOLA RENNT de 1998). Já Justus Von Dohnányi pode ser visto interpretando o General Wilhelm Burgdorf no filme A QUEDA: AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER (DER UNTERGANG de 2004), também dirigido por Oliver Hirschbiegel. Aliás, é difícil de acreditar que o mesmo diretor de dois filmes tão bons, tenha dirigido também A INVASÃO (THE INVASION de 2007), pavorosa refilmagem de VAMPIROS DE ALMAS (INVASION OF THE BODY SNATCHERS de 1956), com Nicole Kidman e Daniel Craig.

Entre os prêmios que DAS EXPERIMENT recebeu, estão o de Melhor Diretor no Festival de Montreal, de Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Direção de Arte (Andrea Kessler, Uli Hanisch), todos esses prêmios da Academia de Cinema da Alemanha (The Golden Lola). Além de tudo foi a seleção oficial da Alemanha na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2002.

Como já é de praxe com os bons filmes de língua não-inglesa, DAS EXPERIMENT ganhou uma refilmagem em 2010, chamada THE EXPERIMENT (no Brasil, DETENÇÃO), com Adrian Brody e Forest Whitaker. Ainda não assisti, mas é difícil imaginar um resultado positivo em um filme hollywoodiano em uma história que tem a essência tão cravada na Alemanha quanto esta.

Bom, apenas para finalizar, vale citar que a história foi baseada no “Experimento da Prisão de Stanford”, que foi um experimento real realizado em 1971. E fica a dica, mesmo para quem viu ou pretende ver a refilmagem, não deixem de dar uma olhada no original.

Escrito por Renato Batarce.