Poster do filme

Como sempre digo, os asiáticos em geral têm uma forma muito peculiar de fazer cinema, normalmente ousada e inovadora, sendo muito comum nos depararmos com filmes que desafiam os limites do aceitável dentro dos padrões vigentes na indústria cinematográfica. E com isso, tanto o espectador quanto os profissionais que trabalham na área só tem a ganhar.

Peguemos como exemplo este belo filme de Gen Sekiguchi, SURVIVE STYLE 5+, feito em 2004. O enredo é absurdo do início ao fim, mas os personagens, atuações e a linguagem pop utilizada pelo diretor para contar a história acabam por cativar o espectador já nos primeiros minutos do longa.

Na cena inicial, vemos o protagonista (o quase onipresente Tadanobu Asano, estrela de 09 entre 10 produções japonesas da atualidade que chegam comercialmente ao ocidente) em um bosque, enterrando um corpo. Algumas cenas depois, ao voltar para casa, fica surpreso ao perceber que sua mulher, que devia estar morta e enterrada (literalmente) o espera na cozinha, como se nada houvesse acontecido com ela. Se já não bastasse este absurdo, ela lhe prepara um banquete gigantesco, o qual ele leva o dia todo para comer. A esposa do protagonista assiste calmamente ele se fartar com as iguarias preparadas por ela, e assim que seu marido termina a refeição horas depois, ela abandona seu semblante terno e amável e se transforma em uma ensandecida assassina, disposta a acabar com ele a todo custo.

Isso ocorre nos primeiros minutos da trama, e vai se repetir por muitas vezes ao longo do filme, uma vez que o único modo encontrado pelo protagonista para se defender da fúria de sua esposa é matando-a novamente. E não pensem que é uma tarefa fácil, pois a mulher é incrivelmente ágil e forte, chegando a destruir móveis e paredes com socos e pontapés, atirando longe seu marido a cada golpe dado.

A esposa imortal

Mas o filme não conta apenas esta história. Alguns outros personagens permeiam a trama, protagonizando acontecimentos igualmente bizarros e engraçados, e todas estas histórias convergem para um final surpreendente.

Temos três jovens vagabundos que vivem de roubar apartamentos e casas que se encontram vazias durante o dia; um matador de aluguel inglês que viaja ao Japão para um trabalho específico, mas que acaba por fazer free-lancers nas horas vagas na agência de matadores de aluguel (?) que o contratou (Vinnie Jones, mais conhecido por suas participações em JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES e SNATCH, ambos de Guy Ritchie); um senhor de meia-idade que leva a família para um show de hipnotismo em que acaba se dando mal e uma publicitária com senso de humor duvidoso, que tem súbitos lampejos de inspiração em horas e locais inconvenientes.

Destaco aqui a ótima direção de arte do filme, pois tanto o figurino como os cenários são incrivelmente coloridos, e a fotografia e edição do longa ressaltam estas qualidades de forma muito inteligente e dinâmica. O filme todo parece ser um grande videoclipe, com um ritmo rápido, imagens impactantes e uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente com o que é mostrado na tela. Em alguns momentos tive até a impressão de estar assistindo algum filme de Quentin Tarantino, tamanho é o apelo que as músicas têm com as cenas em si.

Este filme é o primeiro longa de Gen Sekiguchi, que anteriormente havia dirigido dois curtas, WORST CONTACT em 2000 e BUS PANIC! Em 2001, e que no Japão era conhecido por ter dirigido alguns clipes da banda Supercar. Após um hiato de aproximadamente 07 anos, o público japonês poderá assistir na telona outra obra de Sekiguchi, pois está marcada para dia 15 de janeiro a estréia de uma comédia aparentemente dividida em episódios, dirigida por cinco diretores distintos chamada SABI OTOKO SABI ONNA (ainda não possuí um título internacional definido).

Fica a dica de um ótimo filme para quem quer assistir algo com mais cérebro que as tralhas americanas que assombram nossas vidas, mas não quer nada tão complexo a ponto de estragar a diversão.