Mostra “Satoshi Kon – O Mestre dos Sonhos”, de 25/01 a 30/01

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Satoshi Kon

Em 24 de Agosto de 2010 o mundo perdeu um dos maiores artistas da indústria de animação japonesa contemporânea, Satoshi Kon, vítima de um câncer no pâncreas aos 46 anos de idade. O visionário diretor deixou uma obra pequena em quantidade, mas imensa no que se refere à qualidade, competência e relevância artística.

Tendo dirigido apenas 04 longas e uma série de TV com 13 episódios ao longo dos últimos 12 anos, Satoshi Kon conseguiu atrair a atenção do público e da crítica, ao criar belas histórias que se valiam de tramas muito bem engendradas e inteligentes, tendo predileção por roteiros de apelo fantástico e onírico, contendo críticas à sociedade japonesa atual, com personagens complexos, dotados de fraquezas e defeitos.

Começa a partir de amanhã no Centro Cultural São Paulo a Mostra “Satoshi Kon – O Mestre dos Sonhos”, que conta com a exibição de todos os filmes do diretor e a série Paranoia Agent na íntegra, assim como o média metragem MAGNETIC ROSE, escrito por Satoshi Kon em conjunto com Katsuhiro Otomo (o gênio por trás da obra-prima AKIRA) e ROUJIN Z, no qual ele foi responsável pela animação.

Não percam a oportunidade de prestar homenagem à memória do mestre Satoshi Kon, assistindo na telona obras máximas como PAPRIKA e TOKYO GODFATHERS!

Segue abaixo a relação de filmes e suas sinopses, a programação no site do Centro Cultural São Paulo pode ser vista AQUI. Recado dado!

Mestre Satoshi (1963 - 2010)

 

PERFECT BLUE

(Pafekuto Buru, Japão, 1998, 80min)
direção: Satoshi Kon
Mimi deixou sua carreira de cantora para se tornar atriz, mas seus fervorosos fãs não gostam da mudança. Estressada e em dúvida, ela começa a ter lapsos de memória e, além disso, seus amigos começam a ser assassinados.

Perfect Blue

MILLENIUM ACTRESS

(Sennen Joyu, Japão, 2001, 87min)
direção: Satoshi Kon
Vida e carreira da atriz Chiyoko Fujiwara. O filme revela a partir de flashbacks dos filmes que estrelou o verdadeiro motivo que levou a artista a seguir carreira nos cinemas.

Millenium Actress

TOKYO GODFATHERS

(idem, Japão, 2003, 92min)
direção: Satoshi Kon
As vidas de três mendigos são transformadas para sempre quando eles encontram um bebê abandonado no lixo na véspera de Natal em Tóquio. Com o Ano Novo se aproximando, os três se unem para desvendar o mistério.

 

PAPRIKA

(Papurika, Japão, 2006, 90min)
direção: Satoshi Kon
Num futuro próximo, Dr. Tokita inventa um poderoso aparelho chamado DC-Mini, que torna possível o acesso aos sonhos das pessoas. Antes de seu uso ser sancionado pelo governo, o aparelho é roubado.

Paprika

MAGNETIC ROSE

(idem, Japão, 1995, 45min)
direção: Koji Morimoto
Curta-metragem escrito por Satoshi Kon que faz parte do longa-metragem MEMORIES. Na animação, três astronautas vão parar em uma nave abandonada no espaço que contém um mundo inteiro dentro dela, criado pelas memórias de uma mulher.

 

ROUJIN Z

(Rojin Zetto, Japão, 1991, 80min)
direção: Hiroyuki Kitakubo
A população do Japão está envelhecendo rapidamente e o governo propõe uma solução para diminuir os gastos com saúde: uma cama eletrônica que forneça ao paciente o mesmo que uma enfermeira de verdade possa oferecer. O senhor Takazawa é escolhido como cobaia, mas uma enfermeira, ao perceber seu sofrimento, tenta salvá-lo. Escrito por Katsuhiro Otomo. Satoshi Kon foi responsável pela animação.

 

PARANOIA AGENT

(idem, Japão, 2004, 120min)
direção: Satoshi Kon
Série de 13 capítulos, criada pelo diretor Satoshi Kon. Produzido pelo famoso estúdio de animação japonesa MadHouse, a série é centrada num assassino serial e no fenômeno social causado pela agressividade de seus ataques. Casa episódio é centrado em personagens diferentes e em como esses eventos influem em suas vidas.

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UZUMAKI (Higuchinsky – 2000)

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Imaginem uma cidade que começa a ser assombrada por espirais. Isso mesmo, espirais. Pois foi essa idéia louca que surgiu da cabeça de Junji Ito, criador do mangá Uzumaki, grande sucesso de vendas no Japão. Esta história insólita foi adaptada para a telona por Higuchinsky, pseudônimo do cineasta Akihiro Higuchi, nascido na Ucrânia.

A trama é simples: Kirie Goshima mora em Kurozu-cho, aparentemente uma pacata cidadezinha japonesa, e leva uma vida como a de qualquer adolescente. Ela possuí um amigo de infância chamado Shuichi Saito, pelo qual nutre uma silenciosa paixão. Em meio à calmaria em que os personagens vivem, algo inusitado começa a ocorrer. Shuichi repara que seu pai desenvolve um profundo fascínio por espirais, e que este fascínio logo vira obsessão.

O pai de Shuichi começa a colecionar qualquer objeto que tenha forma de espiral, ou que ao menos tenha uma espiral desenhada, e até larga seu emprego para passar todo o seu tempo em casa observando os objetos, em transe. A loucura do pai de Shuichi é tanta que, ao ser questionado por sua mulher e filho sobre sua estranha conduta, torna-se violento, e passa cada vez mais tempo isolado com sua coleção, murmurando sobre como espirais são perfeitas.

Outros bizarros acontecimentos se desenrolam na cidade: alunos que passam a se mover cada vez mais lentamente, liberando uma éspécie de gosma através da pele; suícidios e mortes acidentais em locais que estão ligados à objetos circulares; nuvens que se comportam de forma não natural, formando padrões em espiral no céu e por aí vai…

O roteiro explora bem a loucura dos personagens e a atmosfera de suspense sobrenatural que permeia a história, mas fiquei com a sensação de que alguns pontos da trama não foram elucidados, o que infelizmente é bem comum quando falamos de uma adaptação de outras mídias para o cinema.

O mangá é ainda mais estranho...

Higuchinsky mostra competência técnica no que se refere aos aspectos visuais do filme; é notório o cuidado do diretor com a utilização das cores (o filme todo tem um aspecto frio, esverdeado) e é curioso o fato de que, em uma ou outra cena, existam espirais surgindo na tela, quase imperceptíveis, como pequenas mensagens subliminares. O andamento do longa me lembrou um pouco outras obras de horror japonês do mesmo período, como os conhecidos JU-ON (de Takashi Shimizu, 2002) e RINGU (de Hideo Nakata, 1998), embora este filme não seja calcado em sustos repentinos e atmosfera opressiva como estes outros dois.

Falando na atmosfera do filme, é interessante reparar que o diretor escolheu uma roupagem leve para a obra, contando com alguns momentos cômicos, focando nos jovens protagonistas.  Em alguns momentos chega a lembrar a dinâmica de um telefilme, talvez porque no mesmo ano em que trabalhava em UZUMAKI, Higuchinsky tenha dirigido LONG DREAM, um filme feito para a TV japonesa, que está entre a linha do média e do longa metragem, com apenas 58 minutos de duração (adaptação de outro mangá de Junji Ito).

Apesar do mangá Uzumaki ser considerado obra-prima por muitos, as opiniões costumam se dividir quando o assunto é o filme; há quem ache esta adaptação desprezível, assim como não é difícil ver boas críticas do longa por aí. Isso ocorre principalmente porque o final do filme é inconclusivo e difere do desfecho da obra original, uma vez que o mangá ainda não havia sido finalizado pelo autor quando a história foi levada às telas.

Em resumo, UZUMAKI é um filme que agrada aos fãs de horror, embora seja um filme de suspense surreal, e as suas poucas deficiências são compensadas pelo visual caprichado e roteiro imprevisível. Vale a pena dar uma olhada com mais cuidado nesta obra.

PS: Para os que se interessaram, o mangá escrito por Junji Ito foi lançado no Brasil pela Conrad Editora em três volumes.

DAS EXPERIMENT (Oliver Hirschbiegel – 2001)

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Este filme que o Batata recomendou parece ser bem tenso… Ia assistir o americano, pois não sabia que se tratava de regravação, mas com certeza esse deve ser mais interessante. Leiam a resenha dele, assistam e tirem suas conclusões!

Em grande parte, o cinema alemão foi marcado pelas duas grandes guerras. Com o fim da primeira guerra mundial, surge o cinema expressionista alemão; filmes de temática pessimista, fotografia sombreada, e personagens sofridos, deprimidos, em uma realidade desesperadora de cenários distorcidos como pesadelos, que era o clima pós-guerra. Grandes obras desse gênero são DAS KABINETT VON DR. CALIGARI (1920 – Robert Wiene), SCHLOß VOGELÖD (1921 – F.W. Murnau), NOSFERATU (1922 – F.W. Murnau), FAUST – EINE DEUTSCHE VOLKSSAGE (1926 – F.W. Murnau), METROPOLIS (1926 – Fritz Lang), entre outras. Mas maior ainda foi o impacto da segunda guerra mundial.

Se o cinema de horror alemão antes era simbolizado pelo expressionismo, atualmente seu grande forte é o horror psicológico que, direta ou indiretamente, quase sempre aborda o nazismo.  Não é raro assistir a um filme alemão que tenha a frase “Seu maldito nazista”.

E é com essa introdução que começo a falar sobre esse filme, DAS EXPERIMENT, lançado no Brasil pela Europa Filmes com o nome de A EXPERIÊNCIA (por favor não confundir com o outro filme A EXPERIÊNCIA, THE SPECIES de 1995), e baseado no romance Black Box de Mario Giordano; um dos roteiristas do filme, e dirigido por Oliver Hirschbiegel.

DAS EXPERIMENT trata de uma experiência de duas semanas em um presídio, com voluntários escolhidos aleatoriamente através de um anúncio no jornal. As únicas informações que possuem, além da quantia que irão receber, é que alguns serão guardas, alguns serão prisioneiros, serão monitorados 24 horas, e poderão passar por situações extremas.

Os papéis de cada um são definidos através de entrevistas, daí o jogo começa. Os guardas são informados que devem manter a ordem, porém sem usar de violência. Os prisioneiros são levados até suas celas, tudo num clima de brincadeira, pois sabem que tudo não passa de um jogo. Entre os prisioneiros, encontra-se Tarek Fahd (Moritz Bleibtreu), um taxista, ex-jornalista, que vê na experiência uma oportunidade de escrever a matéria que poderá representar seu retorno à antiga profissão.

Basta um dos prisioneiros recusar-se a tomar leite para que a bomba relógio seja ligada. Os guardas tentam se impor, os prisioneiros se tornam insubordinados e provocam caos na prisão. Após um breve momento de desnorteio, os guardas passam a utilizar a arma da qual eles dispõe já que não podem ser violentos: humilhação.

A partir daí, o filme torna-se cada vez mais tenso, agressivo, o clima no presídio torna-se de desespero e medo, e tudo acontece tão rápido e de forma tão intensa, que até mesmo alguns dos cientistas passam a se questionar sobre a experiência. Tarek, com sede de escrever uma grande história, provoca os guardas como pode, o que poderia para alguns soar até heróico, mas na minha opinião são atos totalmente egoístas que apenas prejudicam seu próprio grupo. Justamente devido a esse comportamento, os cientistas consideram Tarek uma das peças chave da experiência, juntamente com Berus (Justus Von Dohnányi), que se torna uma espécie de líder dos guardas megalomaníacos.

O filme prende a atenção, mas confesso que acho totalmente desnecessária a presença da personagem Dora (Margen Eggert), o interesse amoroso (não sei por que, já que se viram apenas uma noite e ela é realmente chata) do protagonista. As cenas em que ela aparece são extremamente excessivas e quebram totalmente o ritmo do filme. Pra falar a verdade, se ela tivesse apenas uma cena já seria um excesso. Mesmo ao final, ela não faz diferença nenhuma no filme.

Tarek

 Um detalhe um pouco exagerado (que, diga-se de passagem, não existe no livro) são os óculos de espião que Tarek usa. Quando ele vai até um amigo que os entrega, parecia James Bond recebendo um acessório, e achei que não combinava muito com o clima mais realista que o filme tentava levar. Apesar disso, até que os óculos proporcionam momentos interessantes. Reparem que, sempre que Tarek tenta ter uma conversa mais amigável com alguém, ele tira os óculos, como que para proteger sua intimidade.

Como eu havia comentado anteriormente, as referências ao nazismo são praticamente explícitas, com guardas tratando da forma que entendem os prisioneiros, se sentindo a própria raça superior. E como eu havia citado antes, não falta o grito de “nazista nojento!”.

O ator Moritz Bleibtreu é um dos maiores astros da Alemanha, e como pode ser visto no filme, o cara realmente não é nada mal na atuação. No Brasil ele é mais conhecido por seu papel como o namorado de Lola em CORRA LOLA CORRA (LOLA RENNT de 1998). Já Justus Von Dohnányi pode ser visto interpretando o General Wilhelm Burgdorf no filme A QUEDA: AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER (DER UNTERGANG de 2004), também dirigido por Oliver Hirschbiegel. Aliás, é difícil de acreditar que o mesmo diretor de dois filmes tão bons, tenha dirigido também A INVASÃO (THE INVASION de 2007), pavorosa refilmagem de VAMPIROS DE ALMAS (INVASION OF THE BODY SNATCHERS de 1956), com Nicole Kidman e Daniel Craig.

Entre os prêmios que DAS EXPERIMENT recebeu, estão o de Melhor Diretor no Festival de Montreal, de Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Direção de Arte (Andrea Kessler, Uli Hanisch), todos esses prêmios da Academia de Cinema da Alemanha (The Golden Lola). Além de tudo foi a seleção oficial da Alemanha na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2002.

Como já é de praxe com os bons filmes de língua não-inglesa, DAS EXPERIMENT ganhou uma refilmagem em 2010, chamada THE EXPERIMENT (no Brasil, DETENÇÃO), com Adrian Brody e Forest Whitaker. Ainda não assisti, mas é difícil imaginar um resultado positivo em um filme hollywoodiano em uma história que tem a essência tão cravada na Alemanha quanto esta.

Bom, apenas para finalizar, vale citar que a história foi baseada no “Experimento da Prisão de Stanford”, que foi um experimento real realizado em 1971. E fica a dica, mesmo para quem viu ou pretende ver a refilmagem, não deixem de dar uma olhada no original.

Escrito por Renato Batarce.

THE UNTOLD STORY (Herman Yau – 1993)

6 Comentários

Deve fazer uns 10 anos que assisti THE UNTOLD STORY pela primeira vez. Na época, assim que acabou de rodar, rebobinei o VHS e vi de novo. Sempre que revejo este filme, tenho a mesma sensação: é um dos filmes mais insanos e divertidos que já vi. Hong Kong realmente não costuma decepcionar.

Os primeiros dois ou três minutos do filme são preenchidos com o passado do protagonista Wong Chi Hang, interpretado de forma brilhante por Anthony Wong, que inclusive recebeu o prêmio de Melhor Ator no Hong Kong Film Awards de 1993 por esta atuação. Na cena vemos uma briga ocorrida em Hong Kong por razão de uma dívida criada em um jogo de Mahjong, e ao ser informado de que não receberá mais dinheiro emprestado de seu amigo, Wong Chi Hang se enfurece, e não só agride seu credor como começa a destruir a casa do pobre homem, que espancado e subjugado, é queimado vivo por ele.

Foragido, Wong Chi Hang se muda para Macau (é nesta ocasião que ele tira outros documentos e troca sua identidade para a atual), e passa a viver aparentemente de forma tranqüila nos próximos anos.

Em uma calma manhã, duas crianças brincam na praia e encontram um saco com membros humanos dentro. A polícia é chamada, e o que parecia ser um filme de gênero policial sério, descamba para um pastelão com humor típico chinês. Os policiais encarregados da investigação são os maiores fanfarrões, preguiçosos e burros que a polícia poderia dispor, e o chefe deles, o oficial Lee, é um superior displicente, que se preocupa mais com as prostitutas que vive contratando e exibindo na delegacia do que com o rumo das investigações.

O foco retorna para Wong Chi Hang, agora gerenciando seu recém adquirido restaurante, especializado em tradicionais bolinhos chineses de carne de porco. Nesse ponto alguns espectadores podem achar que foram enganados pela premissa do filme, mas aí começa a loucura. Como disse antes, Anthony Wong é um ótimo ator, e ele se esforça para convencer o espectador de que é um verdadeiro demente, tamanha é a expressão de insanidade no rosto do personagem.

Wong Chi Hang maltrata os empregados e clientes do restaurante, e passa a maior parte do tempo na cozinha desossando porcos para fazer os bolinhos. Algumas cartas chegam para o antigo dono do restaurante, que desapareceu misteriosamente com toda sua família, e são recebidas pela recepcionista, que começa a desconfiar desta situação.

Mesmo com toda a incompetência dos policiais (que são uma diversão à parte no longa, cada um mais imbecil que o outro), algumas cartas reportando o desaparecimento da família são recebidas na delegacia, e após uma breve averiguação no restaurante, o protagonista passa a ser suspeito de tê-los assassinado, e não demora muito para ligarem o saco com os membros humanos ao desaparecimento da família.

Dito isso, vamos ao que interessa. Este é um dos filmes mais violentos que já vi, com cenas que apesar de simples, e até mesmo toscas, impressionam pela morbidez das ações e pela forma crua como são filmadas e interpretadas. Há uma quantidade enorme de sangue espirrando, tripas sendo arrancadas, carne dilacerada e desmembramentos durante o filme. Esqueçam estes filmecos de hoje em dia, em que a cada 05 minutos uma cabeça explode, ou uma colegial seminua é esfaqueada, ou algum tipo de tortura “super criativa” é executada em alguém, sem que ninguém atente para o fato de que é necessário o mínimo de história para que o espectador de fato fique chocado com o que é mostrado na tela. A falta de cérebro, os orçamentos gigantescos e o CGI estão matando o cinema!

Os efeitos do filme são em sua maioria muito bem feitos, apenas um braço ou uma perna eventualmente filmados em close-up tem uma aparência emborrachada e tosca, mas estamos falando de uma produção de Hong Kong… O que mais chama atenção é a cor do sangue usado nas cenas de mutilação ao longo do filme, que é de um vermelho-tinto muito vivo; embora eu não ficasse surpreso se descobrisse que foi usado sangue de porco na produção, uma vez que boa parte do filme se passa no açougue do restaurante de Wong Chi Hang, e aparentemente as tripas usadas durante a evisceração de uma das vítimas sejam realmente miúdos de porco.

A figura do protagonista é perturbadora nas cenas de assassinato, estupro e chacina que permeiam a história. A violência vem em doses cavalares, e é sadicamente criativa: olhos perfurados, mãos queimadas em água fervente, decapitações, garrafadas, automutilação, agulhadas, penetração com chopsticks e tortura psicológica.

Uma das cenas mais tensas envolve algumas crianças pequenas, e do jeito que a molecada chora, deviam estar acreditando que iam realmente virar picadinho… Anthony Wong até esbofeteia um dos moleques (esse tipo de sacanagem parece que era meio comum no cinema italiano e asiático da década de 70 e 80, vide FEIOS, SUJOS E MALVADOS e O IMPÉRIO DOS SENTIDOS).

Notáveis também são as seqüências que se passam na prisão, em que um grupo de presos surra e tortura repetidamente Wong Chi Hang. Quem está acostumado com os filmes de ação asiáticos, especialmente os de Hong Kong (desde as comédias de Kung Fu que marcaram o início da carreira de Jackie Chan até os truculentos filmes policiais dirigidos por John Woo na década de 80 e 90), sabe que em matéria de pancadaria eles são insuperáveis. Os dublês não economizam esforços para passar a idéia de que realmente estão moendo o infeliz na base da porrada.

Enfim, THE UNTOLD STORY é um filme que agrada em cheio aos fãs de bizarrices asiáticas, com sua inusitada mistura de comédia, perseguição policial e filme gore. Talvez seja mais indicado aos iniciados em cinema extremo, pois não é um filme que poupa o espectador ao mostrar as atrocidades praticadas pelo protagonista. Como diria um amigo meu: “Este é um dos maiores filhos da puta que o cinema teve o trabalho de retratar”.

Infelizmente, o filme é baseado em crimes reais que ocorreram em Macau em 1985, e na medida do possível, os fatos parecem ter sido retratados de forma bem fiel ao que realmente aconteceu, tendo sido mantido até mesmo o nome do assassino real, Wong Chi Hang. Talvez por isso o filme tenha recebido uma classificação etária equivalente ao nosso “Não recomendado para menores de 18 anos” ao ser exibido nos cinemas da China, e tanto o VHS distribuído em Hong Kong quanto o Laser Disc lançado no Japão, foram censurados em várias seqüências (para maiores detalhes da censura, dêem uma olhada AQUI). No entanto, o DVD disponível do filme possui a obra na íntegra, sem cortes.

PS: Os bolinhos chineses de carne de porco são chamados nos países de língua inglesa de pork chop buns, e um dos nomes pelo qual o filme é conhecido é HUMAN PORK CHOP. Acho que dá para imaginar o que tinha no recheio dos saborosos bolinhos…

13 BELOVED (Chukiat Sakveerakul – 2006)

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Mais uma resenha do Batata, dessa vez, um filme tailandês muito criativo, conhecido por vários nomes… Assistam!

Imagine que, você foi demitido; seu colega mau caráter foi promovido; você é sozinho; seu carro foi guinchado; está devendo ao banco, e, de repente sua mãe liga dizendo que está precisando muito de dinheiro. Infelizmente nos dias de hoje pode não ser algo incomum de acontecer, e o fato é, que muitas pessoas acabam com a própria vida por menos que isso; mas e se tudo isso pudesse mudar com um telefonema?

Foi o que aconteceu com Pusit (Krissada Terrence), protagonista de 13 BELOVED, também conhecido como 13 GAME SAYAWNG, e lançado no Brasil com o nome de 13 DESAFIOS pela Alpha Filmes.

Poster do filme

No filme, Pusit passa por todas as situações citadas anteriormente. Totalmente deprimido, recebe uma ligação onde é informado que foi selecionado para um game show, onde deverá cumprir 13 desafios, um mais difícil que o outro, sendo recompensado com quantias cada vez maiores de dinheiro ao cumprimento de cada uma. Após cumprir o primeiro desafio, que é simplesmente matar uma mosca, Pusit recebe imediatamente uma mensagem no celular, onde é informado que houve um depósito em sua conta.

A partir daí o protagonista entra definitivamente no jogo, que, segundo é informado, está sendo assistido por milhares de pessoas. Para permanecer competindo deve seguir 03 regras: Se desistir, perde tudo; se contar a alguém, perde tudo; e se tentar descobrir quem são os responsáveis pelo jogo; perde tudo.

Os desafios não se tornam apenas difíceis, mas são cada vez mais cruéis e em certas ocasiões humilhantes, levando o protagonista ao limite. O interessante, é que nunca deixamos de torcer pelo seu sucesso, mesmo nos desafios mais extremos, sabemos que se trata de um homem desesperado, que está agarrando sua última chance na vida de obter não apenas segurança financeira, mas também a chance de se sentir um vencedor a qualquer preço. São provas extremas, mas muitas vezes nos perguntamos, será que faríamos diferente na mesma situação? Afinal, refletindo bem, existem pessoas que poderiam fazer pior por menos.

O filme é ágil, com uma cena de ação bem dirigida, que se passa dentro de um ônibus, e uma trilha sonora que consegue passar uma carga emocional densa nos momentos mais extremos. O final é excelente, surpreendente, com uma pitada de crítica antiamericana (tipo, “pelo menos não somos tão frios quanto vocês”), o que torna irônico o fato de que uma refilmagem do filme já foi anunciada pela Weinstein Company. Surpreendentemente, acho que a grande falha do filme, se deu em um desafio que, além de ter sido cumprido sem querer, ainda por cima teve um final excessivamente forçado e gore, que destoou do resto do filme, e ainda por cima conta com um efeito computadorizado de doer os olhos de tão mal feito.

Mas Krissada Terrence carrega o filme nas costas. Ao decorrer do filme conseguimos captar tudo em sua expressão, a determinação, o desgaste, o conflito moral, e principalmente o desespero do personagem.

Pusit

Já a atriz Achita Wuthinounsurasit, que interpreta Tawng, única amiga de Pusit, acaba dando nos nervos, como a garota que tem a intenção de fazer o herói abrir os olhos para a realidade, mas acaba se tornando uma enxerida que não compreende a situação e só piora as coisas. Além desse filme, a atriz teve uma participação não creditada em SHUTTER (no Brasil ESPÍRITOS – A MORTE ESTÁ AO SEU LADO, de 2004).

Também conta com um grupo de personagens secundários (ou até mesmo terciários) interessantes, como a ex-namorada de Pusit, o novo namorado dela, o velho louco do ponto de ônibus, a gangue do ônibus, a velhinha da cadeira de rodas, e até mesmo um policial à la Steven Seagal.

Além de uma crítica à sociedade em geral e à ganância do indivíduo, o filme cutuca também nos espectadores voyeurs, desde reality shows até snuff vídeos, que sentem obsessão não apenas em observar as vidas alheias, mas de ver os donos dessas vidas sujeitos a situações cada vez mais extremas e humilhantes. A humanidade não é uma coisa linda?

Chukiat Sakveerakul, o diretor do filme, também foi o responsável pelo roteiro, que foi baseado num mangá escrito por Eakasit Thairatana. Além disso, também roteirizou e dirigiu 12 BEGIN, que se passa antes de 13 BELOVED, e a continuação ainda não lançada, 14 BEYOND.

Recomendadíssimo, e, não se sinta mal se ficar em dúvida sobre o que faria na mesma situação. Afinal, não passamos de imperfeitos humanos.

Escrito por Renato Batarce.

SURVIVE STYLE 5+ (Gen Sekiguchi – 2004)

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Poster do filme

Como sempre digo, os asiáticos em geral têm uma forma muito peculiar de fazer cinema, normalmente ousada e inovadora, sendo muito comum nos depararmos com filmes que desafiam os limites do aceitável dentro dos padrões vigentes na indústria cinematográfica. E com isso, tanto o espectador quanto os profissionais que trabalham na área só tem a ganhar.

Peguemos como exemplo este belo filme de Gen Sekiguchi, SURVIVE STYLE 5+, feito em 2004. O enredo é absurdo do início ao fim, mas os personagens, atuações e a linguagem pop utilizada pelo diretor para contar a história acabam por cativar o espectador já nos primeiros minutos do longa.

Na cena inicial, vemos o protagonista (o quase onipresente Tadanobu Asano, estrela de 09 entre 10 produções japonesas da atualidade que chegam comercialmente ao ocidente) em um bosque, enterrando um corpo. Algumas cenas depois, ao voltar para casa, fica surpreso ao perceber que sua mulher, que devia estar morta e enterrada (literalmente) o espera na cozinha, como se nada houvesse acontecido com ela. Se já não bastasse este absurdo, ela lhe prepara um banquete gigantesco, o qual ele leva o dia todo para comer. A esposa do protagonista assiste calmamente ele se fartar com as iguarias preparadas por ela, e assim que seu marido termina a refeição horas depois, ela abandona seu semblante terno e amável e se transforma em uma ensandecida assassina, disposta a acabar com ele a todo custo.

Isso ocorre nos primeiros minutos da trama, e vai se repetir por muitas vezes ao longo do filme, uma vez que o único modo encontrado pelo protagonista para se defender da fúria de sua esposa é matando-a novamente. E não pensem que é uma tarefa fácil, pois a mulher é incrivelmente ágil e forte, chegando a destruir móveis e paredes com socos e pontapés, atirando longe seu marido a cada golpe dado.

A esposa imortal

Mas o filme não conta apenas esta história. Alguns outros personagens permeiam a trama, protagonizando acontecimentos igualmente bizarros e engraçados, e todas estas histórias convergem para um final surpreendente.

Temos três jovens vagabundos que vivem de roubar apartamentos e casas que se encontram vazias durante o dia; um matador de aluguel inglês que viaja ao Japão para um trabalho específico, mas que acaba por fazer free-lancers nas horas vagas na agência de matadores de aluguel (?) que o contratou (Vinnie Jones, mais conhecido por suas participações em JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES e SNATCH, ambos de Guy Ritchie); um senhor de meia-idade que leva a família para um show de hipnotismo em que acaba se dando mal e uma publicitária com senso de humor duvidoso, que tem súbitos lampejos de inspiração em horas e locais inconvenientes.

Destaco aqui a ótima direção de arte do filme, pois tanto o figurino como os cenários são incrivelmente coloridos, e a fotografia e edição do longa ressaltam estas qualidades de forma muito inteligente e dinâmica. O filme todo parece ser um grande videoclipe, com um ritmo rápido, imagens impactantes e uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente com o que é mostrado na tela. Em alguns momentos tive até a impressão de estar assistindo algum filme de Quentin Tarantino, tamanho é o apelo que as músicas têm com as cenas em si.

Este filme é o primeiro longa de Gen Sekiguchi, que anteriormente havia dirigido dois curtas, WORST CONTACT em 2000 e BUS PANIC! Em 2001, e que no Japão era conhecido por ter dirigido alguns clipes da banda Supercar. Após um hiato de aproximadamente 07 anos, o público japonês poderá assistir na telona outra obra de Sekiguchi, pois está marcada para dia 15 de janeiro a estréia de uma comédia aparentemente dividida em episódios, dirigida por cinco diretores distintos chamada SABI OTOKO SABI ONNA (ainda não possuí um título internacional definido).

Fica a dica de um ótimo filme para quem quer assistir algo com mais cérebro que as tralhas americanas que assombram nossas vidas, mas não quer nada tão complexo a ponto de estragar a diversão.

Primeiro post de 2011!

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Começa um novo ano e novos filmes serão feitos… Alguns serão bons, outros ruins. Algumas obras se tornarão cada vez mais importantes com o passar do tempo e outras começarão a ser esquecidas.

Aqui no blog, pretendemos continuar falando sobre qualquer obra que tenha nos agradado (ou nos deixado impressionados com tamanha incompetência cinematográfica), seja um curta, longa ou média metragem, sem distinções ou preconceito, respeitando apenas a proposta inicial de falar sobre filmes que não tenham massiva exposição na mídia nacional e internacional de forma geral. Lembrando que, seguindo esta lógica, acabaremos falando de filmes que eventualmente alcançaram grandes êxitos no que se refere a premiações e reconhecimento da crítica (como os já citados KINATAY e LOS SIN NOMBRE), mas que não alcançaram o sucesso comercial ao redor do mundo, tornando-se assim desconhecidos para um público menos engajado na busca de novidades cinematográficas.

Daremos também maior enfoque a obras experimentais e amadoras, e vamos tentar localizar filmes cada vez mais raros e obscuros (por falta de um termo melhor) para resenhar; em contrapartida, não há como não prestar homenagem a filmes que são verdadeiros clássicos, porém tentaremos nos ater àqueles que possuem uma temática mais violenta, absurda ou ligada ao cinema exploitation de forma geral.

Continua a parceria com Renato Batarce, e eventualmente teremos uma resenha de um colaborador diferente por aqui. Pretendemos postar com mais freqüência, visto que nos dois primeiros meses fomos um pouco preguiçosos.

Acessem os links que ficam no menu ao lado, pois lá vocês encontrarão não somente outras fontes de informação sobre cinema como também acharão para download 90% dos filmes citados aqui, basta ter calma e procurar.

Para os que têm uma vida social praticamente nula e quiserem interagir conosco na net, sugiro que comentem os filmes/resenhas nos campos apropriados, ou que cliquem em “curtir” na página que foi criada no Facebook e nos sigam no Tumblr e no Twitter.