KINATAY é um filme simples em vários aspectos. Não possuí planos de câmera rebuscados, muito menos simbolismos ou alegorias difíceis de compreender em suas imagens ou diálogos, tampouco um significado hermético ou pretensioso. É uma história simples, filmada de forma linear e sem frescuras. E é justamente este o grande trunfo do diretor filipino Brillante Mendoza, que possuí uma filmografia que pode ser apreciada por diferentes tipos de pessoas e públicos.

Digo isso como aficionado por cinema alternativo, especialmente os asiáticos, que sempre me chamaram muita atenção desde os tempos de moleque até hoje, justamente por sua inventividade e predisposição pela quebra de paradigmas em diversos gêneros, fugindo do lugar comum que a indústria americana insiste em impor ao restante do mundo, com seus pouco criativos e milionários blockbusters de ação e aventura, suas comédias pasteurizadas e repetitivas e suas regravações de filmes de horror que não assustam nem aluno de pré-escola.

Preferi começar o texto desta forma, pois sei que existe certa relutância por parte dos amantes do cinema extremo em aceitar (ou até mesmo assistir) obras de diretores que de fato não estejam preocupados em mostrar em seus trabalhos grandes quantidades de violência gráfica, sangue, sexo ou até mesmo apresentar roteiros surreais e imprevisíveis (embora eu mesmo tenha que admitir que já perdi a oportunidade de assistir a bons filmes por conta do preconceito que tenho para com certos gêneros, estilos e escolas cinematográficas).

Mas KINATAY é um filme que precisa ser visto. A obra coloca em foco pessoas pobres levando vidas comuns e corriqueiras, perfeitamente adaptadas ao ambiente marginal e caótico em que vivem, até que um evento brutal quebra a rotina do protagonista Peping (Coco Martin), um jovem estudante que almeja ser policial.

Recém casado e pai de um pequeno bebê, Peping vive com o dinheiro de um bico que faz como mototaxista, assim como de pequenas quantias que recebe de um grupo de criminosos, trabalhando como receptador de propina dos vendedores ambulantes da cidade de Manila, capital das Filipinas. O rapaz exerce naturalmente essa função de coletor de propina, contrastando com seu sonho de se tornar um oficial da lei, e é justamente por manter essa relação próxima com o bando criminoso que acaba sendo envolvido em um crime maior.

Certo dia Peping é chamado para ajudar num “serviço”, porém não se trata de nada simples como ele costumava fazer. Ainda sem saber o que irá acontecer, e imaginando que esta é uma boa oportunidade para se aproximar do chefe, é levado a um night club, onde acaba por raptar uma prostituta que possuí uma dívida de drogas, em conjunto com outros homens do grupo.

Peping

De início o protagonista fica aflito com a situação, mas aos poucos esta aflição é transformada em desespero, pois Peping sente que algo pior pode acontecer à prostituta. Em meio à truculência de seus companheiros para com a refém, e ao sentimento de arrependimento por ter aceitado o trabalho, o diretor Brillante Mendoza vai construindo de forma lenta, astuta e impetuosa uma atmosfera de desconforto e desolamento, utilizando-se de cenas escuras e claustrofóbicas filmadas dentro da van em que o grupo se encontra, nas quais emula a visão do próprio protagonista com os movimentos de câmera. Juntamente a estas tomadas, Mendoza aproxima o telespectador dos sentimentos do personagem magistralmente interpretado pelo talentoso Coco Martin (um dos protagonistas de SERBIS, outro belo filme deste diretor), com close-ups incisivos nas expressões do ator.

A violência só explode na tela quando o grupo, agora escondido em uma pequena casa de madeira em um local afastado, recebe ordens do que fazer com a refém. Creio que todos imaginam que não é nada muito amigável, e que Peping não tem para onde fugir.

O peso das escolhas que o protagonista fez até então vai recair sobre seus ombros, e sua consciência vai lhe cobrar um preço alto…

A cinematografia filipina é muito rica e interessante, e uma prova disso é que existem alguns cineastas se destacando atualmente no circuito independente, assim como em festivais mais prestigiados e entre um público mais cult e apreciador de cinema de arte e alternativo. Meu contato inicial com as obras de diretores como Lav Diaz (diretor de EVOLUÇÃO DE UMA FAMÍLIA FILIPINA, filme de 10h e 40min de duração, que levou 10 anos para ser feito), Raya Martin (de INDEPENDÊNCIA realizado em 2009) e o próprio Brillante Mendoza se deu este ano mesmo (que vergonha…) por meio da mostra “Descobrindo o Cinema Filipino” ocorrida entre os dias 09 e 27 de Junho no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui em Sampa. A seleção de filmes traçou um panorama não só das novas produções do país, como também fez um resgate de películas mais antigas, já consagradas pelo público e a crítica filipinos, e que foram influentes para as carreiras dos cineastas que fazem cinema por lá hoje em dia. Dentre os diretores mais antigos presentes na mostra, podemos destacar o trabalho de Lino Brocka (MANILA NAS GARRAS DE NEON de 1975), Ishmael Bernal (do ótimo MANILA BY NIGHT de 1980) e Kidlat Tahimik, que ganhou o Prêmio Da Crítica no Festival de Berlin de 1977 com o filme PESADELO PERFUMADO.

Falando em premiações importantes, KINATAY rendeu a Brillante Mendoza o Prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 2009.

Não devemos esquecer também que o cinema trash feito por lá é muito numeroso e respeitado pelos adoradores de podridão cinematográfica, e já rendeu pérolas máximas como o inacreditavelmente estranho ZUMA de Jun Raquiza, e a comédia de ação FOR YOUR HEIGHT ONLY de Eddie Nicart, ambos da década de 80 (quem se interessar, pode ler um apanhado geral sobre a produção trash das Filipinas AQUI).

Diretor e elenco na premiação de Cannes, em 2009