Desta vez nosso incansável colaborador resolveu escrever sobre EL DIA DE LA BESTIA, um filme que vi aproximadamente há 10 anos em VHS, e apesar de já ter baixado o mesmo faz um bom tempo, ainda não revi. Depois de ler a resenha e ver o trailer, certeza que vou assistir novamente ainda essa semana! Com a palavra, Batata:

O filme conta a história do padre Angel (Álex Angulo), um teólogo que através de cálculos matemáticos se convence de que encontrou o dia do nascimento do Anti-Cristo, e consequentemente, do Apocalipse, e é exatamente na noite anterior desse dia, numa véspera de Natal que toda a ação acontece. O padre Angel tenta se aproximar do demônio, ganhando sua confiança através de pecados como roubar mendigos, bater em pessoas, e ouvir músicas satânicas. Esse percurso o leva até a loja de discos de Heavy Metal de José Maria (Santiago Segura), que simpatiza pelo sacerdote e o convida para ficar na pensão de sua mãe. Tentando conhecer melhor o oculto, Angel entra em contato com o apresentador de TV Prof. Cavan (Armando de Razza), numa obsessiva perseguição ao demônio para poder salvar a humanidade.

Poster do filme

 

Apesar de, acreditar no padre ser uma leitura válida, ao que tudo indica sua jornada é completamente inútil. Sua obsessão o cega para todo o resto a não ser seu objetivo, como se se jogar nessa ilusão terrível (mas de certa forma heróica) fosse uma compensação de toda uma vida medíocre, sentimento esse que parece ser compartilhado de forma mais ingênua por José Maria, e posteriormente, de forma mais séria por Cavan. Tudo isso nos remete a outra obra criada também na Espanha, mas pela literatura, Don Quixote. Impossível não comparar.

Mas sim, o mal existe no filme, não da forma como Angel imagina (e algumas vezes alucina) combater. Alex de La Iglesia despeja críticas sociais através de violência policial, gangues intolerantes às minorias, e até em armas vendidas em lojas de brinquedos.

Outra força do filme são os personagens. Todos se mostram interessantes, e não apenas o trio principal. A mãe e (principalmente) o avô de José Maria; Mina, a ajudante da pensão; Susana, a amante de Cavan; o estressado produtor de TV; todos memoráveis.

Mas, apesar de tudo isso, o filme pode ser considerado extremamente trash. O sangue e gore são até bem contidos, mas todos os outros elementos estão lá: atuações exageradas e canastronas, ritmo frenético, muito humor, Chroma Key, e até o bodão da capa do filme dá as caras em efeitos que não chegam exatamente à perfeição. Confesso que realmente sinto vontade de agir como os personagens do filme; quem estiver no caminho leva uma porrada. Na verdade nem precisa estar no caminho, só estar lá.

O satanismo no filme? Extremamente infantil. Dessa forma o diretor demonstra o quão ridículo é acreditar em mitos de invocação satânica apresentados em livros de charlatões, ou que Heavy Metal (“Death Metal, é completamente diferente” José Maria) é música satânica de verdade. Talvez o único grande defeito do filme seja tentar nos fazer crer que um teólogo, mesmo um teólogo com a mente perturbada, realmente dê tanta importância a esses fatores para invocar o demônio.

O ator Álex Angulo, que interpreta o padre Angel, já é figurinha carimbada no cinema espanhol. Trabalhou com Alex de La Iglesia em seu longa-metragem de estréia, ACCION MUTANTE de 1993, com Pedro Almodóvar em CARNE TRÉMULA de 1997, e com Guillermo Del Toro em EL LABERINTO DEL FAUNO de 2006, apenas para citar os mais conhecidos. Já Santiago Segura, intérprete de José Maria se tornou um ícone do underground espanhol ao protagonizar a trilogia TORRENTE.

Alex de La Iglesia é um diretor espanhol conhecido pela galera do cinema fantástico também por outras obras como o já citado ACCION MUTANTE, e tem entre seus maiores sucessos PERDITA DURANGO (1997), LA COMUNIDAD (2000), 800 BALAS (2002) e CRIMEN FERPECTO (2004). Dirigiu em 2006 o filme LA HABITACIÓN DEL NIÑO, que faz parte da série de 06 filmes da TV espanhola chamada PELÍCULAS PARA NO DORMIR (que teve filmes dirigidos também por Jaume Balagueró, Paco Plaza, Mateo Gil, entre outros), além de também ter se aventurado pelo cinema americano dirigindo THE OXFORD MURDERS em 2008, com Elijah Wood e John Hurt.

Vale a pena assistir EL DIA DE LA BESTIA. Não é apenas cinema trash podreira, é cinema trash com qualidade (bom, pelo menos dentro do possível no gênero, hehehe).

                                       Escrito por Renato “Batata” Batarce.

La Bestia...