Novamente marcando presença no blog, nosso querido Renato “Batata” Batarce, falando sobre NINJAS, o mais novo curta do talentoso diretor tupiniquim Dennison Ramalho. Quanto a mim, empaquei em algumas resenhas (misto de bloqueio criativo e saco cheio de fim de ano…)

Poster do curta

Depois de um hiato de 08 anos, o diretor Dennison Ramalho (AMOR SÓ DE MÃE, NOCTURNU) volta com o curta NINJAS, um trabalho muito mais maduro, completo e perturbador.

NINJAS mostra a história do policial Jailton (Flávio Bauraqui), que durante uma perseguição na favela, acaba acidentalmente assassinando um garoto inocente. Religioso, apesar de não ser condenado pelos colegas, é tomado pela culpa, que logo depois é substituída pelo horror e desespero ao ser perseguido pelo fantasma do garoto.

Essa seqüencia inicial vai lembrar a muitos os filmes asiáticos de assombrações, ao estilo Takashi Shimizu, com o garoto fantasma perturbando o protagonista, e até uma sequência com uma água escura de sangue, algo muito usado por lá, água para causar terror. As cenas são bem feitas, mas realmente perturba a falta de expressão do garoto fantasma. Já não tinha que fazer muita coisa, pelo menos podia se esforçar um pouquinho na representação.

Mas na segunda parte do curta, a coisa muda de figura, e o fantasma não parece mais tão ameaçador. Aparentemente, boa parte da PM tem problemas com fantasmas de erros do passado, e seus colegas resolvem ensiná-lo a suportar os seus. Para isso, resolvem incluí-lo na milícia Ninjas, onde deverá se tornar tão cruel que nada vivo nem morto poderá mais abalá-lo.

A sequência que revela todo o sangue-frio dos Ninjas é intensa e forte, utilizando-se de torturas tanto físicas quanto psicológicas. Com todos esses elementos, Dennison consegue realizar um curta que une o suspense fantasmagórico asiático com o torture porn (e na minha opinião, um toque de nazi exploitation), mas ainda assim, a ambientação e os costumes brasileiros é que contribuem para deixar tudo ainda mais perturbador, pois realmente identificamos que aquilo tudo acontece em nossa terra. Não faltou também a cutucada no fanatismo religioso, também presente em AMOR SÓ DE MÃE.

Mas uma peça fundamental para o sucesso de tudo, com certeza foram as escolhas dos atores (com exceção do menino fantasma). Muitos filmes de horror afundam devido a atores canastrões e atuações caricatas, ao tentar contar uma história séria, acabam arrancando risos, e tudo isso contribui para o gênero ser ridicularizado pelo grande público, principalmente as produções nacionais. Felizmente não foi o caso de NINJAS, que contou com atuações inspiradas de grandes atores, que conseguiram expressar culpa, sadismo, medo e loucura de forma extremamente convincente. Flávio Bauraqui (MADAME SATÃ, SALVE GERAL, ZUZU ANGEL, QUINCAS BERRO D’ÁGUA) inclusive ganhou o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado pela sua atuação no filme.

O filme foi baseado no conto Um Bom Policial de Marco de Castro, que já foi repórter policial; e conta com a melhor equipe técnica que há atualmente no Brasil para o gênero, como o próprio Dennison, José Roberto Eliezer, Paulo Sacramento (responsável pelo curta ganhar também o Kikito de melhor montagem), André Kapel Furman, todos também presentes em AMOR SÓ DE MÃE e A ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, este último de José Mojica Marins. Destaque também pro pôster, que lembra muito a arte das capas de discos de Thrash Metal da zona de BH.

Sucesso de crítica nacional e internacional, além dos prêmios no Festival de Gramado, também ganhou como melhor curta pelo New York City Horror Film Festival, e atualmente Dennison está nos Estados Unidos em projeto com John Carpenter. É de deixar louco que, com tantas qualidades, não se ouve praticamente nada sobre o filme nos grandes veículos da mídia nacional. É torcer pra que no final os responsáveis sejam perturbados pelos fantasmas de grandes obras ignoradas.

Escrito por Renato “Batata” Batarce.