Inaugurando a participação dos colaboradores no blog, estou postando a resenha do insano e descontrolado filme VERSUS, de Ryuhei Kitamura, feita por meu grande amigo Renato Batarce, outro aficionado por cinema absurdo e extremo em geral.  Este filme (lançado no Brasil como O PORTAL DA RESSUREIÇÃO pela Europa Filmes) é responsável por grande parte da fama do diretor fora do Japão, e para quem gosta de armas e pancadaria sem limites, fica a dica!

Sinopse

Há 666 portais que conectam este mundo com o outro lado. Eles estão escondidos dentro dos seres humanos. Em algum lugar no Japão existe o portal de número 444. Quem o atravessar voltará da morte. Um grupo de homens se encontra na Floresta da Ressurreição para resgatar um perigoso prisioneiro que acaba de fugir da cadeia. Ele já matou mais de 40 pessoas. Inicia-se uma luta muito curiosa. Aqueles que são atingidos fatalmente caem, mas logo voltam ao combate. O Prisioneiro sobrevive ao chumbo grosso das pistolas e terá que duelar com O Homem, que está sedento pelo sangue da Garota, o único líquido capaz de abrir o portal. Será um festival de porradas, golpes de artes marciais fantásticos e de sangue. Apenas um sobreviverá.

Quando assisti a este filme pela primeira vez, minha bagagem de cinema oriental de horror era quase nula, e o que aconteceu foi uma atração imediata, achei ele muito foda. Nunca tinha imaginado zumbis samurais; as lutas são muito bem coreografadas, dá a impressão que querem realmente um acertar a cara do outro; e o nonsense das tretas contra os zumbis eram de tirar o fôlego.

Capa do DVD

Sim, tudo isso ainda é verdade, mas, ao ver o filme pela segunda vez, a animação cai consideravelmente, porque afinal o grande atrativo dele é o nonsense, a sangueira, e algumas situações e diálogos inusitadas e inesperadas. Quando o assistimos de novo, já vimos todas aquelas situações antes, então toda aquela empolgação some um pouco, e sentimos falta de pelo menos um pouco mais de história.

A história… Bom, na verdade não existe uma história, só uma desculpa para o diretor realizar cenas de violência, muito legais por sinal. Arrisco até a dizer, que se o filme for visto sem legendas por alguém que não entende nada de japonês, ele pode ser curtido numa boa.

Existem 666 portais para o inferno… Não existe coisa mais batida do que usar o número 666 para qualquer coisa. O portal em questão no filme é o 444, o que pelo menos no Japão parece ser também uma referência óbvia, já que o número 4 por lá representa a morte.  Então, a falta de cuidado com a história é clara.

Mas quer saber? Não importa, o filme é ótimo de assistir, bem daquelas diversões de assistir, dar risada, e falar, “noooossa, que legal”, junto com uma galera que curta produções despretensiosas. E não passa disso, delírio visual empolgante, um filme para ver, se divertir, mas é uma empolgação que só é totalmente efetiva quando o assistimos pela primeira vez. Tentar arriscar uma trama mais complexa tiraria todo o charme do filme.

Pois o filme tem estilo, um estilo que na verdade é a mistura (muitas vezes beirando ao plágio na cara dura) de muitos outros elementos tanto de cinema quanto de games, para criar personagens cool típicos da era pós-Matrix. Os zumbis muitas vezes aparecem como um simples incômodo, já que os personagens lidam com eles como se estivessem enfrentando uma gangue rival, sem nem ligar muito para o fato que são pessoas mortas saindo da terra diante dos seus olhos.

O protagonista de VERSUS

O personagem principal (Tak Sakaguchi) tenta ser uma espécie de clone do Neo de MATRIX, é o cara superfodão que pode arrebentar todo mundo. A mocinha tá lá, mas praticamente só porque o roteiro obriga, ela não faz falta nenhuma. O grande vilão da história é um espírito que busca vingança, mas pra falar a verdade, os personagens coadjuvantes (bandidos, policiais, e etc.) são os que melhor funcionam no filme. Um dos bandidos em especial, por ser cheio de trejeitos e comportamento claramente narcisista, rouba todas as cenas em que aparece. Muitas pessoas podem torcer o nariz para sua atuação exagerada, mas na minha opinião caiu muito bem no contexto do filme.

Vale ressaltar que, nenhum dos personagens tem nome no filme, mas não é por nenhum motivo artístico como, por exemplo, os personagens dos livros do José Saramago, e sim porque isso não faria diferença nenhuma. Apenas o ator principal é que é chamado algumas vezes de prisioneiro KSC2-303.

Os zumbis têm algumas particularidades interessantes, desde o começo, onde eram zumbis samurais, até o resto do filme, todos eles conseguem usar armas, sejam espadas ou revólveres, o que neste filme, de certa forma contribui para que as lutas sejam mais divertidas.

Sim, porque, se o filme for visto sem pretensões, ele se torna uma diversão até, de certa forma, surpreendente, pois é uma história bizarra executada de forma bizarra. Mas numa segunda olhada, quando já conhecemos toda a condução, pode se tornar até de certa forma monótono.

Em 2003 foi lançando ULTIMATE VERSUS, versão estendida do filme com mais 10 minutos de pancadaria.

O diretor Ryuhei Kitamura é conhecido por filmes como ARAGAMI, AZUMI, GODZILLA: FINAL WARS, e em 2008, já contratado pela indústria americana, dirigiu o filme MIDNIGHT MEAT TRAIN (no Brasil, O ÚLTIMO TREM), competente adaptação de um conto de Clive Barker de mesmo nome, encontrado em um dos volumes dos seus Livros de Sangue.

                                                                  Escrito por Renato Batarce.