KINATAY (Brillante Mendoza – 2009)

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KINATAY é um filme simples em vários aspectos. Não possuí planos de câmera rebuscados, muito menos simbolismos ou alegorias difíceis de compreender em suas imagens ou diálogos, tampouco um significado hermético ou pretensioso. É uma história simples, filmada de forma linear e sem frescuras. E é justamente este o grande trunfo do diretor filipino Brillante Mendoza, que possuí uma filmografia que pode ser apreciada por diferentes tipos de pessoas e públicos.

Digo isso como aficionado por cinema alternativo, especialmente os asiáticos, que sempre me chamaram muita atenção desde os tempos de moleque até hoje, justamente por sua inventividade e predisposição pela quebra de paradigmas em diversos gêneros, fugindo do lugar comum que a indústria americana insiste em impor ao restante do mundo, com seus pouco criativos e milionários blockbusters de ação e aventura, suas comédias pasteurizadas e repetitivas e suas regravações de filmes de horror que não assustam nem aluno de pré-escola.

Preferi começar o texto desta forma, pois sei que existe certa relutância por parte dos amantes do cinema extremo em aceitar (ou até mesmo assistir) obras de diretores que de fato não estejam preocupados em mostrar em seus trabalhos grandes quantidades de violência gráfica, sangue, sexo ou até mesmo apresentar roteiros surreais e imprevisíveis (embora eu mesmo tenha que admitir que já perdi a oportunidade de assistir a bons filmes por conta do preconceito que tenho para com certos gêneros, estilos e escolas cinematográficas).

Mas KINATAY é um filme que precisa ser visto. A obra coloca em foco pessoas pobres levando vidas comuns e corriqueiras, perfeitamente adaptadas ao ambiente marginal e caótico em que vivem, até que um evento brutal quebra a rotina do protagonista Peping (Coco Martin), um jovem estudante que almeja ser policial.

Recém casado e pai de um pequeno bebê, Peping vive com o dinheiro de um bico que faz como mototaxista, assim como de pequenas quantias que recebe de um grupo de criminosos, trabalhando como receptador de propina dos vendedores ambulantes da cidade de Manila, capital das Filipinas. O rapaz exerce naturalmente essa função de coletor de propina, contrastando com seu sonho de se tornar um oficial da lei, e é justamente por manter essa relação próxima com o bando criminoso que acaba sendo envolvido em um crime maior.

Certo dia Peping é chamado para ajudar num “serviço”, porém não se trata de nada simples como ele costumava fazer. Ainda sem saber o que irá acontecer, e imaginando que esta é uma boa oportunidade para se aproximar do chefe, é levado a um night club, onde acaba por raptar uma prostituta que possuí uma dívida de drogas, em conjunto com outros homens do grupo.

Peping

De início o protagonista fica aflito com a situação, mas aos poucos esta aflição é transformada em desespero, pois Peping sente que algo pior pode acontecer à prostituta. Em meio à truculência de seus companheiros para com a refém, e ao sentimento de arrependimento por ter aceitado o trabalho, o diretor Brillante Mendoza vai construindo de forma lenta, astuta e impetuosa uma atmosfera de desconforto e desolamento, utilizando-se de cenas escuras e claustrofóbicas filmadas dentro da van em que o grupo se encontra, nas quais emula a visão do próprio protagonista com os movimentos de câmera. Juntamente a estas tomadas, Mendoza aproxima o telespectador dos sentimentos do personagem magistralmente interpretado pelo talentoso Coco Martin (um dos protagonistas de SERBIS, outro belo filme deste diretor), com close-ups incisivos nas expressões do ator.

A violência só explode na tela quando o grupo, agora escondido em uma pequena casa de madeira em um local afastado, recebe ordens do que fazer com a refém. Creio que todos imaginam que não é nada muito amigável, e que Peping não tem para onde fugir.

O peso das escolhas que o protagonista fez até então vai recair sobre seus ombros, e sua consciência vai lhe cobrar um preço alto…

A cinematografia filipina é muito rica e interessante, e uma prova disso é que existem alguns cineastas se destacando atualmente no circuito independente, assim como em festivais mais prestigiados e entre um público mais cult e apreciador de cinema de arte e alternativo. Meu contato inicial com as obras de diretores como Lav Diaz (diretor de EVOLUÇÃO DE UMA FAMÍLIA FILIPINA, filme de 10h e 40min de duração, que levou 10 anos para ser feito), Raya Martin (de INDEPENDÊNCIA realizado em 2009) e o próprio Brillante Mendoza se deu este ano mesmo (que vergonha…) por meio da mostra “Descobrindo o Cinema Filipino” ocorrida entre os dias 09 e 27 de Junho no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui em Sampa. A seleção de filmes traçou um panorama não só das novas produções do país, como também fez um resgate de películas mais antigas, já consagradas pelo público e a crítica filipinos, e que foram influentes para as carreiras dos cineastas que fazem cinema por lá hoje em dia. Dentre os diretores mais antigos presentes na mostra, podemos destacar o trabalho de Lino Brocka (MANILA NAS GARRAS DE NEON de 1975), Ishmael Bernal (do ótimo MANILA BY NIGHT de 1980) e Kidlat Tahimik, que ganhou o Prêmio Da Crítica no Festival de Berlin de 1977 com o filme PESADELO PERFUMADO.

Falando em premiações importantes, KINATAY rendeu a Brillante Mendoza o Prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 2009.

Não devemos esquecer também que o cinema trash feito por lá é muito numeroso e respeitado pelos adoradores de podridão cinematográfica, e já rendeu pérolas máximas como o inacreditavelmente estranho ZUMA de Jun Raquiza, e a comédia de ação FOR YOUR HEIGHT ONLY de Eddie Nicart, ambos da década de 80 (quem se interessar, pode ler um apanhado geral sobre a produção trash das Filipinas AQUI).

Diretor e elenco na premiação de Cannes, em 2009

 

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EL DIA DE LA BESTIA (Alex de La Iglesia – 1995)

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Desta vez nosso incansável colaborador resolveu escrever sobre EL DIA DE LA BESTIA, um filme que vi aproximadamente há 10 anos em VHS, e apesar de já ter baixado o mesmo faz um bom tempo, ainda não revi. Depois de ler a resenha e ver o trailer, certeza que vou assistir novamente ainda essa semana! Com a palavra, Batata:

O filme conta a história do padre Angel (Álex Angulo), um teólogo que através de cálculos matemáticos se convence de que encontrou o dia do nascimento do Anti-Cristo, e consequentemente, do Apocalipse, e é exatamente na noite anterior desse dia, numa véspera de Natal que toda a ação acontece. O padre Angel tenta se aproximar do demônio, ganhando sua confiança através de pecados como roubar mendigos, bater em pessoas, e ouvir músicas satânicas. Esse percurso o leva até a loja de discos de Heavy Metal de José Maria (Santiago Segura), que simpatiza pelo sacerdote e o convida para ficar na pensão de sua mãe. Tentando conhecer melhor o oculto, Angel entra em contato com o apresentador de TV Prof. Cavan (Armando de Razza), numa obsessiva perseguição ao demônio para poder salvar a humanidade.

Poster do filme

 

Apesar de, acreditar no padre ser uma leitura válida, ao que tudo indica sua jornada é completamente inútil. Sua obsessão o cega para todo o resto a não ser seu objetivo, como se se jogar nessa ilusão terrível (mas de certa forma heróica) fosse uma compensação de toda uma vida medíocre, sentimento esse que parece ser compartilhado de forma mais ingênua por José Maria, e posteriormente, de forma mais séria por Cavan. Tudo isso nos remete a outra obra criada também na Espanha, mas pela literatura, Don Quixote. Impossível não comparar.

Mas sim, o mal existe no filme, não da forma como Angel imagina (e algumas vezes alucina) combater. Alex de La Iglesia despeja críticas sociais através de violência policial, gangues intolerantes às minorias, e até em armas vendidas em lojas de brinquedos.

Outra força do filme são os personagens. Todos se mostram interessantes, e não apenas o trio principal. A mãe e (principalmente) o avô de José Maria; Mina, a ajudante da pensão; Susana, a amante de Cavan; o estressado produtor de TV; todos memoráveis.

Mas, apesar de tudo isso, o filme pode ser considerado extremamente trash. O sangue e gore são até bem contidos, mas todos os outros elementos estão lá: atuações exageradas e canastronas, ritmo frenético, muito humor, Chroma Key, e até o bodão da capa do filme dá as caras em efeitos que não chegam exatamente à perfeição. Confesso que realmente sinto vontade de agir como os personagens do filme; quem estiver no caminho leva uma porrada. Na verdade nem precisa estar no caminho, só estar lá.

O satanismo no filme? Extremamente infantil. Dessa forma o diretor demonstra o quão ridículo é acreditar em mitos de invocação satânica apresentados em livros de charlatões, ou que Heavy Metal (“Death Metal, é completamente diferente” José Maria) é música satânica de verdade. Talvez o único grande defeito do filme seja tentar nos fazer crer que um teólogo, mesmo um teólogo com a mente perturbada, realmente dê tanta importância a esses fatores para invocar o demônio.

O ator Álex Angulo, que interpreta o padre Angel, já é figurinha carimbada no cinema espanhol. Trabalhou com Alex de La Iglesia em seu longa-metragem de estréia, ACCION MUTANTE de 1993, com Pedro Almodóvar em CARNE TRÉMULA de 1997, e com Guillermo Del Toro em EL LABERINTO DEL FAUNO de 2006, apenas para citar os mais conhecidos. Já Santiago Segura, intérprete de José Maria se tornou um ícone do underground espanhol ao protagonizar a trilogia TORRENTE.

Alex de La Iglesia é um diretor espanhol conhecido pela galera do cinema fantástico também por outras obras como o já citado ACCION MUTANTE, e tem entre seus maiores sucessos PERDITA DURANGO (1997), LA COMUNIDAD (2000), 800 BALAS (2002) e CRIMEN FERPECTO (2004). Dirigiu em 2006 o filme LA HABITACIÓN DEL NIÑO, que faz parte da série de 06 filmes da TV espanhola chamada PELÍCULAS PARA NO DORMIR (que teve filmes dirigidos também por Jaume Balagueró, Paco Plaza, Mateo Gil, entre outros), além de também ter se aventurado pelo cinema americano dirigindo THE OXFORD MURDERS em 2008, com Elijah Wood e John Hurt.

Vale a pena assistir EL DIA DE LA BESTIA. Não é apenas cinema trash podreira, é cinema trash com qualidade (bom, pelo menos dentro do possível no gênero, hehehe).

                                       Escrito por Renato “Batata” Batarce.

La Bestia...

NINJAS (Dennison Ramalho – 2010)

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Novamente marcando presença no blog, nosso querido Renato “Batata” Batarce, falando sobre NINJAS, o mais novo curta do talentoso diretor tupiniquim Dennison Ramalho. Quanto a mim, empaquei em algumas resenhas (misto de bloqueio criativo e saco cheio de fim de ano…)

Poster do curta

Depois de um hiato de 08 anos, o diretor Dennison Ramalho (AMOR SÓ DE MÃE, NOCTURNU) volta com o curta NINJAS, um trabalho muito mais maduro, completo e perturbador.

NINJAS mostra a história do policial Jailton (Flávio Bauraqui), que durante uma perseguição na favela, acaba acidentalmente assassinando um garoto inocente. Religioso, apesar de não ser condenado pelos colegas, é tomado pela culpa, que logo depois é substituída pelo horror e desespero ao ser perseguido pelo fantasma do garoto.

Essa seqüencia inicial vai lembrar a muitos os filmes asiáticos de assombrações, ao estilo Takashi Shimizu, com o garoto fantasma perturbando o protagonista, e até uma sequência com uma água escura de sangue, algo muito usado por lá, água para causar terror. As cenas são bem feitas, mas realmente perturba a falta de expressão do garoto fantasma. Já não tinha que fazer muita coisa, pelo menos podia se esforçar um pouquinho na representação.

Mas na segunda parte do curta, a coisa muda de figura, e o fantasma não parece mais tão ameaçador. Aparentemente, boa parte da PM tem problemas com fantasmas de erros do passado, e seus colegas resolvem ensiná-lo a suportar os seus. Para isso, resolvem incluí-lo na milícia Ninjas, onde deverá se tornar tão cruel que nada vivo nem morto poderá mais abalá-lo.

A sequência que revela todo o sangue-frio dos Ninjas é intensa e forte, utilizando-se de torturas tanto físicas quanto psicológicas. Com todos esses elementos, Dennison consegue realizar um curta que une o suspense fantasmagórico asiático com o torture porn (e na minha opinião, um toque de nazi exploitation), mas ainda assim, a ambientação e os costumes brasileiros é que contribuem para deixar tudo ainda mais perturbador, pois realmente identificamos que aquilo tudo acontece em nossa terra. Não faltou também a cutucada no fanatismo religioso, também presente em AMOR SÓ DE MÃE.

Mas uma peça fundamental para o sucesso de tudo, com certeza foram as escolhas dos atores (com exceção do menino fantasma). Muitos filmes de horror afundam devido a atores canastrões e atuações caricatas, ao tentar contar uma história séria, acabam arrancando risos, e tudo isso contribui para o gênero ser ridicularizado pelo grande público, principalmente as produções nacionais. Felizmente não foi o caso de NINJAS, que contou com atuações inspiradas de grandes atores, que conseguiram expressar culpa, sadismo, medo e loucura de forma extremamente convincente. Flávio Bauraqui (MADAME SATÃ, SALVE GERAL, ZUZU ANGEL, QUINCAS BERRO D’ÁGUA) inclusive ganhou o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado pela sua atuação no filme.

O filme foi baseado no conto Um Bom Policial de Marco de Castro, que já foi repórter policial; e conta com a melhor equipe técnica que há atualmente no Brasil para o gênero, como o próprio Dennison, José Roberto Eliezer, Paulo Sacramento (responsável pelo curta ganhar também o Kikito de melhor montagem), André Kapel Furman, todos também presentes em AMOR SÓ DE MÃE e A ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, este último de José Mojica Marins. Destaque também pro pôster, que lembra muito a arte das capas de discos de Thrash Metal da zona de BH.

Sucesso de crítica nacional e internacional, além dos prêmios no Festival de Gramado, também ganhou como melhor curta pelo New York City Horror Film Festival, e atualmente Dennison está nos Estados Unidos em projeto com John Carpenter. É de deixar louco que, com tantas qualidades, não se ouve praticamente nada sobre o filme nos grandes veículos da mídia nacional. É torcer pra que no final os responsáveis sejam perturbados pelos fantasmas de grandes obras ignoradas.

Escrito por Renato “Batata” Batarce.

 

LOS SIN NOMBRE (Jaume Balagueró – 1999)

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Mais uma resenha do colaborador Renato Batarce, agora sobre o premiado filme espanhol LOS SIN NOMBRE de Jaume Balagueró. Este filme é relativamente fácil de achar nas locadoras, e com certeza vale a pena prestar atenção na filmografia do diretor. Divirtam-se:

Sinopse

O corpo mutilado de uma menina de seis anos é encontrado na água. A menina é identificada como a filha desparecida de Cláudia. Entretanto, somente duas evidências servem para identificá-la: um bracelete com seu nome perto da cena do crime, e o fato de seu pé direito ser três polegadas mais longo que seu pé esquerdo. Todos os métodos restantes de identificação se mostraram inúteis em seu corpo. Cinco anos mais tarde, Cláudia, agora uma viciada em tranqüilizantes, recebe uma chamada telefônica de alguém dizendo ser sua filha, pedindo sua ajuda para salvá-la antes que a matem. Outros indícios misteriosos indicam que a filha de Cláudia pode estar viva e correndo muito perigo. Cláudia e um repórter parapsicólogo unem os indícios para descobrir a verdade.

 

Poster do filme

Em 2007, os diretores Paco Plaza e Jaume Balagueró chamaram grande atenção do mundo com o filme REC, e posteriormente com sua continuação em 2009, REC 2. Coincidentemente, os dois filmes de estréia destes diretores são sobre o mesmo tema, e até mesmo os nomes são semelhantes. São esses: EL SEGUNDO NOMBRE (2002) de Paco Plaza, e o filme em questão LOS SIN NOMBRE por Jaume Balagueró.

O tema em comum entre as duas películas é o de seitas que utilizam crianças em seus rituais. EL SEGUNDO NOMBRE começa com o aparente fim da investigação do desaparecimento da menina de 06 anos Angela (Judith Tort aos 05 anos e Jessica Del Pozo aos 11), com a localização do seu corpo mutilado, apenas identificado por uma perna ser mais curta que a outra e uma pulseira que pertencia a ela. O corpo mutilado, a descrição do que o corpo sofreu ainda em vida pelo médico que fazia a autópsia e a reação dos pais ao reconhecerem a pulseira da filha nos remete a alguns momentos memoráveis de horrores com a família como tema, como O EXORCISTA, e O CEMITÉRIO MALDITO. Nesse quesito, a atriz principal especialmente (Emma Vilarasau) soa bem convincente em sua dor. Infelizmente, uma das falhas da película reside também no certo exagero com que cenas dramáticas gratuitas são apresentadas em certos momentos em que realmente estamos mais interessados nos rumos das investigações, mas no mais, a atriz está perfeita, conferindo personalidade à personagem através da fala e dos gestos mais simples.

Após o descobrimento do corpo, o filme dá um salto de 06 anos no tempo, onde após uma breve vista da nova rotina da mãe da menina, vemos ela receber uma ligação de socorro de alguém que diz ser sua filha. A partir daí, o filme torna-se um suspense eficiente de investigação, nada muito extremo nem gore, como podia-se ter a impressão no início. Mas ao final, as coisas se tornam bem mais extremas, nada que choque os espectadores veteranos do cinema de horror, mas como o filme foi todo carregado na tensão e no suspense, ver a violência apresentada no final (tanto física quanto psicológica), acaba chocando de certa forma.

O filme, como dito anteriormente, é conduzido de modo competente, mantendo o interesse e a atenção (que algumas vezes é quebrada por alguma cena melodramática fora de hora), o que é muito mais do que pode ser dito da maioria dos suspenses de hoje em dia. Sim, tem elementos de horror, mas nada extremo, é um filme de certa forma pesado, mas acessível ao grande público também. Outra coisa benéfica, é que o filme foge de alguns clichês que o cinema americano insiste em colocar, como por exemplo, um romance entre os protagonistas, que soaria muito forçado nesse filme.

Revelar mais sobre a trama de um suspense sempre tira o sabor de assisti-lo pela primeira vez, então apenas resumirei a base da trama na frase “O mal absoluto abre portas”. Fará sentido após o final (em aberto, permitindo diversas interpretações sobre o que pode ter acontecido).

O filme vale também aos fãs de REC, para verem como o diretor Jaume Balagueró conduz um filme em condições “normais”, ou seja, com música, câmeras devidamente posicionadas, montagem e edição convencionais e etc. Outros filmes de destaque do diretor são A SÉTIMA VÍTIMA (THE DARKNESS, 2002), e no roteiro MALDIÇÃO: REZE PARA NÃO VÊ-LA (THE NUN, 2005). Além disso, ao que parece ele tomou uma dose de bom senso e pulou fora de REC 3.

O filme foi lançado no Brasil com o nome de A SEITA, e foi baseado na obra original escrita por Ramsey Campbell. Apesar da pouca repercussão por aqui, lá fora teve boa repercussão, recebendo os prêmios abaixo:

FESTIVAL INT´L DE BRUXELAS – MELHOR FILME

BUTACA AWARDS – MELHOR ATRIZ E INDICADO A MELHOR FILME

CIRCULO DE CRITICOS DE CINE DE ESPANHA – INDICADO A MELHOR MONTAGEM

FANT-ASIA FILM FESTIVAL – MELHOR FILME ESTRANGEIRO

FANTAFESTIVAL – MELHOR FILME

FANTASPORTO – PRÊMIO DA CRÍTICA MELHOR FILME – MELHOR DIRETOR – INDICADO A MELHOR FILME

GÉRARDMER FILM FESTIVAL – MELHOR FILME COM PRÊMIOS CRÍTICA INTERNACIONAL (FIPRESCI), ESPECIAL DO JURI, PRÊMIO DO JURI JOVEM E PRÊMIO CINÉ-LIVE (GRAND PRIX)

PUCHON INT´L FANTASTIC FILM FESTIVAL – MELHOR FILME PREMIO ESPECIAL DO JURI

SITGES – FESTIVAL INT´L DA CATALUNIA – MELHOR FILME, ATRIZ, FOTOGRAFIA E PRÊMIOS GRAND PRIZE OF EUROPEAN FANTASY FILM IN GOLD E GRAND PRIZE OF EUROPEAN FANTASY

FILM IN SILVER – INDICADO A MELHOR FILME

É a Espanha provando que é dos maiores berços do cinema de horror da atualidade na Europa, que está vivendo uma época bem fraca no estilo.

                                                                    Escrito por Renato Batarce.

BRAINDEAD (Peter Jackson – 1992)

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Capinando na net nesta madrugada, achei um texto que escrevi no início de 2003, para um blog que desisti de atualizar por falta de paciência para escrever. Nem me lembro o nome que esse blog tinha, creio que só teve mesmo este post… Encontrei esta resenha no campo de comentários de um antigo fotolog do Batata (vai saber o que eu queria colocando uma resenha inteira em uma área destinada a comentários de fotos…)

Não alterei o texto, e algumas opiniões mudaram ao longo dos anos; o que não muda é o fato de que o filme BRAINDEAD de Peter Jackson continua sendo um dos melhores e mais carniceiros filmes de zumbis já feitos, e é sem dúvida o que conseguiu o melhor resultado misturando comédia, horror e mortos-vivos.

Segue a resenha feita em 2003. Vejam o filme e divirtam-se:

Sou suspeito pra falar deste filme, pois na minha opinião é o melhor filme de horror já feito. Claro que, você que já conhece o filme, pode discordar se este é ou não é um autêntico filme de horror, pois ao longo da produção se multiplicam as situações mais ridículas e imprevisíveis, tornando o mesmo hilário.

Classificações à parte, este é um filme que tem roteiro muito cativante e direção habilidosa, a cargo do genial Peter Jackson (mais conhecido agora por seus últimos e milionários filmes, a trilogia O SENHOR DOS ANÉIS) que no início de carreira tinha muita criatividade para driblar a falta de orçamento em suas produções.

A história começa na Ilha da Caveira, sudoeste de Sumatra, no final dos anos cinquenta, com dois idiotas capturando uma criatura conhecida como Macaco Roedor, que tem sua origem rodeada por lendas e superstições dos nativos. Os dois homens pretendem levar o animal a um zoológico neozelandês, sem ter a menor idéia do que acabariam causando com isso.

Logo nos primeiros minutos do filme, já temos cenas gore muito bem feitas, dando uma pequena idéia do ritmo insano de mutilações e desmembramentos que seguem no decorrer da produção.

Sem nenhum conhecimento deste fato, em uma pequena cidade da Nova Zelândia, vive Lionel (Timothy Balme) um nerd dominado pela mãe autoritária e superprotetora (Elizabeth Moody). Num pequeno armazém perto da casa de Lionel, trabalha Paquita (Diana Peñalver) uma jovem de origem latina que espera encontrar o amor de sua vida.

Lionel e Paquita se apaixonam, e quando as coisas parecem estar muito bem para os dois, durante um calmo passeio pelo zoológico, surge a mãe de Lionel, que segue os dois compulsivamente, por discordar da relação de seu filho com a jovem.

É nesse ponto do filme que começa a ação, quando a mãe de Lionel recebe uma mordida do tal Macaco Roedor, e da noite para o dia começa a se transformar em um horrendo zumbi.

A partir daí o filme toma um rumo incessante de bizarrices, com a mãe de Lionel fixando um pedaço do próprio rosto com supercola, comendo a própria orelha em um jantar e até engolindo um pastor-alemão inteiro.

O filme conta com efeitos especiais muito competentes (mérito de Richard Taylor) que inclui até um filhote de zumbi, que aparece correndo pra lá e pra cá, em tomadas que lembram o saudoso Chuck da franquia BRINQUEDO ASSASSINO.

O próprio Peter Jackson faz uma ponta no filme, como um esdrúxulo auxiliar de enfermagem, na cena em que a mãe de Lionel quase explode ao ser embalsamada. Como vemos em seu primeiro filme, BAD TASTE, o diretor até que convence como ator, sendo suas interpretações no mínimo engraçadas. Em BRAINDEAD, outra coisa que chama a atenção é a ótima atuação do elenco, coisa rara em filmes gore ou trash, mas que, juntamente com o enredo, fazem do filme um clássico do gênero.

O que realmente faz diferença neste filme são os últimos vinte minutos da produção, simplesmente a maior carnificina gore já filmada, com mais de cem zumbis sendo destroçados, mutilados, esfolados, desmembrados e até queimados. A cena em que Lionel entra pela porta da frente de sua casa empunhando um cortador de grama como se fosse uma serra elétrica, pronto para acabar com todos os mortos-vivos que vê pela frente, é uma das melhores cenas já filmadas. É inacreditável a quantidade de sangue usada nas cenas: no final do filme, tanto os personagens quanto a mobília e as paredes da casa de Lionel não possuem nenhuma cor senão vermelho.

Existem muitas outras cenas memoráveis neste filme, que conta com mais alguns personagens pitorescos, como o padre que luta Kung Fu e os zumbis rockabilly, mas nada melhor do que assisti-lo. Não é muito difícil de achá-lo nas locadoras que possuem VHS mais antigos, pois o mesmo teve lançamento nacional pela Alpha Filmes com o título de FOME ANIMAL, e até ganhou certa notoriedade após ter sido exibido repetidas vezes no extinto Cine Trash, programa com apresentação de Zé do Caixão que passava todas as tardes de segunda à sexta-feira na TV Bandeirantes, na década de 90.

Este filme também é conhecido como DEAD ALIVE nos países de língua inglesa, e é curioso o fato de que muitas das imagens usadas na divulgação do mesmo nos anos 90, seja em cartazes, pôsteres ou em capas de VHS (que época boa…) eram um tanto quanto enganosas, com fotos ou ilustrações que não tinham relação direta com a trama…

VERSUS (Ryuhei Kitamura – 2000)

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Inaugurando a participação dos colaboradores no blog, estou postando a resenha do insano e descontrolado filme VERSUS, de Ryuhei Kitamura, feita por meu grande amigo Renato Batarce, outro aficionado por cinema absurdo e extremo em geral.  Este filme (lançado no Brasil como O PORTAL DA RESSUREIÇÃO pela Europa Filmes) é responsável por grande parte da fama do diretor fora do Japão, e para quem gosta de armas e pancadaria sem limites, fica a dica!

Sinopse

Há 666 portais que conectam este mundo com o outro lado. Eles estão escondidos dentro dos seres humanos. Em algum lugar no Japão existe o portal de número 444. Quem o atravessar voltará da morte. Um grupo de homens se encontra na Floresta da Ressurreição para resgatar um perigoso prisioneiro que acaba de fugir da cadeia. Ele já matou mais de 40 pessoas. Inicia-se uma luta muito curiosa. Aqueles que são atingidos fatalmente caem, mas logo voltam ao combate. O Prisioneiro sobrevive ao chumbo grosso das pistolas e terá que duelar com O Homem, que está sedento pelo sangue da Garota, o único líquido capaz de abrir o portal. Será um festival de porradas, golpes de artes marciais fantásticos e de sangue. Apenas um sobreviverá.

Quando assisti a este filme pela primeira vez, minha bagagem de cinema oriental de horror era quase nula, e o que aconteceu foi uma atração imediata, achei ele muito foda. Nunca tinha imaginado zumbis samurais; as lutas são muito bem coreografadas, dá a impressão que querem realmente um acertar a cara do outro; e o nonsense das tretas contra os zumbis eram de tirar o fôlego.

Capa do DVD

Sim, tudo isso ainda é verdade, mas, ao ver o filme pela segunda vez, a animação cai consideravelmente, porque afinal o grande atrativo dele é o nonsense, a sangueira, e algumas situações e diálogos inusitadas e inesperadas. Quando o assistimos de novo, já vimos todas aquelas situações antes, então toda aquela empolgação some um pouco, e sentimos falta de pelo menos um pouco mais de história.

A história… Bom, na verdade não existe uma história, só uma desculpa para o diretor realizar cenas de violência, muito legais por sinal. Arrisco até a dizer, que se o filme for visto sem legendas por alguém que não entende nada de japonês, ele pode ser curtido numa boa.

Existem 666 portais para o inferno… Não existe coisa mais batida do que usar o número 666 para qualquer coisa. O portal em questão no filme é o 444, o que pelo menos no Japão parece ser também uma referência óbvia, já que o número 4 por lá representa a morte.  Então, a falta de cuidado com a história é clara.

Mas quer saber? Não importa, o filme é ótimo de assistir, bem daquelas diversões de assistir, dar risada, e falar, “noooossa, que legal”, junto com uma galera que curta produções despretensiosas. E não passa disso, delírio visual empolgante, um filme para ver, se divertir, mas é uma empolgação que só é totalmente efetiva quando o assistimos pela primeira vez. Tentar arriscar uma trama mais complexa tiraria todo o charme do filme.

Pois o filme tem estilo, um estilo que na verdade é a mistura (muitas vezes beirando ao plágio na cara dura) de muitos outros elementos tanto de cinema quanto de games, para criar personagens cool típicos da era pós-Matrix. Os zumbis muitas vezes aparecem como um simples incômodo, já que os personagens lidam com eles como se estivessem enfrentando uma gangue rival, sem nem ligar muito para o fato que são pessoas mortas saindo da terra diante dos seus olhos.

O protagonista de VERSUS

O personagem principal (Tak Sakaguchi) tenta ser uma espécie de clone do Neo de MATRIX, é o cara superfodão que pode arrebentar todo mundo. A mocinha tá lá, mas praticamente só porque o roteiro obriga, ela não faz falta nenhuma. O grande vilão da história é um espírito que busca vingança, mas pra falar a verdade, os personagens coadjuvantes (bandidos, policiais, e etc.) são os que melhor funcionam no filme. Um dos bandidos em especial, por ser cheio de trejeitos e comportamento claramente narcisista, rouba todas as cenas em que aparece. Muitas pessoas podem torcer o nariz para sua atuação exagerada, mas na minha opinião caiu muito bem no contexto do filme.

Vale ressaltar que, nenhum dos personagens tem nome no filme, mas não é por nenhum motivo artístico como, por exemplo, os personagens dos livros do José Saramago, e sim porque isso não faria diferença nenhuma. Apenas o ator principal é que é chamado algumas vezes de prisioneiro KSC2-303.

Os zumbis têm algumas particularidades interessantes, desde o começo, onde eram zumbis samurais, até o resto do filme, todos eles conseguem usar armas, sejam espadas ou revólveres, o que neste filme, de certa forma contribui para que as lutas sejam mais divertidas.

Sim, porque, se o filme for visto sem pretensões, ele se torna uma diversão até, de certa forma, surpreendente, pois é uma história bizarra executada de forma bizarra. Mas numa segunda olhada, quando já conhecemos toda a condução, pode se tornar até de certa forma monótono.

Em 2003 foi lançando ULTIMATE VERSUS, versão estendida do filme com mais 10 minutos de pancadaria.

O diretor Ryuhei Kitamura é conhecido por filmes como ARAGAMI, AZUMI, GODZILLA: FINAL WARS, e em 2008, já contratado pela indústria americana, dirigiu o filme MIDNIGHT MEAT TRAIN (no Brasil, O ÚLTIMO TREM), competente adaptação de um conto de Clive Barker de mesmo nome, encontrado em um dos volumes dos seus Livros de Sangue.

                                                                  Escrito por Renato Batarce.