Acho que todos concordam que a grande maioria dos filmes de zumbis caiu na mesmice já faz muito tempo… Os roteiros são os mais previsíveis do mundo, e me parece que a única diferença entre eles é se os zumbis vão ser inteligentes ou não, se vão correr ou tropeçar por aí, se comem apenas o cérebro ou o corpo todo das suas vítimas e mais um punhado de clichês que já encheu o saco até do fã mais carniceiro, ávido por tripas cenográficas e sangue de xarope de milho…

Mas vira e mexe aparece um filme inusitado, com um pouco mais de originalidade, provando que basta criatividade para salvar um filão tão explorado como o dos filmes de zumbis. Foi assim com a ótima comédia inglesa SHAUN OF THE DEAD de Edgar Wright (conhecido por aqui com o título ridículo e oportunista TODO MUNDO QUASE MORTO), um filme feito para homenagear o gênero, justamente debochando de todos os absurdos clichês destas produções, mas sem perder o ritmo ou errar a mão na palhaçada, mantendo sempre um bom nível de matança e diversão inteligente. Mais do que recomendado para os fãs de mortos-vivos.

Poster do filme

Mas o assunto aqui é outro, e tem nome: COLIN. Este filme teve muita repercussão na mídia ano passado, graças ao seu baixíssimo orçamento, algo em torno de $ 70,00 (£ 45,00), e também por ter sido selecionado para exibição no Festival de Cannes. Barulho feito, o filme vem sendo exibido em vários festivais pelo mundo, sempre com uma boa cobertura da imprensa, que não cansa de alardear sobre o orçamento do mesmo.

E eis que COLIN e seu diretor, Marc Price, aportaram aqui no Brasil, para uma exibição seguida de bate-papo, integrando a mostra não-competitiva de longas do 4º CineFantasy – Festival Curta Fantástico, ocorrido em novembro de 2009. Eu estava por lá para conferir, e posso dizer que o filme é realmente muito bom, inovador e interessante, e que Marc Price é um cara legal, que parece ainda não reconhecer o valor de sua obra, seja por humildade ou simplesmente porque caiu de pára-quedas na rota da indústria cinematográfica e dos festivais.

Ele mesmo endossa essa opinião, pois falou para todos os presentes na sessão que nunca teve a pretensão de ser cineasta, e que fez o filme por diversão, de forma totalmente independente e amadora. Se bem me lembro, Marc Price disse ser formado em artes plásticas, e gravou o filme ao longo de mais de dois anos, apenas nos fins de semana, com pessoas que se inscreveram como voluntários para o projeto através do Facebook e Myspace. Alguém perguntou a ele qual câmera havia utilizado para fazer o filme, e o mesmo confirmou o que se pode ler em alguns sites por aí, uma Panasonic mini-dv camcorder antiga, tendo usado o Adobe Premiere em um PC comum para a edição, durante todo o processo.

A história é bem simples: o protagonista, um jovem chamado Colin, está em desesperada luta pela vida durante uma infestação de zumbis. Já ferido e tentando se refugiar na casa de um amigo, acaba sendo mordido logo nos primeiros minutos da trama. É aí que está a grande sacada do filme. Depois de passar mal e desmaiar, Colin já “acorda” como um zumbi, e a partir daí o personagem vaga pelas ruas destruídas de um subúrbio da Inglaterra…

Acompanhando seus passos à procura de comida, o diretor capta nuances de sentimentos nas expressões de Colin; é realmente muito interessante ver que o morto-vivo sente medo e fome, e por vezes tem dificuldade para estabelecer relação entre seus semelhantes, até mesmo por ser um indivíduo novo no “grupo”, e é hostilizado por aqueles que são mais vorazes e violentos. Assim como no reino animal, onde é preciso confiar nos instintos para sobreviver, Colin vai aprendendo a se aproveitar de certas situações para poder se alimentar, e aos poucos vai se tornando mais persistente e selvagem.

O ritmo do filme é um pouco lento, principalmente na primeira metade da história, mas não chega a comprometer o resultado. Por ser filmado com equipamento amador, muitas vezes com a câmera à mão, o longa acaba passando uma sensação de proximidade com o espectador, e muito do que é mostrado na tela vem à nós pela ótica do protagonista. Nas cenas de ação, lembra muito os registros de reportagens policiais, durante manifestações turbulentas ou quando irrompe um tiroteio durante a matéria… Um verdadeiro pandemônio.

Duas cenas merecem destaque: uma delas é extremamente claustrofóbica, se passa numa casa lotada de zumbis, onde poucas pessoas tentam desesperadamente se defender do ataque deles. Outra é no fim de uma grande e sangrenta batalha, em que um grupo de pessoas que caçam os mortos-vivos faz o balanço da carnificina, e basta dizer que não há possibilidade de feridos voltarem para casa.

Este filme merece ser visto por quem gosta de cinema independente, filmes de horror e por todos aqueles que apreciam cinema não só como entretenimento escapista,  mas também como forma de expressão artística. É muito bom ver até onde um cineasta pode chegar com um orçamento tão limitado, mas com muita vontade de inovar. Fica a torcida para que Marc Price resolva nos presentear com mais um grande filme em breve; incentivo da mídia e dos fãs ao redor do mundo é o que não vai faltar.