O mercado cinematográfico japonês é bastante prolífico. Todo ano são produzidos filmes de diversos gêneros, e parece que existe grande empatia do público nipônico com o cinema trash. Não é difícil procurar por cinema japonês tosco na net, normalmente ouve-se falar mais destes filmes do que sobre as produções mais convencionais do país.

Parece que por lá existe uma grande admiração por produções baratas, tanto para cinema quanto para a televisão, e em matéria de produção simplória, THE MACHINE GIRL está bem cotado.

Capa do DVD

O filme tem violência em níveis absurdos, cenas deliberadamente engraçadas e outras que de tão ruins, acabam transformando várias partes da obra em comédia involuntária. Temos também várias atuações picaretas e algumas cenas clichês permeando o longa, mas toda essa porcaria aqui mencionada não acaba com a diversão do espectador ao assisti-lo. Pelo contrário, creio que todos estes fatores aumentam muito o prazer de ver essa bomba cinematográfica. Talvez porque o filme não seja pretensioso, como tantos outros por aí.

A história gira em torno de Ami, uma jovem garota que perde o irmão tragicamente, vítima de valentões na escola. Ela promete se vingar dos responsáveis pela morte do irmão, e sai ao encalço deles. Após um bizarro incidente na casa de um dos garotos, a fúria assassina da protagonista vem à tona, e a partir daí o filme é um verdadeiro banho de sangue.

Decapitações, desmembramento, porrada e sangue ralo (que mais parece groselha com água espirrando na cara dos atores, de tão líquido que é o negócio), se misturam à diálogos absurdos, atuações patéticas e erros de continuidade. E a coisa só melhora, pois a garota descobre que o líder da gangue que espancava seu irmão, é filho de um chefão da Yakuza, e o garoto coloca diversos capangas na cola dela.

Em uma tentativa frustrada de matar o garoto, Ami acaba sendo capturada e torturada pelos pais dele e seus subordinados, e numa cena que só pode ser classificada como ridícula, perde seu braço esquerdo. Mas como este é um filme trash por excelência, não é difícil imaginar que Ami escapa (ignorando o fato de ter ficado acorrentada apanhando durante horas, e tendo um de seus braços decepados por uma katana a sangue frio).

E tudo isso que foi dito aqui não é spoiler não, já dá pra sacar vendo o trailer que circula na net. E convenhamos, não precisa ser gênio pra saber o que vai acontecer daqui pra frente no filme. A garota pede ajuda aos pais de um amigo de seu irmão, que foi morto no mesmo incidente, e por obra do destino os pais dele são mecânicos e ex-membros de uma gangue de motoqueiros.

Na cabeça do diretor, ser mecânico os habilita também a criar uma enorme metralhadora rotatória que se encaixa perfeitamente no cotoco que sobrou do braço esquerdo da menina, e sabe-se lá como aquilo é acionado na hora de disparar (além do fato de que eles são ótimos cirurgiões, pois não só salvam a vida de Ami como dão um jeito em seu braço amputado, apenas com agulha e linha). Agora, devidamente armada, treinada e furiosa, é hora de voltar para a carnificina!

Abro um parêntese aqui para falar dos efeitos especiais da produção, pois faz tempo que não vejo moldes tão toscos quanto os que andam sendo usados nos filmes da nova safra nipônica… Parecem até massa de bolo! E não pensem que eu prefiro computação gráfica no lugar de moldes, animatronics, matte paintings ou qualquer outra técnica mais artesanal, pelo contrário, acho muito melhor quando são utilizados estes recursos mais tradicionais, especialmente em filmes de horror, ação ou ficção científica, pois acredito que agregam mais valor artístico às obras (até hoje, acho imbatível a cena de transformação presente em UM LOBISOMEN AMERICANO EM LONDRES de John Landis, cortesia do talentosíssimo Rick Baker, o melhor artista de efeitos especiais que conheço – e isso em 1981). De qualquer forma, a empresa responsável pelos efeitos especiais é a Nishimura Motion Picture Model Makers Group, empresa japonesa de Yoshihiro Nishimura, que embora apresente moldes um tanto quanto molengas e disformes, parece ter uma carreira consistente, visto a quantidade de produções que utilizam seus serviços de efeitos especiais (e para os que reparam nesses detalhes, a empresa tem deixado todos os filmes trash japoneses com a mesma cara, é só dar uma olhada em VAMPIRE GIRL vs. FRANKENSTEIN GIRL, MEATBALL MACHINE, SAMURAI PRINCESS entre outros…)

No meio disso tudo, tem até espaço para o diretor homenagear um filmaço das antigas, o clássico do Kung Fu exploitation O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA de Jimmy Wang Yu, que dizem por aí ser um dos filmes ao qual Quentin Tarantino se refere como sendo um de seus preferidos. Reparem que o chefão da Yakuza utiliza uma Guilhotina Voadora para tentar matar Ami, como se essa fosse a arma mais convencional do mundo.

A Guilhotina Voadora...

 
 

Em suma, THE MACHINE GIRL é um filme menor, mas que por ser completamente descompromissado com a realidade, e até com a verossimilhança dentro do próprio roteiro, tem um resultado bem mais agradável do que filmes que sofrem por se levar à sério demais como TOKYO GORE POLICE do já citado Yoshihiro Nishimura.

PS: Falando em filme com mulheres que se vingam promovendo uma grande matança, me pego pensando como eu gostaria que Quentin Tarantino houvesse escalado qualquer outra pessoa para o papel da noiva em KILL BILL VOLUME 1 & 2… Assistindo THE MACHINE GIRL, dá para se ter uma idéia de como os filmes seriam imensamente melhores se não tivéssemos que nos acostumar com a idéia de que a enorme e desengonçada Uma Thurman é “a mulher mais mortífera do mundo…” Custava ele ter dado o papel para aquela japa com cara de mal que luta com ela usando uma bola cheia de lâminas (Chiaki Kuriyama do insano BATTLE ROYALE de Kinji Fukasaku)? Ou até mesmo às melhores atrizes de ação de Hollywood, Linda Hamilton ou Sigourney Weaver? Pensando bem, serviria até a Hilary Swank ou Michelle Rodriguez, se não quisesse arriscar tanto a bilheteria da produção…