Começa amanhã a mostra “Todos os corpos” na Galeria Olido, aqui no centrão de São Paulo, paralelamente ao 18º Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual, que também começa a ser exibido no mesmo dia.

A mostra “Todos os corpos” tem por objetivo “fazer um panorama sobre os registros do cinema a respeito do corpo” segundo a equipe da Galeria Olido. Serão exibidos filmes que contém cenas de sexo simulado (softcore) e sexo explícito. Até aí tudo beleza, isso não é nenhuma novidade neste espaço cultural, pois o Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual já vem trazendo este tipo de tema e abordagem cinematográfica à telona neste mesmo local faz algum tempo. 

Embora a mostra seja composta predominantemente por filmes de grande apelo erótico de renomados diretores, o que me chamou mais a atenção na seleção de filmes foi a escolha do polêmico SWEET MOVIE  para integrar a grade de exibições.

SWEET MOVIE é um filme de arte de 1974 do diretor Iugoslavo Dusan Makavejev, que causou grande rebuliço em sua estréia, por conter cenas bem gráficas de Coprofilia e Emetofilia, ou seja, cenas com pessoas que se excitam ao ter contato com as fezes e urina de outras, e também tem o singelo hábito de vomitar durante seus atos sexuais, respectivamente. Quem puder assistir verá que a certa altura a protagonista do filme se abriga em um enorme galpão com uma espécie de trupe teatral, e todos se juntam à mesa para um banquete animado; a partir daí só os espectadores de estômago forte continuam assistindo à cena sem se incomodar com a catarse escatológica que se segue.

Dando uma vasculhada pela net achei a informação de que algumas das cenas enxertadas na montagem (cenas em preto e branco que mostram cadáveres em decomposição ao ar livre) são imagens reais de vítimas de um triste evento conhecido na Polônia como Massacre da Floresta de Katyn, ocorrido na década de 40, e estas cenas enfureceram a opinião pública na época do lançamento da película. Por estas e outras o filme foi proibido em muitos países por muitos anos, e continua vetado em algumas localidades. Com o advento das mídias digitais e da facilidade da livre transferência de dados via web de hoje em dia (a boa e velha pirataria), o filme já não é mais tido como um filme raro, mas continua sendo controverso.

A história do filme é interessante, vale a pena dar uma espiada, o roteiro é recheado de alegorias sobre a sociedade moderna, tem belíssimas cenas, bela fotografia e boas atuações. A meu ver, a parte mais politicamente incorreta da obra está na sequência em que Anna Planeta, uma espécie de pirata revolucionária, recebe em seu barco algumas crianças, moleques com não mais do que 12 anos de idade, e os seduz com um strip-tease enquanto eles comem alguns doces (lembrando que são atores mirins, e que ela fica completamente nua a uns 10 centímetros da cara deles).

Bem, a conclusão desse falatório todo é que se pode ter acesso ao cinema de arte, underground, extremo ou o que quer que seja, não só pela net, mas também na telona, pagando a módica quantia de R$ 01,00. É ou não é motivo para se comemorar?

Abaixo, listo algumas sugestões de filmes que serão exibidos, acompanhadas de considerações pessoais para ajudar na escolha de quem puder comparecer à mostra (convenhamos, não é todo mundo que pode se dar ao luxo de ir ao cinema às 15:00 em dias de semana), e no fim do post o link para a programação no site da Galeria Olido:

IMPÉRIO DOS SENTIDOS
(Ai no corrida, Japão, 1976, 97 min). Dir.: Nagisa Oshima. Com Eiko Matsuda, Tatsuya Fuji, Aoi Nakajima e outros.
Dois amantes se reúnem para experimentar formas de prazer que ampliem as possibilidades de amor, sem se importar com fronteiras morais ou sociais.
(nota: Espetacular filme do mestre Nagisa Oshima, com fotografia impecável, ótimo roteiro e figurino, e com um final de certa forma surpreendente para um filme tido como pornográfico, mas que na verdade, se utiliza do sexo explícito e do erotismo como veículo para representar as emoções  dos protagonistas).

SALÓ
(Salò o Le 120 giornate di Sodoma, Itália, 1975, 117 min). Dir.: Pier Paolo Pasolini. Com Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Umberto Paolo Quintavalle e outros.
Adaptação de obra do Marques de Sade, o filme mostra quatro homens poderosos enclausurados em uma mansão para viver todo o tipo de orgias e torturas com garotos e garotas, embalados por histórias narradas por prostitutas.
(nota: Tenso e cruel. Para quem gosta de torturas e sevícias de todo o tipo. Não confundir com porcarias como a franquia JOGOS MORTAIS, Pasolini tem estilo).

O VOYEUR
(L’uomo che guarda, Itália, 1994, 100 min). Dir.: Tinto Brass. Com Franco Branciaroli, Francesco Casale, Katarina Vasilissa e outros.
História de homens e mulheres que olham e são olhados, como o jovem professor universitário, sua mulher bonita e infiel, seu pai libidinoso e uma desinibida empregada doméstica.
(nota: Esse é mesmo para quem é chegado numa safadeza. Não qualquer safadeza, mas sim com a marca de Tinto Brass na direção, o mesmo diretor do aclamado CALÍGULA de 1979, com Malcolm McDowell).

SWEET MOVIE
(França, 1974, 99 min). Dir.: Dusan Makavejev. Com Carole Laure, Pierre Clémenti, Anna Prucnal e outros.
Repleto de surrealismos e escatologias, o filme conta, paralelamente, as histórias de duas mulheres: uma que deixa o marido por não gostar de sexo e se envolve com um roqueiro, e a outra que comanda um barco onde discute sexo e política.

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/galeria_olido/cinema/index.php?p=6018