Para dar o chute inicial no “Mês Takashi Miike” aqui no blog, o Batata escreveu sobre SUKIYAKI WESTERN DJANGO, um western bem diferente, feito pelo diretor em 2007, traçando um paralelo com outras duas obras, verdadeiros clássicos do cinema:

Quer gostem ou não, Takashi Miike é um ícone cult. Apesar de alguns o considerarem um diretor de filmes de Yakuza, outros um diretor de cinema de horror, quem conhece melhor sua obra sabe que é impossível defini-lo em apenas um gênero (afinal, até pelo infantil ele se aventurou), apesar de sempre ter aquele toque de exagero surpreendente com classe, que acabou se tornando sua marca.

No quesito violência, podemos dizer que, pelo menos no Ocidente, esse exagero foi fundamental para formar sua legião de fãs, entre eles, nomes bem conhecidos como Quentin Tarantino, Benicio Del Toro, Eli Roth, e todo o resto do Splat Pack.

Como todos sabem, esses cineastas são bem unidos, e sempre acabam firmando uma amizade entre si, trocando idéias e formando parcerias. Pra quem não lembra, Takashi Miike fez uma participação relâmpago em O ALBERGUE (HOSTEL, 2005), escrito e dirigido por Eli Roth e apadrinhado por Tarantino.

Em SUKIYAKI WESTERN DJANGO, percebemos uma grande influência dessas parcerias. Sim, é um bom filme, e Takashi Miike fez um grande trabalho em vários aspectos, mas acabou tornando-se um dos seus filmes com a linguagem mais pop, e em alguns momentos tentando se forçar a parecer cult. Notam-se também um ou outro diálogo um pouco longo e insólito demais, que parece soar mais como algo escrito por Tarantino, que inclusive participa do filme.

Bom, mas vamos à história, SUKIYAKI WESTERN DJANGO é um trocadilho com os filmes de faroeste italianos (Spaghetti Western), junto com o nome do famoso personagem Django, inclusive utilizando a mesma música do filme (composta por Luis Enríquez Bacalov, letra por Franco Migliacci), só que em uma versão cantada em japonês.

Após uma breve introdução (com a atuação de Tarantino), começa a história do pistoleiro solitário e sem nome (Hideaki Ito), que chega em um vilarejo dominado por duas gangues rivais, os Brancos e os Vermelhos. Após uma breve demonstração de suas habilidades, os dois grupos se interessam por ter o pistoleiro do seu lado, porém, após ouvir da senhora Ruriko (Kaori Momoi) a história de como o vilarejo foi tomado e como famílias foram destruídas, o solitário viajante decide ao mesmo tempo satisfazer seus interesses, e libertar o vilarejo do domínio das duas gangues.  Isso tudo usando principalmente de inteligência e astúcia.

Takashi Miike cria um western bem peculiar, com um clima épico, que engrena a partir da sua segunda metade que é mais dinâmica, e consegue mesclar momentos de drama, violência, ação e comédia. Aliás, não deixa de ser hilário alguns atores pronunciando suas falas com um sotaque extremamente canastrão, já que são atores japoneses, e o filme é todo falado em inglês.

O clima é bem menos sério que em westerns convencionais, além disso, tanto atuações, quanto figurino (e certas vezes cenário) são levados mais para o lado teatral. A verossimilhança não é o forte do filme, e pela maneira como o diretor o conduz, ele acertadamente deixa claro que nem deveria ser. Apesar disso, muitas vezes ficamos com a impressão de que, certas coisas que acontecem, não tem outra razão de ser, além de parecer “cool”.

O elenco é ótimo, Hideaki Ito já atuou em 30 filmes, entre eles, ONMYOJI partes  1 e 2. Yusuke Iseya, o líder dos brancos, foi o protagonista em CASSHERN (de Kazuaki Kiriya, 2004), e foi o primeiro cego no filme ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Fernando Meirelles, de 2008). Masanobu Ando de BATTLE ROYALE (de Kinji Fukasaku, 2000) também faz uma participação pequena, mas importante na história. Mas o grande destaque fica por parte da multipremiada atriz veterana Kaori Momoi (sim, ela rouba a cena do filme), que atuou em mais de 70 filmes, entre eles IZO (também de Takashi Miike, 2004), MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (de Rob Marshall, 2005) e KAGEMUSHA, A SOMBRA DE UM SAMURAI (de Akira Kurosawa, 1980).

Apesar de um ou outro momento incomodar um pouco, gostei do filme. Mas a influência externa é clara, e não estou falando apenas dos diretores citados anteriormente. A história do viajante sem nome não é novidade, e apesar de nesse filme o revólver e a espada dividirem o status de arma principal, no passado elas se apresentaram separadamente em duas outras grandes produções.

YOJIMBO (Akira Kurosawa – 1961)

Nesse filme, o viajante sem nome (sim, sem nome, porque fica claro no filme que o nome com que ele se apresenta foi inventado na hora) é um ronin, um samurai errante, interpretado pelo lendário ator Toshiro Mifune. Sua filmografia é extensa e invejável; só para citar dois exemplos, atuou em OS SETE SAMURAIS (1954), e TRONO MANCHADO DE SANGUE (1957), ambos também de Kurosawa.

Apesar de se passar no Japão feudal do século 19, Kurosawa consegue criar no filme (propositalmente), um clima Western inspirado nos filmes de John Ford, e consegue mostrar a burguesia da época de forma bem satírica, contrastando com a situação desesperadora das classes mais baixas.

Mas o grande destaque da direção está no posicionamento das câmeras. Kurosawa e o diretor de fotografia Kazuo Miyagawa conseguem criar enquadramentos belos e eficientes, conseguindo mostrar tudo que precisava ser visto na cena de uma vez, sem se tornar confuso. Todas essas qualidades, aliadas ao figurino (que concorreu ao Oscar) e à trilha sonora composta por Masaru Sato, transformam esse filme num grande clássico.

No final, discípulo se torna mestre, e Yojimbo acaba por mudar o estilo de se fazer Western, como comprova sua refilmagem feita por Sergio Leone. Vale lembrar que assim como SUKIYAKI, essa refilmagem também não é oficial.

A FISTFUL OF DOLLARS (Sergio Leone – 1964)

Provavelmente o mais famoso entre os três, possui novamente um protagonista marcante, interpretado por Clint Eastwood em seu auge no gênero.

Além da grande atuação do ator, como um pistoleiro mal encarado, inteligente e de olhar assustador (não mexam com sua mula), outra característica marcante da produção é a música composta pelo gênio Ennio Morricone, responsável por incontáveis trilhas sonoras marcantes. Recebeu inclusive das mãos do próprio Clint, um Oscar honorário em 2007 pela importância do seu trabalho. Merecido, pois a introdução do filme (com uma música que iria se repetir em versões diferentes nas duas continuações posteriores do filme) é emocionante.

Com todos esses elementos, e com uma direção que sabe muito bem carregar na tensão, Sergio Leone populariza o gênero Spaghetti Western, muito mais dramático e humano do que o Western americano na época. O filme gerou mais duas continuações, POR UNS DÓLARES A MAIS (FOR A FEW DOLLARS MORE, 1965), e TRÊS HOMENS EM CONFLITO (THE GOOD, THE BAD, AND THE UGLY, 1966), formando a Trilogia dos Dólares, ou a Trilogia do Homem Sem Nome.

Apesar de a figura de Clint nesses filmes ser icônica, antes de lhe oferecer o papel, Sergio Leone já havia cotado Henry Fonda, e depois Charles Bronson, mas ambos recusaram o papel.

Muito mais parecido com YOJIMBO do que o filme de Miike, nessa produção conseguimos identificar facilmente os personagens do filme de Kurosawa em sua versão italiana. Interessante notarmos a ordem dos acontecimentos, uma mesma história que começou no Japão e foi até a Itália, volta ao Japão de um modo totalmente diferente, sem contar que, de alguma forma, todas essas produções foram influenciadas também pelos Estados Unidos. Sendo assim, acho interessante que os três filmes sejam assistidos, pois além de serem ótimos isoladamente, todos tem seu próprio estilo de contarem praticamente a mesma história.

Escrito por Renato Batarce.