O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA é um daqueles filmes que só vendo para crer. Saído da mente do outrora astro chinês Jimmy Wang Yu (diretor, produtor, ator e roteirista de várias pérolas da pancadaria), este filme é um clássico das produções picaretas de Kung Fu que se alastravam na Ásia em meados da década de 70.

Wang Yu já fazia sucesso em sua terra natal desde 1967, quando estrelou THE ONE-ARMED SWORDSMAN, clássico do gênero Wuxia (filmes que narram as aventuras de lutadores e personagens míticos da história da China, assemelhando-se aos romances de cavalaria ocidentais) produzido pelo Shaw Brothers Studios. Muitos atribuem a ele o primeiro boom dos filmes de luta sem armas na China, com o filme THE CHINESE BOXER de 1970, também conhecido como HAMMER OF THE GODS, e muito pouco tempo depois um certo rapaz chamado Bruce Lee iria revolucionar e solidificar o gênero dentro e fora da China, tornando-o uma verdadeira epidemia mundo afora.

Na verdade, O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA é uma sequência direta do filme ONE ARMED BOXER de 1973, também dirigido e estrelado por Wang Yu. No primeiro filme, o protagonista Liu Ti Lung faz parte de uma escola de artes marciais que entra em conflito com uma escola rival. Os inimigos, na impossibilidade de ganharem em uma competição justa, armam uma emboscada, contratando vários assassinos de aluguel, promovendo assim um massacre em que todos da escola de Liu Ti Lung são mortos, restando apenas ele como sobrevivente, que acaba perdendo um braço. Após um treino árduo, o agora “lutador de um braço só” inicia sua sangrenta vingança contra o clã inimigo.

Este é o ponto de partida desta sequência. Dois lutadores que foram derrotados no filme anterior (que estranhamente se disfarçavam de monges tibetanos) eram, na verdade, discípulos de um velho mestre de Kung Fu, Fung Sheng Wu Chi, que havia sido contratado pelo Imperador Yung Cheng para encontrar e matar rebeldes avessos à nova Dinastia Manchu Ching, utilizando-se de uma nova e poderosa arma, a Guilhotina Voadora. Essa engenhoca é digna de uma explicação mais detalhada: basicamente consiste em uma espécie de leque circular, algo como a armação de um pequeno guarda-chuva revestido por um tecido e uma rede, presos a uma corrente, com inúmeras lâminas no interior. Ao ser lançada, soa como o disparo de uma arma de fogo, e a armação envolve a cabeça do oponente, que tem a mesma decepada no momento em que a corrente é puxada de volta. Loucura pouca é bobagem…

Ao receber a notícia da morte de seus discípulos através de um pombo-correio, o velho mestre, que é cego, decide vingá-los lançando mão desta insólita arma. Após destruir a casa onde vivia disfarçado nas montanhas, Fung Sheng Wu Chi parte em peregrinação à procura de Liu Ti Lung, trajando uma espalhafatosa vestimenta vermelha e amarela, com uma enorme suástica estampada em seu peito (?).

Liu Ti Lung agora possuí uma escola de artes marciais famosa, e seu nome se tornou bem conhecido no país. Ele recebe a notícia de que haverá um torneio de lutas promovido por uma grande escola, e mesmo não tendo intenção de participar, é convencido por seus alunos a comparecer e levá-los para o evento, para que possam conhecer novos mestres e novos estilos de luta.

A partir daí a bizarrice rola solta, o torneio é uma sucessão de lutas toscamente coreografadas com personagens absurdamente caricatos e hilários, quase uma versão pré-histórica da franquia de jogos Street Fighter (por falar em Street Fighter, um dos personagens do filme, um indiano chamado Yoga Tro La Seng, serviu claramente de inspiração para o personagem Dhalsim, tendo inclusive o poder de esticar seus braços como o personagem do jogo).

Yoga Tro La Seng

É exatamente isso que mais gosto nos filmes de artes marciais chineses: se alguém sabe lutar Kung Fu, então não há motivos para que essa pessoa não possa sair por aí voando, flutuando, escalando paredes, sumindo em meio às sombras, tenha superforça ou até mesmo que libere energia pela palma das mãos quando luta. Neste caso, a cegueira do Mestre da Guilhotina Voadora não o impede de caçar Liu Ti Lung, matando todo e qualquer maneta em seu caminho (acreditem, existem ao menos dois outros lutadores sem um dos braços neste filme).

Mas não se enganem pelo roteiro mirabolante… Ao contrário do que parece, esse filme passa longe de ser ruim. A pancadaria só aumenta, e alguns dos competidores do torneio resolvem ajudar Fung Sheng Wu Chi a matar Liu Ti Lung, que reconhecendo não ter chance contra o velho mestre e sua poderosa arma, cria uma estratégia para derrotar seus perseguidores. Vale a pena conferir o desfecho história, e como é de praxe em bons filmes de Kung Fu, a batalha final é longuíssima: algo em torno de 10 minutos ininterruptos de ação!

Clássico absoluto, O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA é lembrado por muitos como um dos melhores e mais emblemáticos filmes de Kung Fu da década de 70, e já foi apontado por gente do calibre de Quentin Tarantino como um dos 20 melhores filmes dentro do cinema exploitation.

Fung Sheng Wu Chi